Construída tacticamente à imagem do seu treinador, a Inglaterra de Eriksson tem os seus princípios de jogo solidificados, desde há vários anos, dentro das clássicas dinâmicas do 4x4x2. Com médios-ala flanqueadores fortes e laterais que sabem dar profundidade ofensiva pelos flancos, renunciou ao losango a meio-campo e coloca, preferencialmente, dois médios de transição lado a lado, embora um com maiores responsabilidades de cobertura defensiva. Apesar da mecanização de muitos movimentos, sentiu, no entanto, neste Mundial, a pouca flexibilidade deste sistema em termos da transições defesa-ataque-defesa sobre o corredor central do meio campo, onde moram dois jogadores fora-de-série, Gerrard e Lampard, mas ambos com dinâmicas de jogo semelhantes. Ou seja, por não definir claramente qual o responsável pela zona de recuperação à frente da defesa e qual o médio de segunda linha nas costas dos avançados, a equipa perdeu dinâmica ataque-defesa-ataque no principal espaço de construção do onze, impedindo, por inerência, toda a equipa de mover-se como um bloco.
4x4x2 ou a «prisão» de Gerrard e Lampard

O problema tornou-se mais delicado pelas características dos dois jogadores em questão. Poucos como eles sabem, no futebol moderno, fechar a defender e surgir, depois, desde trás no ataque, para fazer um passe de morte ou executar um forte remate na entrada da área. O sucesso do 4x4x2 de Eriksson dependeria, portanto, de encontrar a dinâmica certa de movimentos deste poderosa dupla. A solução inicial passou por prender um deles (Gerrard) a missões mais de transição defensiva. Uma opção tão lógica como perturbante, pois condicionar a liberdade de movimentos a um jogador como Gerrard é, por si só, como amarrar a equipa a posições mais recuadas.
As diferentes dinâmicas do 4x1x4x1

Assim, após duas preocupantes exibições nos primeiros dois jogos (Paraguay e Trinidad e Tobago) jogando neste hesitante 4x4x2, Eriksson resolveu mexer na estrutura da equipa. Assim, nos últimos dois jogos (Suécia e Equador, este já nos oitavos-final) ensaiou outro desenho táctico, onde, embora ainda seja evidente alguma pouca mecanização de alguns princípios de jogo, a equipa estende-se muito melhor por todo o terreno, quer a defender, quer, sobretudo, a atacar, concedendo maior liberdade ofensiva à dupla Gerrard-Lampard. No papel, o sistema esquematiza-se num 4x5x1 com design de 4x1x4x1, mas na dinâmica de jogo pode ganhar contornos de um típico 4x3x3 quando os alas procuram dar profundidade vertical aos flancos.
A entrada do médio-defensivo

A principal inovação em termos de posicionamento táctico reside, no entanto, na introdução de um clássico médio defensivo à frente da defesa. Contra a Suécia ainda jogou Hargreaves nesse lugar, mas seria contra o Equador que Eriksson apostaria finalmente no melhor jogador inglês da época nessa posição: Michael Carrick. Forte a defender, interceptando linhas de passe, destemido nos lances divididos e com capacidade técnica para, depois, passar ou transportar a bola. Desta forma, Gerrard e Lampard passaram a jogar mais adiantados no terreno, com menor amplitude de responsabilidades na transição defensiva (apenas devem fazer o pressing alto de cair logo em cima do adversário mal a equipa perda a posse de bola), soltando-se mais em termos ofensivos para surgirem, depois, nas imediações da área, em busca do remate ou de linhas de passe mortais.
Os movimentos dos flanqueadores

Com esta opção táctica, mantém a mesma dinâmica de jogo nas alas, com Joe Cole, um destro na esquerda, a procurar mais movimentos interiores, e Beckham, na direita, e onde executa os seus mortíferos cruzamentos enroscados para o coração da área. Nessa variante passa, no entanto, a jogar só com um ponta de lança: Rooney, deambulando entre os centrais, sem dar referências fixas de marcação, procurando sempre desmarcações em diagonal desde trás em velocidade, pedindo um passe vertical de Gerrard ou Lampard. Optando por Crouch, o ponta-lança girafa de 1,98m, emerge,ao invés, um jogo mais directo e previsível, mas, naturalmente, mais perigoso no espaço aéreo.
Quando o 4x5x1 transforma-se em 4x3x3

Outra vantagem deste sistema reside, também, na capacidade de se transformar em 4x3x3, quando Gerrard e Lampard temporizam na segunda linha do meio campo (mantendo-se Carrick na costas) soltando-se Joe Cole e Beckham nas faixas, procurando a linha para cruzar ou rasgar em desequilibro. No fundo, em teoria, seria o desenho que, embora pouco apreciado por Eriksson, melhor enquadraria este grupo de jogadores. Em qualquer das opções, os laterais tem sempre liberdade para subir, destacado-se, nessa dinâmica, A.Cole na esquerda, enquanto, na direita, Neville tem maior vocação ofensiva do que Hargreaves (adaptado nessa posição contra o Equador) ou Carragher (que jogou frente a Trinidad e Tobago) este com maior capacidade em, quando o lateral contrário sobe, bascular para central, a sua posição de origem.
Os dilemas tácticos e a dupla de pontas de lança

Eriksson encontra-se portanto entre estes dois sistemas: 4x4x2 ou 4x5x1 (4x1x4x1). O principal receio em abandonar o seu 4x4x2 preferencial reside em, sem ele, perder a sua dupla de pontas de lança Rooney-Crouch. Por serem jogadores tão distintos, é difícil as defesas adversárias encaixarem nas marcações. Enquanto o inestético futebol de Crouch é imprevisível, capaz de falhar os remates mais fáceis, para depois fazer a diferença nas alturas, Rooney joga nas suas costas, desmarcando-se nos espaços vazios, pelos flancos ou pelo centro, sempre em velocidade. Jogando só com um homem na frente de ataque, os desequilíbrios ofensivos ficam dependentes dos alas e, sobretudo, do poderosa dupla de médios-centro Gerara e Lampard.