OS NOVOS GIGANTES DA AMÉRICA DO SUL (São Caetano-Olimpia Assuncion / Final Copa Libertadores-2002)

24 de Julho de 2002
SÃO CAETANO E OLIMPIA DECIDEM 43ª FINAL DA COPA LIBERTADORES


Mesmo com os jogos decisivos disputados já em plena fase de rescaldo das alegrias ou tristezas do Mundial, a velha Copa Libertadores, a grande arena onde desde 1960 se digladiam os gigantes do futebol da América do Sul, voltou, esta época, a ser um fosso de emoções. No global, porém, esta edição confirmou várias tendências já sentidas, nos últimos tempos: a subida competitiva dos emblemas brasileiros, a queda uruguaia, a crise circunstancial dos argentinos e, com a abertura á região central, o aumento do poder do futebol mexicano. Por entre estes aromas, furou o Olimpia Assuncion, um histórico do futebol paraguaio.
O mundo do futebol está a mudar. Seguindo essa tendência, o futebol sul americano de clubes também revela uma nova correlação de forças. Nesta nova realidade, emergem, com semblante renovado, os emblemas brasileiros. Depois de muitos anos hipotecados á maciez atlética e competitiva do seu futebol artístico e sambado, em confronto com a garra e a técnica agressiva dos argentinos e uruguaios, os clubes brasileiros começaram, por fim, no inicio dos anos 90, a incutir maior coesão e solidez táctica ao seu futebol. Durante essa década, por seis vezes, um clube brasileiro venceu a Copa Libertadores. Neste cenário, o S.Caetano, sensacional finalista de 2002, é já um produto do novo futebol brasileiro. Até 2000, ano em que aproveitando um complicado regulamento se tornou na sensacional equipa da III Divisão a atingir a final do campeonato brasileiro, apenas perdendo no jogo decisivo contra o Vasco da Gama de Romário, nunca mais saiu da ribalta do futebol canarinho. No estilo físico e disciplinado tacticamente dessa equipas já se denotavam os traços das novas influências estilísticas que, um pouco por todo o lado, como que europeizaram a terra do futebol-arte. Apesar de ser idolatrado como um paraíso de tecnicistas, é, no entanto, errado definir-se o estilo do futebol brasileiro como um só. Entre, por exemplo, a maior capacidade atlética gaúcha e a arte malabarista carioca existem muitas diferenças. Depois da queda do Flamengo a partir de meados dos anos 80, finda a era-Zico, as últimas décadas registaram uma forte subida do nível do futebol paulista. Foram os casos do fabuloso S.Paulo de Telê Santana e do Palmeiras de Wanderley Luxemburgo. As recentes proezas do Cruzeiro e triunfo do At.Paranaense no ultimo Campeonato nacional, confirmam que o domínio do futebol brasileiro há muito que já deixou de ser exclusivo do eixo Rio-S.Paulo. Outras regiões, como o Rio Grande do Sul, Paraná, Minas ou mesmo Pernambuco, surgem agora com igual nível competitivo. Os seus campeonatos estaduais tem hoje maior interesse e, depois, no Brasileirão nacional, revelam grande confiança e personalidade frente aos outrora temíveis gigantes cariocas e paulistas. Em Porto Alegre, a rivalidade dividiu-se, desde sempre, entre o Grémio e o Internacional. Um verdadeiro duelo de titãs. O inolvidável triunfo do Grémio na Copa Libertadores e na Intercontinental de 1983, com a equipa de Renato Gaúcho, frente ao Hamburgo de Kaltz e Hrubesch, fora já um sinal claro do maior poderio físico dos gaúchos no contexto do futebol brasileiro. Esta época, depois de, em 1995, com Jardel a marcar golos e Scolari no banco, ter repetido o triunfo na Libertadores, voltou a estar perto da final. Exibindo um jogo agressivo, comandado pelo veterano Zinho, foi claramente superior aos paraguaios do Olimpia, mas acabou traído no cruel desempate por penalties. No jogo técnico mas atlético deste Grémio denota-se o estilo que marca actualmente o futebol brasileiro de clubes, mais competitivo do que nunca, ao ponto de, pela primeira vez na história, a final da Copa Libertadores, ter estado a um passo de ser disputada por dois clubes brasileiros. Só a irascível alma guarani foi capaz de o impedir.

