Os fantasmas de Famagusta

October 30, 2002 12:00 AM
Desenhado no emblema que os seus jogadores exibem orgulhosamente no peito, a imagem de Phoenix, o mítico pássaro que renasceu das cinzas, levantando voo sobre as chamas, é mais do que um mero símbolo do Anorthosis. Na moral dessa velha lenda, para lá das quatro linhas de um relvado de futebol, mora o mais profundo sentir de um clube de refugiados, forçado, após a invasão turca de 1974, a abandonar a sua terra mãe: a ancestral Famagusta, hoje uma cidade fantasma, onde agonia o velho Estádio de Ammochosos, abandonado nas proximidades da linha verde que divide a Ilha de Chipre.
Vitima de um ancestral conflito territorial que desde tempos remotos colocou a Ilha da Chipre no centro de um terrível disputa entre turcos e gregos, a história do velho Anorthosis, um dos mais antigos clubes cipriotas, fundado em 1911 na lendária cidade de Famagusta, confunde-se, no seu mais intimo ser, com a atormentada história da nação cipriota, a única cuja capital, Nicócia, se encontra dividida. É a famosa Linha verde, uma fronteira de arame farpado que desde 1974, data da invasão turca, divide a ilha em duas partes, cada qual com a sua comunidade reinante. No meio, como que bailando num limbo, entre a Republica de Chipre e as áreas ocupadas, está um território sob administração da ONU. Dentro dele, a leste, envolta pela poeira da história, paira uma cidade fantasma: Famagusta. Longe vão os tempos em que os seus habitantes se passeavam orgulhosamente pelo átrio da bela Catedral de St.Nicholas. Na memória de todos eles, cerca de 40 mil, ainda moram as imagens dos bombardeamentos turcos de napalm que reduziram a escombros quase toda a cidade, obrigando os seus habitantes a fugir, procurando exílio noutras paragens. Como fazendo parte da cidade e das suas gentes, o futebol e o Anorthosis cruzam-se com todas estas atmosferas. Hoje tudo mudou. Após alguns anos vagueando como uma sombra errante, sem encontrar um novo espaço para se abrigar, acabou por ser adoptado pela cidade de Larnaca, passando, depois, nos anos 80, a jogar em Paralimni. Uma história que se resume numa frase de Kikis Constatinou, o presidente, próspero empresário do ramo hoteleiro, que, desde 1988, relançou o clube na senda dos triunfos: “Somos um clube de refugiados com a missão de divulgar ao mundo a velha Famagusta”. Um sonho que se tornaria realidade nos anos 90, nos quais conquistaram 5 títulos –95, 97, 98, 99 e 2000- de campeão cipriota (o último fora em 1965), devolvendo o sorriso aos velhos adeptos do Anorthosis.

Kyriakov, Mihailovic, Okkas... Os memoráveis anos 90

Por entre essas memoráveis épocas de renascimento passaram vários jogadores de eleição, tais como, entre outros, o avançado georgiano Ketsbaia, hoje regressado, Sinisa Gogic, um jugoslavo naturalizado cipriota que seria eleito o melhor jogador estrangeiro na Grécia em 98, ano seguinte á sua venda pelo Anorthosis, Mihailovic, o goleador do titulo de 99, um famoso trio de búlgaros, Todorov, Kyriakov e Ignatov, todos depois presentes no Mundial, e, por fim, o diabólico avançado cipriota Okkas, hoje ponta-de-lança do PAOK Salónica. Cada qual na sua época recolocaram o Anorthosis no topo do futebolo cipriota, hoje cada vez mais respeitado. Longe vão os tempos, como na época de 83/84, quando, paralisado pelo medo, o onze de Famagusta foi esmagado, em Munique, pelo Bayer: 10-0! Resultados destes são impensáveis no presente, como comprovam as ultimas participações do Anorthosis nas competições europeias, cujo maior feito até agora, foi, a eliminação do Inter Bratislava da Liga dos Campeões em 99/2000 (1-1 e 2-1), e as vitórias sobre o Ath.Bilbao, 2-0, em 94/95, e o Légia Varsóvia, 2-0 e 1-0, em 98/99, para a Taça UEFA. Esta época, outra proeza passou a constar a letras de ouro no seu historial: a eliminação dos gregos do Iraklis, um vizinho rival (2-4 e 3-1), que levou á loucura os seus adeptos. O próxima utopia é eliminar o Boavista.

