Os “jogadores-caleidoscópio”

October 2, 2012 9:55 AM
Porque é que certas pessoas produzem grandes mudanças onde entram e outras não? Lucho, Aimar, Nelson Oliveira.

 

Por fora, os jogadores parecem todos iguais. Mais ou menos elegantes, mas, morfologicamente, todos com iguais possibilidades de mexer com o jogo. Existem alguns, porém, que são diferentes. Como se fossem feitos de diferentes pedaços coloridos, dando, assim, ao jogo, a cada movimento, múltiplas e sedutoras combinações de efeito visual. São os chamados jogadores-caleidoscópio. Pudesse alguém «abrir» um desses jogadores e perceberia a verdadeira essência do futebol. Penso nisso vendo Lucho jogar de regresso no FC Porto como se nunca de lá tivesse saído.
 
No futebol, como noutras actividades, é difícil perceber porque é que certas pessoas têm a capacidade de produzir grandes mudanças onde entram, impulsionando o futuro, e outras não, passando quase anónimas. Todos nós já nos cruzamos com este tipo de pessoas ou jogadores. Na vida ou no futebol. O salto de qualidade que esse jogador proporciona, permite à equipa passar, num ápice, de um estado de ansiedade, para um outro, táctica e tecnicamente equilibrado (e com imaginação) que só ele conhece.
 
No mesmo dia da aparição de Lucho, logo depois surge outro caleidoscópio, Aimar. Sente-se, porém, nesses jogadores uma agitação permanente que nem sempre é fácil ser acompanhado pelo resto da equipa e seus jogadores-comuns. No mesmo espaço, vejo Nelson Oliveira. Em geral, pensando num processo de crescimento do jogador jovem, o lógico é enquadrá-lo numa dita equipa menor onde possa jogar mais. Existem casos que confundem essa teoria.
 
 
Nelson Oliveira é o tipo de jogador que imagino a crescer mas dentro de uma grande equipa, ou seja, dentro de um modelo de jogo tradicional de uma grande equipa, obrigado a jogar contra adversários fechados, em espaços curtos e marcações apetadas. Este tipo de dificuldades estimula o seu jogo e impede-o de cair numa anarquia de movimentos que, nos tais clubes pequenos, sem essas dificuldades de espaço, faziam saltar a sua vertente individualista, pegando na bola longe dos locais onde deve crescer. Não é um caso normal. Fazer jogar Nelson Oliveira nesse tipo de habitats, fá-lo, num ápice, deixar de pensar (em termos de exigência de movimentos e importância relativa no colectiva) como jogador de equipa grande, passando antes a pensar como um jogador de equipa grande numa equipa…pequena. Passa a jogar um jogo «quase só seu».  
 
Uma equipa, claro, não pode, nem precisa, de ser só composta por jogadores-caleidoscópio. Para o treinador, a missão é criar contextos que permitam a esses jogadores provocarem os tais saltos de qualidade no jogo. Embora com diferentes níveis de existência, todos têm em comum quase uma permanente sensação de outsiders dentro da equipa. Fazem parte dela mas conservam sempre uma sensação de não pertença que é, no fundo, o motor do seu jogo, a sua capacidade de fazer a diferença. Porque essa sensação de não pertença, ninguém pode controlar.  

Artigos Relacionados

  • Ranieri, destino fatal Ranieri, destino fatal March 24, 2012 Após Mourinho, é impossível um treinador manter os mesmos jogadores. Do núcleo duro até às paredes, tem...
  • NOTAS INTERNACIONAIS (22) NOTAS INTERNACIONAIS (22) March 22, 2012 1.NextGean- Futuro `com pernas`; 2. Existe futebol grego?; 3. Gomez é mesmo nº9 craque?; 4. O intruso...
  • “Substituição defensiva” “Substituição defensiva” March 22, 2012 A maior prova de sensibilidade táctica do treinador: meter um jogar mais defensivo e a equipa passar a...
  • Os "recados" da bola Os `recados` da bola March 20, 2012 O “Jardim de futebol” do Braga: Acelerando, passo a passo, passe a passe. Bom futebol sem…“pressão...
  • As "ratoeiras" da velocidade As `ratoeiras` da velocidade March 15, 2012 Uma equipa lenta como jogadores rápidos. Uma equipa rápida com jogadores lentos. Pode ser?