A crise argentina e os conquistadores mexicanos

Espelhando a grave crise social e financeira que invade todo o país, o futebol argentino, selecção e clubes, também exibem, em campo, um jogo melancólico, distante do espirito guerreiro que o glorificou. Depois de dois triunfos consecutivos, 2000 e 2001, sob o comando de Bianchi, o Boca Juniores, excessivamente dependente de Riquelme, não conseguiu, com o professor uruguaio Oscar Tabarez, manter o mesmo nível exibicional. O River Plate, apesar de reunir grandes jogadores como Ortega, D`Alessandro e Zapata, não logrou formar uma grande equipa. Limitou-se a ser um must de estrelas sem espirito lutador e carente de liderança táctica no banco, motivando assim a saída de Ramón Diaz. Um dos factores que aumentou o nível e a qualidade competitiva da Copa Libertadores foi a entrada na prova, desde 1997, de clubes mexicanos, monstros históricos do futebol mundial antes encurralados no pouco atraente quadro da Concacaf. Depois da presença do Cruz Azul na final de 2001, esta época os emblemas em destaque foram o América e o Morélia. Dirigido pelo carismático Manuel Lapuente, uma autoridade do futebol aszteca, o América, com o velho Zamorano na frente de ataque, atingiu a meia-final exibindo um futebol aguerrido, tecnicamente evoluído, mas muitas vezes pouco consistente e algo irregular, com oscilações de velocidade na troca de bola que condicionaram, nos jogos decisivos contra o S.Caetano, a fluidez ofensiva do seu jogo. Falta-lhe o chamado instinto matador. Entre o onze das águias, destacaram-se o volante Patiño, o imaginativo Castillo e o goleador Navia, nomes para seguir no futuro. Do Morelia, fica o registo da sua capacidade ofensiva. Na 1ª fase, com 32 equipas, divididas por 8 grupos de 4, marcaram-se 273 golos em 96 jogos, sendo do Morelia o melhor ataque com 15 golos em 6 jogos. Uma proeza repetida nos 1/8 final, destacando-se nessa vocação goleadora, o veterano avançado Noriega e a dupla formada pelo brasileiro Alex Fernández e o argentino Almirón.

