Os estilos, no futebol, podem andar completamente adulterados, mas existem factores quase imutáveis. Inglaterra é hoje o melhor palco para perceber esse histórico choque de conceitos. O novo Manchester City não pára de gastar dinheiro e comprar estrelas. Esta semana chegou Balotelli. Junta-se no ataque a Tevez, Adebayor, entre outros, mas, no jogo inaugural da Premier League, contra o Tottenham, Mancini, fiel ao seu código táctico italiano monta uma equipa com três trincos (De Jong-Barry-Yaya Touré), base de um 4x3x2x1 que com os recuos forçados dos alas Wright-Philips e Silva, fica, quase todo o jogo, num 4x5x1. É Silva, aliás, que vem buscar a bola atrás para transportar jogo para a frente.
Do outro lado, Redknapp é um treinador britânico no mais puro sentido epistemológico do termo. Aborda o jogo em 2010 da mesma forma como qualquer outro técnico inglês o abordaria nos anos 50. Sinceridade pura. O adversário (entenda-se suas características especificas) quase nem existe. O seu Tottenham joga no mais básico 4x4x2. Puxa o galês Bale de lateral-esquerdo para médio ala e mete músculo no centro. Pressiona cada bola como se fosse a última e sufoca o Manchester City. Acaba 0-0 como podia ter goleado (fabulosa exibição de Hart na baliza do City, a dizer que, por fim, a Inglaterra descobriu um guarda-redes para a sua selecção). No final, fica a certeza de que com esta ideia táctica é impossível Mancini sonhar vencer a Premier League.
Poucos dias depois, Redknapp defronta, na Suíça, para a Champions, o esforçado mais pouco talentoso Young Boys. Mexe no meio-campo (mete Palacios, sai Lennon) mas, ao velho estilo britânico, o seu Tottenham entra em campo sem olhar para o lado e, mal a bola começa a rolar, fica a sensação que desconhece totalmente as características do adversário tal o espaço que lhes dá, sobretudo a um médio como Hochtrasser e três avançados perigosos (Constanzo-Lulic-Bienvenu). Em menos de meia-hora está a perder…3-0! Como a diferença de valores individuais era enorme, a reacção dos jogadores, por si só, reduziu para 3-2 e agora há a segunda mão.
O futebol inglês tem um instinto competitivo de primeira qualidade, mas tão afastado da sensibilidade táctica que pode trair as intenções mais saudáveis. Esse «problema» não existe em Itália, mas quando olho para o lado e vejo o futebol que Mancini importou para Manchester, tenho a tentação de atirar todos os livros de tácticas pela janela fora. Haverá, claro, outras formas de vida (entenda-se tipos de treinadores) entre Redknapp e Mancini, mas num tempo de extremos tudo isto causa tonturas. As equipas castigadas pelo sistema táctico (sua quase ausência ou presença excessiva).