“Os nós e os laços”

March 30, 2011 7:50 PM
Quando dois históricos se confrontam, no presente, com o seu...passado. Os nós (tácticos) e os laços (emocionais).

 

O pior que pode acontecer à saúde existencial de um clube é sentir que caiu numa ruptura com a sua história mais pesada. É o conflito passado-presente. Ao chegar a Coimbra, toda a envolvência faz recordar o velho Calhabé. A paisagem está diferente, claro, mas no Estádio, as fotos a preto-e-branco convidam a isso. Mas 2011 é muito diferente de 1969, quando a última presença da Académica na Final da Taça, feita corajosa manifestação estudantil contra a ditadura, teve o condão de tornar uma derrota na relva como a maior vitória da história da Académica. Francisco Andrade, sábio técnico de 69, visitou na relva o treinador do presente.   
O Vitória recordava 88, data da última ida ao Jamor, então já com o seu fantástico onze dessa década em desmembramento. 23 anos depois, receando a pressão emocional que podia cobrir a equipa (os seus adeptos abraçam-na com tanta força que quase a sufocam) Manuel Machado preferiu refugiá-la toda a semana num retiro espiritual em Melgaço.
 
Curioso ver (e debater) como os dois treinadores trataram mentalmente o grupo de forma tão diferente antes de um jogo com carga emocional tão forte. De um lado, toda a história e adeptos em cima. Do outro, estágio longo e desejo de não ver ninguém.
O resultado diz que terá funcionado melhor na mente vimaranense. É provável, pela forma como o jogo decorreu. O Vitória tinha a vantagem de abordar o jogo a partir da resistência, pois entrava a ganhar 1-0. A Académica tinha desvantagem de o abordar a partir da recuperação, pois entrava a perder 0-1. Durante os 90 minutos, nenhuma das equipas (e cabeça dos jogadores) se libertou dessas amarras com a primeira mão.
A história acabou por sufocar o onze estudante. Acabou o jogo a lutar e a meter bolas na área, mas na maior parte dele, apesar da consistência revelada, faltou-lhe o chamado factor de desequilíbrio decisivo para virar o jogo. Para isso, esta Académica tinha, sobretudo, duas armas que se escondem nos seus melhores jogadores. Os piques de Sougou e os centros de Diogo Valente. Manuel Machado, o camaleão táctico minhoto sabia disso. Para anular o primeiro veneno, montou uma estratégia a partir do encurtamento dos espaços na organização defensiva e baixou o seu bloco para não dar espaço nas costas da defesa. No segundo, o próprio Ulisses Morais condicionou o jogador que é dos que melhor faz cruzamentos do futebol português colocando-o a lateral-esquerdo. Quando nos últimos minutos se soltou na ala, viu-se o que esses seus centros-curva podiam ter confundido a defesa vimaranense. Foi quando o Vitória sofreu mais.
 
No título deste artigo está a referência a uma obra de Alçada Baptista que, com pessoas e seus casos de amor como protagonistas, também vivem conflitos entre passado e presente. Como uma equipa de futebol, afinal, e seus nós (tácticos) e dos laços (emocionais) como os que envolveram os 90 minutos de Coimbra. No romance, não há um final feliz. No futebol, tal só é possível para um lado, o Vitória regressa à Final da Taça.