ESTRELAS DA COPA LIBERTADORES-2002

RODRIGO MENDES Nacionalidade: Brasileiro Clube: Grémio Posição: Avançado Idade: 27 anos O típico avançado carioca: ilusionista, hábil a fugir ás marcações e com faro de golo. Um menino do Rio, formado no Flamengo, onde brilhou, para além de uma passagem pelo Japão, em 1997, no Kashima Antlers, onde foi campeão ao lado de Zico. Esta é a segunda vez que joga no Grémio depois da vitória no Estadual gaúcho de 96. SERGIO ORTEMAN Nacionalidade: Uruguaio Clube: Olímpia Posição: Médio Idade: 24 anos Antes de rumar ao Paraguai, no inicio desta época, fizera toda a carreira no Central Español do Uruguai, onde, desde os juvenis, incorporou a célebre garra charrúa. Um perfil técnico e combativo que, como volante, enche todo o meio campo do Olimpia. Atentem bem nele, um jogador perfeito para encaixar no futebol europeu. BRANDÃO Nacionalidade: Brasileiro Clube: São Caetano Posição: Avançado Idade: 21 anos Um magnifico avançado centro. O seu estilo desengonçado não revela os bons pormenores técnicos que depois, inteligente na concretização e com boa presença entre os defesas adversários, revela em campo. Emprestado pelo Iraty, do Paraná, é uma grande promessa goleadora para seguir no futuro. REINALDO NAVIA Nacionalidade: Chileno Clube: América Posição: Avançado-centro Idade: 24 anos A grande revelação atacante desta Copa Libertadores. Chegou ao América em Abril, por indicação de Manuel Lapuente, vindo dos Tecos da Universidade de Autónoma, confirmando todas as indicações que o sábio treinador mexicano lhe apontava: Inteligência, astúcia, técnica e velocidade de execução dentro da área na hora do remate. Um avançado de levantar o Estádio. ALESSANDRO MORÁN Nacionalidade: Peruano Clube: Cienciano del Cusco Posição: Lateral-direito Idade: 29 anos Um defesa lateral direito de grande pendor ofensivo. Apesar de muitas vezes demorar depois a recuperar a posição defensiva, revela sempre grande espirito de sacrifício. Também é utilizado como volante de contenção, segurando o jogo com a sua experiência, compensando, assim, alguma irregularidade exibicional. É, em suma, um jogador interessante. ALEJANDRO DOMÍNGUEZ Nacionalidade: Argentino Clube: River Plate Posição: Avançado centro Idade: 21 anos Fixem o seu nome: El Chori Dominguez. A mais recente descoberta dos magos de Mar del Plata. Oriundo do Lanús, jogou na selecção Sub-20 de Pekerman, pela qual foi campeão do mundo em 2001. É mais um talento puro com os olhos postos na baliza. A alegria do seu jogo cativa os fieis do belo futebol, sempre ansiosos por descobrir geniozinhos como ele. SERGIO GALVÁN Nacionalidade: Argentino Clube: Once Caldas Posição: Avançado Idade: 28 anos É um dos maiores goleadores do futebol colombiano dos últimos anos com a camisola verde do Once Caldas, com a qual já fez, desde 1997, mais de 125 golos. Rápido, de estatura pequena, é, pela sua leveza de movimentos, um perigo na área adversária. SOMÁLIA Nacionalidade: Brasileiro Clube: São Caetano Posição: Ponta de lança Idade: 26 anos Um autêntico monstro. Possante, com 2 metros, só o seu simples aproximar, em passada larga, atemoriza qualquer defesa, mas, depois, na hora de definir, é capaz de decorar tecnicamente as jogadas. Esteve um ano no Feyenoord, 2000/2001, mas sentiu falta do seu habitat natural. É no lento futebol brasileiro que ele faz a diferença. ANAÍLSON Nacionalidade: Brasileiro Clube: São Caetano Posição: Médio centro Idade: 23 anos Um nº10 de grande fantasia a distribuir jogo, com lançamentos curtos ou longos, mas sempre com grande autoridade e visão de jogo. Mede apenas 1,65 m. mas a dimensão do seu jogo, quase sempre expressa num pé esquerdo maravilhoso, atinge níveis fabulosos. WALDIR SÁENZ Nacionalidade: Peruano Clube: Alianza Lima Posição: Avançado Idade. 29 anos Famoso pelos seus golos, já fez mais de 200 pelo Alianza, é um jogador temperamental. Muitas vezes o seu génio é traído pelas confusões que provoca. Muitos dos títulos do clube peruana tem, no entanto a sua assinatura, feita com dribles, remates indefensáveis e outros rasgos. Um jogador empolgante que também pode actuar como falso avançado centro. MELHORES MARCADORES Rodrigo Mendes (Grémio)- 10 golos Noriega (Morelia)- 9 golos Alex Fernándes (Morelia)- 6 golos Brandão (São Caetano)- 6 golos Navia (América)- 5 golos Morales (Nacional)- 5 golos Sergio Gálvan(Once Caldas)- 5 golos Gimenés (Petrolero)- 5 golos

