Os nossos “infernos” favoritos

28 de Novembro de 2008
De Istambul a Atenas, o futebol como um jogo de “sobrevivência”. Locais ideais para perceber como a inteligência é a base de qualquer táctica, com ou sem bola.

 

Nos confins do Velho Continente, um país que balança num limbo geográfico que separa dois continentes e duas formas de entender a vida: Europa e Ásia. Bem vindos à Turquia. Nessa fronteira, o futebol. Na margem asiática, o Fenerbahce, o “jardim de luz” em turco no qual, de repente, na noite fria, apareceu um pequeno argentino com uma barbicha meio satânica. Tango no “grande bazar” da área turca em dois lances para dois golos. O pacto com as balizas de Lisandro é a melhor forma da equipa se expressar em campo, mas para que o Dragão voltasse a jogar de nariz levantado a grande alteração nasceu mais atrás. A redescoberta da personalidade defensiva nos pés e nos gritos de um velho caminhante: Pedro Emanuel. Mesmo adaptado ao lado esquerdo, devolveu carácter à táctica. E os colegas de sector sentiram isso. Até Fernando, responsável por arrumar a “velha casa” de Assunção, passou a respirar mais tranquilo e percebeu que devia sobretudo dar equilíbrio à equipa nesse espaço. Para sair a jogar aparecem depois outros seres tácticos, como Meireles, Lucho e Tomás Costa, na relva de Istambul como na de Kiev.
 
Quase como vivendo à margem disto tudo, um jogador que corre como se não existisse mais ninguém em campo para além uma baliza: Hulk. Cada arranque seu é um pequeno “terramoto”. Para adversários e colegas. Até para Lisandro que é quem joga mais perto dele. Alguns lances são quase de desenhos animados, vendo como Hulk passa em velocidade, ignora as tabelas mais básicas e acaba a rematar ou a chocar com um defesa. Ao lado, Lisandro encolhe os ombros ou lança um olhar mais carregado. Resta esperar pela próxima bola para explicar o que é o jogo para lá das aventuras individuais. Será possível alguma vez estes dois jogadores, Hulk-Lisandro, para lá de entrarem em campo ao mesmo tempo, jogarem mesmo juntos? É que são duas coisas muito diferentes.
 
Ambos, porém, cada qual à sua maneira, gostam de passear em “infernos”. Como o de Istambul. Onde, comparando as labaredas do relvado com as da bancada, leva qualquer “olheiro” a, em vez dos jogadores, tentar antes contratar os adeptos. Sucede o mesmo na Grécia, o segundo “inferno” visitado por outro grande português. Como qualquer bom “inferno”, para sobreviver também era necessária a tal personalidade vinda de trás. É algo que nasce antes do jogo. Sem Luisão, a defesa do Benfica tremeu emocionalmente e falhou no posicionamento. Mesmo jogando perto da sua área, no tal “bloco baixo”, nunca conseguiu tapar os caminhos da baliza às setas do Olympiakos. Um “assalto” grego que começou por furar num espaço onde estavam dois jogadores que nos levam logo a pensar em duelos individuais ganhos e botas pelo ar: Binya e Yebda, o duplo-pivot defensivo escalado no “inferno” de Atenas. Só que no futebol, sobretudo nos seus “infernos”, a boa agressividade não é sobre os adversários. É sobre o espaço. Em antecipação, para depois roubar a bola. Nenhum deles entendeu este conceito, nem o seguinte, aquele que implica ter categoria para sair a jogar, saltando a zona de pressão. Estamos então já no plano da qualidade técnica.
 
Tudo isto são formas de lidar e sobreviver em “infernos” futebolísticos. Pela mente, pela táctica ou pela técnica. O plano individual e o plano colectivo. Como se os jogos fossem sucessivas estratégias de sobrevivência. Para FC Porto e Benfica têm sido vezes demais neste inicio de época.

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