O jogo acabara e a pergunta saiu ainda no relvado para Pako Aguestaran, preparador-físico do Benfica. “Pako, como está, neste momento, a forma física da equipa?”. De imediato, sem responder, Pako reagiu logo dizendo que “não podes falar em forma física!”. Explicou então que pode-se falar é na forma da equipa apenas e ponto final. Ou seja, é impossível dividir por compartimentos estanques os vários factores que fazem a forma desportiva que, depois, durante o jogo, se cruzam permanentemente. Questão física, táctica e mental. Tudo em simultâneo com uma bola pelo meio e um adversário pela frente.
A resposta tem mais significado porque vem do chamado preparador físico. Pako é, no entanto, pela resposta dada, muito mais do que isso. Tem, no seu trabalho específico durante o treino, a noção da interligação que ele depois terá na construção do modelo de jogo que nasce na cabeça do treinador, Quique Flores. O passo seguinte é trabalhá-lo. Nesse processo, Pako também pensa na táctica quando só parece trabalhar o físico. Porque é para isso que a disponibilidade física serve. Para cumprir missões tácticas e técnicas. Ou, até, noutra perspectiva, dar condições de expressão ao talento.
As raízes do bom futebol são hoje quase sempre invisíveis mas é curioso como podem ser descobertas por uma simples frase. Pouco depois, a entrevista rápida, ainda no relvado, era com Rui Faria, com o mesmo cargo no Inter. Passou a mesma ideia de Pako e falou que antes do jogar bem da equipa, foi preciso mudar o seu treino.
Quando, porém, se falou se a equipa já estava perto do que se queria em termos de jogo, Mourinho não se referiu a grandes questões tácticas. Apenas referiu o posicionamento da linha defensiva quando a bola está longe. “Está hoje colocada alguns metros mais à frente do que no passado”. Será um pormenor quase indecifrável para o comum dos adeptos, mas para o jogar bem da equipa é decisivo. Porque, desde logo, é sinal de estar a jogar em territórios mais avançados. Ter a possibilidade de poder recuperar a bola mais à frente significa por si só a possibilidade de começar a transição defesa-ataque o mais perto possível da área adversária. Colocar uma equipa italiana a jogar num pressing alto assumido durante 90 minutos, fazendo dela uma ideia inicial do seu modelo de jogo, é um desafio supremo no Calcio. Na sua preparação, porém, tanto Mourinho como Rui Faria, embora aparentemente com pontos de partida diferentes no treino, estão permanentemente em sintonia. Com as mesmas referências.
Para a forma (física, táctica e mental) da equipa estar a top durante toda a época, o fundamental é fazer uma permanente avaliação do que ela é. Neste contexto, a melhor maneira de saber o seu estado de forma não é olhar para índices físicos, mas sim para o que foi, ao longo dos 90 minutos, o seu conhecimento do jogo. Do menos complexo para o mais complexo. Como o Benfica de Quique tem feito. Nessa evolução, o treino é como o atelier da cultura de jogo.