Yuri Semin já está no comando do Lokomotiv desde 1986. Tirando um ano na Nova Zelândia, em 1991, cresceu e envelheceu com o clube. Na hora em que reconquista o titulo, a actual forma de jogar da equipa já não tem, no entanto, qualquer ponto de contacto com o estilo do inicio do ciclo, metamorfose á qual não são alheios os 16 estrangeiros que compõe o actual plantel. Esta é, de resto, uma realidade que atinge todo o futebol russo. Nesse contigente, porém, quase todos provêm das antigas republicas soviéticas. O grande choque cultural desta nova era pós-URSS, nasce, sobretudo, da inserção do imaginativo estilo sul-americano e do facto de muitos dos novos talentos do futebol russo, como Izmailov, Arshavin ou Loskov, já terem uma criatividade muito maior do que a dos frios executantes soviéticos. A inclusão de brasileiros num onze de leste, jogando em campos quase gelados e rodeados de neve, continua, no entanto, a provocar uma sensação estranha. A classe técnica equilibra-se, porém, da mesma forma no frio, sobretudo quando emoldurada numa moderna condição táctica e atlética.
Neste sentido, destaca-se no Lokomotiv de Semin, adepto do 4x2x3x1 com dinâmica de 4x3x3, o papel do veterano trinco volante Lima, mestre em fechar, discretamente, todos os espaços a defender -como aprendera na Roma de Capelo- soltando na sua frente o playmaker Loskov e o vagabundo Izmailov, enquanto no ataque solta-se a velocidade de Sychev, exímio a desmarca-se nos espaços vazios, e Bilyaletdinov, ala esquerdo. Foi, no entanto, a entrada do pêndulo Lima, a meio da época, o pormenor que deu maior consistência técnico-táctica colectiva ao onze no ataque ao titulo, após durante quase toda a campanha terem sido o Zenit St.Peterburg e CSKA a dominar, duas equipas que, alternado entre o 4x4x2 e o 3x5x2, também evidenciam o novo multicultural estilo russo. Um aroma evidenciado, sobretudo, pelo checo Jarosik e pelo brasileiro Wagner Love no CSKA, enquanto, no Zenit, emerge a nova pérola do futebol russo, Arshavin.
Por entre toda esta nova babilónia, o futebol russo sofre por resgatar a sua verdadeira génese. Faltam-lhe, em termos de modelo de jogo, referências estilísticas sólidas. Perdeu a mecanização de outrora e não conseguiu ainda descobrir as bases ideais para assentar o estilo mais criativo das novas gerações.