A nova força do futebol cipriota

Depois de nas últimas épocas ter estruturado a equipa em torno da conexão polaca estabelecida entre o técnico Nikolai Kosdov e os perigosos Kowalczyk e Majak, os principais dinamizadores do onze, o Anorthosis sofreu uma pequena revolução no inicio desta temporada que levou ao afastamento deste duo polaco, por motivos que ultrapassaram questões desportivas. Pouco tempo antes, na sequência da goleada sofrida frente ao Apoel Limassol para a Super Taça de Chipre, 6-3, também o treinador Kosdov fora afastado do banco. Para o seu lugar foi chamado outro polaco: Edwards Lorens, antigo vice-presidente e treinador-adjunto do Gornik Zabrze. No Anorthosis, encontrará, ainda, duas estrelas polacas: o médio Piekarski e o defesa internacional Michalski, muito inteligente a sair para o ataque, ex-Maccabi Haifa. Tacticamente, a equipa baseia o seu jogo no clássico 4x4x2. Na baliza está um excelente guarda redes, titular da selecção de Chipre: o capitão Panagitou. Á sua frente, no sector defensivo, junto de Michalski, saliente-se a presença do polivalente Foukaris, que também pode ser médio, Konnafis, ex-Omonia, titular da selecção cipriota, muito seguro no jogo aéreo, Brunswijk, sempre seguro, Nicolau, ex-Salamina, muito personalizado e com boa técnica gosta de subir no terreno e o jovem Yiannakou, 20 anos, internacional Sub-21, uma grande esperança. No meio campo, onde também se destacam o grego-cipriota Velis, ex-PAOK, Pounas, um veterano médio-defensivo, Thouppas, muito criativo, Stylianides, bom nos cruzamentos e nas assistências, e outra jovem esperança Parmakis, 20 anos, dono de excelente sentido de passe.

Ketsbaia e Neophytou: As grandes estrelas

Sem Kowalczyk e Majak, a actual estrela maior da equipa é o veterano médio-ofensivo gergiano-cipriota Timouri Ketsbaia, antiga figura do Dinamo de Tiblissi, 34 anos, regressado esta época ao Anorthosis, após ter saído em 1995 para ingressar no AEK. Depois dessa experiência grega seguiu-se uma interessante carreira no futebol britânico, passando pelo Newcastle, Wolverhampton e, já no ano transacto, o Dundee, da Escócia. Nessa aventura, os melhores tempos deste explosivo careca georgiano foram passados em St. James Park, (entre 97 e 2000) onde o seu estilo de driblador aguerrido, algo temperamental até, sempre disposto a deixar a pele em campo, cativou os adeptos do Newcastle, sempre ansiosos de ver em acção o seu forte pontapé. Com a chegada de Bobby Robson, no entanto, tudo mudaria. Cansado de estar no banco, decidiu sair. Aos 34 anos, com os seus tempos de fulgor já na curva descendente, decidiu regressar ao Anorthosis, onde, no passado, já jogara por 3 épocas (de 91 a 94). Hoje, Ketsabaia é, porém, um jogador muito diferente do desse tempo. Menos explosivo, faz valer a sua experiência em campo ao ponto de morar nos pés deste fantasista careca georgiano a criação da maioria dos lances de perigo da equipa, sempre disposto a servir o terrível goleador Marios Neophytou, a principal referência rematadora do Anorthosis, um homem que o Boavista não pode perder de vista. Com 25 anos, finalizador nato, Neophytou é o homem golo do onze. Gosta de jogadas de um-dois, sabe colocar-se na área e possui grande sentido de oportunidade. As outras opções ofensivas são Chailis e Kie, ambos com um bom remate, e, sobretudo, o veterano internacional cipriota Xiouroupas, 34 anos, um homem que, neste final de carreira, tem como especialidade saltar do banco para, qual arma-secreta, resolver os jogos.

Artigos Relacionados

  • Onde estão as estrelas? Onde estão as estrelas? September 12, 2011 Viagem pelo “fútbol” argentino: como joga o Boca, o River na II Divisão e os golos de Gutierrez
  • Os “fantasmas” vestem de branco Os “fantasmas” vestem de branco August 5, 2011 Guimarães: Fica a ideia que a equipa poderia ter dado mais e chegado mais longe no campeonato. Podia? Sim e...
  • A luz ao “princípio” do túnel A luz ao “princípio” do túnel November 25, 2010 Os clubes, como alguns jogadores, são eternos. Cabe aos homens entender que, cada tempo, exige uma visão...
  • A nota “táctico-artística” A nota “táctico-artística” February 28, 2010 Di Maria: Antes falava-se em “pare, escute e olhe”. No futebol, o conceito é outro: Não parar, olhar...
  • A crise dos «monstros» A crise dos «monstros» October 2, 2010 «El Keko» Villalba é um mosquito em forma de jogador. Uma imagem perfeita do actual futebol argentino de...