Num belo do conto de futebol, Camilo José Cela fala de Gainsborough XXI, veloz corredor de fundo que ganhava tudo até um dia ser desclassificado ao descobrir-se que, afinal, ele era um cavalo! Triste, Gainsborough retirou-se e tornou-se treinador de futebol. Foi para o Waldetrudis FC e levava ao máximo a táctica defensiva. Jogava com dois guarda-redes: Teógenes, guarda-redes direito, e Teogónio, guarda-redes esquerdo. Pode Gainsborough ser considerado, sem mais, um treinador defensivo? Parece óbvio, mas neste conto quase existe uma parábola futebolística sobre as ditas tácticas defensivas. Os regulamentos só permitem, claro, jogar com um guarda-redes, mas para muitos treinadores o problema não é esse. Porque o objectivo é, antes de fechar a baliza, fechar os caminhos até ela.
É comum ao falar-se em talento, pensar-se apenas em acções ofensivas. Não concordo. Existe também talento defensivo. A questão, para a equipa, reside em não ficar presa em apenas uma trincheira/momento do jogo (organização defensiva).
O futebol é um jogo que consiste, simultaneamente, em uma equipa tentar criar espaços, enquanto a outra os tenta fechar. Depois, as situações invertem-se. Uma táctica nunca é, por definição, defensiva, pode é ter um princípio de abordagem ao jogo de cariz defensivo. É diferente. Preencher, com dimensão numérica superior, o meio-campo defensivo (visando esse tal fechar de espaços) não implica, desde logo, um jogo defensivo puro. Porque até os autocarros podem adquirir diferentes formas e velocidades.
O Vitória de Paulo Sérgio surgiu na Luz nessa linha: começar a pensar o jogo imaginando a bola no seu meio-campo e a fechar espaços de penetração aos adversários. Isso não é uma táctica defensiva. Porque existe um outro lado do jogo: recuperação e meter a bola no meio-campo ofensivo. Embora aí surgissem com menos homens, usava outra arma. A tal mudança de velocidade, transições rápidas e contra-ataque. Para isso, retirou um ponta-de-lança, meteu outro médio, reforçou a zona de pressão à frente da área (espaço de criação de Aimar) e apostou num avançado rápido solto (Targino). A táctica defensiva é outra coisa. É a que nunca pensa nesse segundo jogo. E só joga (prepara) meio-jogo, o jogado no seu meio-campo defensivo. Também existe, mesmo sem meter dois guarda-redes.
A melhor forma de a detectar é ver quantos jogadores ficam permanentemente atrás da linha da bola, mesmo quando a equipa recupera a sua posse. Isto é, sente-se mais confortável em ver a bola no adversário (porque só consegue pensar o jogo assim) do que quando a tem nos pés. A personalidade de uma equipa vê-se sobretudo quando recupera a bola e não a trata como uma granada.
Existem mais de mil maneiras de ganhar um jogo. A abrir espaços ou a procurar fechá-los. Um treinador deve estar preparado para as duas. Para as saber utilizar e para as contrariar. Porque ambas fazem parte da vida. E ninguém disse que esta era uma vida justa. Não é. E os grandes treinadores, big boys, não choram.