O futebol é um espelho de muitas coisas. Ana Wintour, directora da Vogue Americana, escreve em Estilista: a interpretação da moda algo que faz pensar: “Os estilistas são os primeiros a procurar as mudanças e as tendências”. São quem traduzem e descodificam esteticamente os tempos e fazem deles a Moda, para revistas, protagonistas de filmes ou celebridades nas festas, juntando criadores, maquilhadores, cabeleireiros e público. No fundo, eles descodificam o que, a cada época, em cada momento causa impacto. O que, em síntese, rima com a vida. O impacto final vem com a ultima imagem. O modelo a desfilar.
O futebol também vive de modas. Hoje, como sempre. Não penso no duelo estético-temporal entre a brilhantina e as madeixas. Penso só no jogo. Basta ver como mudaram as tácticas. Basta ver, noutro quadrante, o jogador em campo e como muda o estilo do herói. O nº10 que podia treinar sentado em cima de uma bola apenas pensando os passes longos que ia fazer no jogo, onde quase passeava de mãos nos bolsos, é um projecto de moda eclipsado. Os extremos puros também. Agora na relva junto à linha surgem laterais que sobem sorridentes ou segundos avançados em busca de um sentido para a sua vida em campo. Em geral estes últimos são os velhos nº10 desterrados.
O treinador tem muito de estilista neste processo continuo. Descodifica os tempos. Percebe que as coisas se transformam e muda as tendências. Ele é causa e efeito, ao mesmo tempo. Depois, é o jogo. Onde se cruzam equipas, estratégias, preparador-fisico, directores, jornalistas, adeptos. No centro, o jogador: como fazer para entrar nas tendências da moda? Dirão que o bom futebol está sempre na moda. É um pouco verdade, mas a sua face, como vimos na crise dos velhos heróis, muda. O jogador procura então o que rima com a vida no relvado. Busca ser o jogador certo, no local certo, no momento certo. Pode este cruzamento perfeito possível ser fabricado? Sim e não.
Vejo Danny a serpentear por entre a equipa do Manchester United. Remate, golo, festejos e vejo a ultima imagem. Capa perfeita para adaptar ao futebol o livro da moda. O actual Danny é o impacto final. A interpretação da moda: “O treinador disse-me para jogar livre, sem preocupações defensivas. Soube tão bem ouvir aquelas palavras!”.
Aos 25 anos, depois de um caminho discreto, quebrou o gelo. Quando encontrou outra passerelle, relvados mais luminosos. Surgiu na hora certa e no local certo para o seu jogo criar impacto. É o tipo de jogador que, pelo que faz, fica na retina. Poderá este impacto ser prolongado até o tornar numa referência que passe o actual tempo? Tento, apenas, perceber se a sua carreira pode saltar o zigzag e permanecer na elite. Encontro um principio de resposta noutra frase paralela, de William Hazlitt: "A moda é o refinamento que corre à frente da vulgaridade e teme ser ultrapassado." Em campo, o futebol de Danny é como uma fuga à vulgaridade. Será o melhor segredo para prolongar o momento. Porque, o futebol é o momento. Como a moda.