SÃO CAETANO: A invenção de Picerni

Já passaram 11 anos desde a sua passagem por Portugal, no banco do Nacional da Madeira. Nessa altura, Picerni era sobretudo conhecido como o treinador da selecção olímpica medalha de prata no Jogos de 84. Depois do regresso orientou o Bragantino até que, desde 1999, passou, em surdina, a congeminar, desde a III Divisão, a maior invenção do futebol brasileiro dos últimos anos: o S. Caetano, um clube com apenas 13 anos de vida, fundado em 1989, no município de S. Caetano do Sul, S. Paulo, e que pela sua juventude, não tem, obviamente, uma torcida comparável á dos grandes do futebol brasileiro. O grande segredo deste onze, que, tacticamente, se esquematiza preferencialmente em 4x4x2, ou, como actuou no Aszteca contra o América, na 2ª mão da meia-final, em 4x5x1, reside num magnifico quinteto de médios, quase todos esquerdinos: Marcos Sena, Adãozinho, Robert, Ailton e Anaílson. Com a sua movimentação técnico-táctica enchem o campo e transformam a equipa num forte bloco, difícil de dominar. Cada um tem uma missão definida: Marcos Sena é um trinco de grande categoria, sempre no caminho da bola, o ala Adãozinho, o único destro do grupo, ocupa o flanco direito, Ailton, antigo jogador do Benfica, controla o ritmo de jogo, jogando agora mais recuado do que na Luz, onde era avançado centro, Robert, muito inteligente, descaí sobre a esquerda, e, por fim, o pequeno maestro vagabundo Anaílson. Na defesa destaque para o activo lateral esquerdo Rubens Cardoso, jogador do Santos, e, no ataque, para dois terríveis predadores do golo: Brandão e Somália. Para chegar á final, o S. Caetano eliminou desde os 1/8 final o Universidade Católica (1-1 e 1-1, 4-2 g.p.), o Peñarol (0-1 e 2-1, 3-1 g.p) e o América (2-0 e 1-1).

OLÍMPIA ASSUNCION: A armada guarani de Pumpido

Em 1986, foi o guarda redes campeão do mundo da selecção argentina de Maradona. Hoje é o elogiado treinador do Olimpia: Nery Pumpido. Estruturalmente defensivista, elege Carlo Billardo, o seleccionador de 86 e 90, como o seu técnico-modelo. Defini-se, por isso, como um billardista, isto é, um amante do jogo realista, virado para o resultado e não para o espectáculo. Este seu Olimpia é o espelho fiel dessas ideias, expressas na forma dura como defende, na contenção feita a meio campo e no lances de contra ataque que preconiza. No leme do onze, esquematizado num clássico 4x4x2 está o experiente volante Enciso, 28 anos, mais do que um trinco é um autêntico ladrão de bolas, gerindo todo o meio campo, um sector onde o uruguaio Orteman é quem incute a maior agressividade, preparando as jogadas de contra-ataque para os dois homens da frente: o veterano Benitez, El Peque, 32 anos, de regresso após um sem jogar devido a uma grave lesão ainda alinhava no Español, e Baez, 29 anos, suplente na selecção, um avançado que sabe procurar sempre o sitio certo. Parece adormecido, mas na hora da verdade, ele surge para fazer o remate fatal. Na defesa, uma aguerrida dupla de centrais: Zelaya e Cáceres, orientados, nas redes, por La Muralla Tavarelli, 32 anos, o melhor guarda redes paraguaio da actualidade. Uma opinião que muitos só não expressam em voz alta por temor a Chilavert, mas que se baseia na frieza, personalidade e agilidade, entre e fora dos postes, do homem a quem também chamam El Mono. Para chegar a sua 6º presença na final da Libertadores (que antes já venceu em 79 e 90), o Olimpia eliminou desde os 1/8 final, o Cobreloa (1-1 e 2-1), o Boca Juniores (1-1 e 1-0) e o Grémio (3-2 e 0-1, 5-4 g.p.).
Anaílson, o pequeno maestro canhoto do São Caetano

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