Os pontas de lança não ouvem Mozart

11 de Fevereiro de 2010 09:49
Pode um campeonato ser decidido num simples penálti? Uma boa equipa é uma sucessão de boas respostas a diferentes estímulos competitivos.

 

Um penálti no último minuto. Pode a decisão de um campeonato ser, no final, vista a partir de um simples episódio como este, para, num abrir e fechar de olhos, resumir uma história tão longa? Faltam alguns meses para responder a isso. Será quando num rewind da memória, resgatar-se a imagem de Cardozo antes do penalty em Setubal. O olhar tão concentrado como assustado, a cabeça como uma metralhadora, pensando na bola na rede ou pensando nas outras vezes que falhou, e, de repente, sem estratégias de colocação do remate, sai uma bomba, bang! na barra. Dois pontos perdidos e o primeiro lugar de novo aberto aos adversários (com o insolente Braga na frente). Trinta jogos são muitos jogos mas, no futebol, cada jogo passa muito por dominar os diferentes estímulos competitivos que uma época longa esconde.
Esta teoria dos estímulos faz-me recordar uma história que ouvi, já faz uns tempos, contada por Mia Couto. Falava de uma tarde em Maputo quando, viajando de carro com um colega, atravessava uma zona inóspita ouvindo ao mesmo tempo música clássica. Foi então que na berma dessa estrada, viram pessoas a acenar insistentemente, pedindo-lhes para parar. Pensavam que podiam querer dinheiro, comida... Mas não, Apenas queriam saber se tinham…música. Estavam numa festa de casamento, não tinham nenhum aparelho, rádio ou o que seja. Por isso, não tinham música e queriam dançar. Os viajantes responderam que sim, mas, “nós aqui no carro só temos música clássica!”. Sem se importarem com isso (“não faz mal”, disseram) insistiram para os seguir. Foram, pararam o carro à porta da festa, abriram as portas, puseram o volume no máximo e, contam, assistiram ao primeiro baile de casamento ao som de Mozart!
 
Acho esta história divinal. Porque está nela tudo que a vida pode esconder. Um jogo de futebol (e uma equipa) também esconde muitos sentimentos. É, no fundo, também muito feito de estímulos. Uma equipa deve transmitir mais do que diz a sua estatística de golos, remates e posse de bola. Como uma música deve ser mais do que a sua descrição na pauta. O Benfica teve, em semana e meia, quatro estímulos competitivos diferentes. No primeiro, ganhou para se manter colado ao líder Braga. No segundo, ganhou para lhe fugir três pontos. No terceiro, olhando de cima, descomprimiu a mente e deixou a solução cair num penalty. No quarto, com o rival histórico, noutra competição, esse mesmo jogador fez, também no último minuto, a uma distância de 40 metros o que antes não fizera onze.
O que foi mudando (os jogadores foram praticamente os mesmos) de um jogo para o outro? Numa definição simples: uma boa equipa, num campeonato longo, 30 jogos, é uma sucessão de boas respostas (diferentes reacções) a diferentes estímulos competitivos. É a constatação lapidar que o futebol não é matemática. Ainda bem. Desde logo, porque cada adversário joga de forma muito distinta. Os primeiros 15, 20 minutos são decisivos para marcar uma posição (afirmação de autoridade) no jogo. Quando esse primeiro momento se perde, dificilmente se consegue depois com a mesma eficácia. Aumentam os riscos e a equipa tende a perder coerência de jogo. Nesse ponto, a tentação primária de uma boa equipa colectiva é tentar fazer chegar o mais rápido possível a bola ao jogador que sente poder melhor resolver o jogo individualmente. No Benfica, em Setúbal, sentia-se isso como se Di Maria tivesse um íman nas botas que atraia a bola. Mas, nem numa grande equipa a felicidade é total.
 
Cada equipa, num campeonato longo é, no fundo, como um viajante sozinho numa longa estrada que, muitas vezes, passa pelos locais mais distintos. Conseguir escutar Mozart no local mais inóspito, onde os estímulos parecem impossíveis, é o melhor para evitar os reflexos primários que, quase sempre, nos afastam da felicidade total. 
 
 

 

 

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