O jogador e a sua voz. A força do grito como aura de personalidade que ecoa no campo, motivando o resto do onze, intimidando adversários que chegam mais por perto. Cada vez mais é difícil encontrar jogadores que, permanecendo longos anos no mesmo clube, se tornem verdadeiros símbolos desses emblemas. O novo mercado (o futebol dos negócios) condenou essa personagem. Por isso, oito anos é hoje muito tempo no futebol. É o número de épocas que Luisão leva a gritar dentro do relvado com a camisola do Benfica, agora com a braçadeira de capitão.
Em campo, a aura de uma equipa, antes da táctica e resto do onze, nasce e vive muito através tipo de jogadores. O chamado berço da alma que emergiu em Eindhoven quando a equipa se assustou com os dois golos do PSV e teve o instinto táctico de recuar para defender a curta vantagem que ainda tinha. Foi então que o poder do símbolo transformou o grito num golo de revolta, virando o destino.
Nesta espécie de romance dos símbolos, só entram, porém, jogadores que permanecem épocas infinitas no mesmo clube mas a mandar dentro do relvado. Por isso, Nuno Gomes, toda a época no banco, foge a esta história. É a velha tese que um dia até o Real Madrid disse a Di Stefano: um jogador pode já ter lugar na história do clube, mas já não ter na sua primeira equipa!.
FC Porto, Benfica e o insolente Sp.Braga estão nas meias-finais da Liga Europa. A principal imagem de marca que fica delas é a superior capacidade táctica a nível da estratégia. Algo que, como disse Jesus antes do jogo de Eindhoven, deu-lhes margem táctica na entrada para a segunda mão. Ou seja, lendo o adversário e especificidades de cada jogo, o treinador português (e equipas técnicas multi-disciplinares que monta) é hoje dos mais fortes do mundo. Jesus, Villas-Boas e Domingos, todos de gerações diferentes, a mesma casta lusitana de pensamento estratégico do jogo.
No Braga, o símbolo incorpora-se no corpo e jogo de Vandinho. Sete épocas a mandar no meio-campo bracarense, o guia táctico-espiritual que atravessou o tempo e cruzou Jesualdo, Jesus e Domingos, os três treinadores que, cada qual no seu estilo, marcam um ciclo de crescimento notável do clube.
Mas na nova ordem futebolística, os símbolos têm de se criar mais rapidamente. Falcao e Hulk estão há pouco mais de dois anos no FC Porto, mas já ganharam esse estatuto na memória do Dragão. Falcao, leva já mais de 60 golos. Hulk já chegou aos 50 e, mais do que isso, provoca terramotos com bola em cada jogo que disputa. Vê-se em todos os habitats. No frio de Moscovo, mesmo com a tal margem táctica que dava para viver o jogo mais serenamente, eles nunca se esconderam e a cada lance, cada bola, que passava por eles, a equipa crescia. Um crescimento simultâneo de qualidade, táctica e carácter. Eles são os novos símbolos de um onze com superior cultura táctica. Um processo de canonização futebolística mais veloz, diferente dos trajectos longos de Luisão ou Vandinho.
Fora desta história, fica Moutinho. O símbolo perdido de Alvalade que agora joga, corre e festeja (golos e títulos) com a camisola portista. É esta sensibilidade histórica que faz os grandes clubes, hoje como há 50 anos. Os símbolos como imagem transmissora da alma. O seu processo de construção (duração e crepúsculo) é que mudou. A sua importância, porém, é eterna. E decisiva. Para a equipa (jogo e alma) e adeptos (paixão e fé).
Terceiro
lugar
O terceiro lugar não é um título, nem dá direito a uma Taça. Na teoria, é uma questão de honra. Na prática, traduz-se em começar a próxima época (jogar ou não mais uma pré-eliminatória da Liga Europa) mais tarde ou mais cedo duas semanas. Para Sporting e Braga, porém, tudo isso junto representa muito.
Vindos de locais históricos diferentes, na dimensão e títulos, os dois clubes cruzam-se neste momento, quer nos objectivos, quer na dimensão competitiva. A força (poder táctico e atmosfera criada) do Braga, frente ao Dínamo de Kiev, atingindo a meia-final da Liga Europa, espelha um crescimento sustentado que é mais do que um estado de espírito ou momento circunstancial de uma equipa em bom momento de forma. Os arranques de Alan, os remates de Lima, os cortes do Paulão, têm muito trabalho por trás que não nasce só na vertigem dos 90 minutos.
O Sporting busca construir outra equipa para a próxima época, enquanto tenta ainda salvar esta com as sombras errantes do onze actual. No meio deste cenário cruzado, um jogador que, antes da sua qualidade, transmite a sensação de, em campo, ser sobretudo um estado de espírito. Para o bem e para o mal. Yannick Djaló. Tem alegria até no nome, cuja fonética até dava uma música de batuque. Por vezes, porém, parece um jogador triste em campo, fechado sobre si próprio. Um futebol quase bi-polar, intrigante. Os golos à Académica reabriram-lhe o olhar. Mais do que a técnica, o lado emocional. Factores que, no colectivo, também cruzam (e separam) as duas equipas na luta pelo terceiro lugar. Até à Final da última jornada.
15
O número de golos de João Tomás na Liga. Melhor marcador português (na tabela só atrás de Hulk, com 22). Apesar disso, a selecção recusa olhar para ele. Paulo Bento nega que essa decisão resulte de já ter 35 anos. É verdade que pensando na selecção a longo-przao, Tomás não é uma aposta de futuro, mas os jogos jogam-se no…presente. E, no presente, Tomás faz golos (mérito acrescido de fazer numa dita equipa pequena, Rio Ave, sem o volume ofensivo dos grandes) e é um tipo de nº9 (alto, fixo mas com mobilidade e excelente de cabeça) raro no nosso futebol.
Hugo Almeida, a outra opção, tem estilo semelhante. É mais corpulento, mas faz menos golos. E, para um ponta-de-lança esse argumento (nunca o B.I.) é demolidor.
5
O número de golos de Postiga na Liga. O ponta-de-lança habitualmente convocado para a selecção. No conjunto de todas as provas tem 11 e na selecção já fez 3. Não se trata aqui de fazer uma mera avaliação matemática para sugerir ou criticar convocações. Trata-se de tentar perceber critérios. Numa análise mais técnica, justificam-se menos golos de Postiga porque, na essência, ele é menos o típico nº9 rematador. Gosta de jogar mais como segundo avançado (mais habitual quando existia Liedson).
Na selecção, com os extremos a surgirem muito de trás, Postiga encontra uma forma de jogar que encaixa melhor nas suas características. E, por isso, faz golos e…joga bem. No clube, é diferente. Joga bem e…marca pouco.