Os sistemas de três defesas

22 de Outubro de 2004
3x4x3, 3x3x2x2 E 2x3x2x3: EM TORNO DE FORMAS MAIS EVOLUIDAS DE JOGAR.
No calor do debate táctico, o futebol moderno consagrou o 3x5x2 como um sistema de perfil ofensivo. Muitas vezes, porém, tal não passa de mera ilusão de óptica. Uma coisa são três defesas, outras são três centrais e mais dois laterais. Nesse caso, está-se antes perante um 5x3x2 e, consequentemente, um sistema de cinco defesas. Para descobrir essências do 3x4x3, terá de se buscar a Argentina ou o 2x3x2x3 do Barça de Rijkaard, onde também se recorda a assinatura de Hitzfeld nos últimos campeões europeus com defesa a «3».
Para se entender a diferença, basta, por exemplo, ver, como jogou o Dinamo Kiev, esta semana, em Madrid, fechando os flancos e marcando no centro, num claro 5x3x2 só desdobrado, a espaços, em 3x5x2 com a subida dos laterais. Jogar com três defesas implica, tacticamente, outro tipo de sistema e variantes, onde emerge como suprema referência o 3x4x3, talvez a forma técnico-táctico mais evoluída de jogar, só ao alcance das grandes equipas, com jogadores de grande cultura táctica, com e sem bola, velozes e tecnicamente perfeitos, de forma a raramente perder a posse da bola a meio de uma acção de construção ofensiva. Este aspecto é fundamental para jogar em 3x4x3. Caso contrário, esse onze, se apanhado descompensado defensivamente, seria sempre muito vulnerável em contra-ataque, devendo esta premissa de posse de bola, iniciar-se, desde logo, no trio defensivo, esquematizado em marcação zonal. Neste momento, há dois conjuntos que, com estilos e dinâmicas diferentes, se aproximam, ao mais alto nível, dessa forma de jogar: o Barcelona de Rijkaard, em 2x3x2x3, e a Argentina, antes de Bielsa e agora de Pekerman, num desenho de 3x3x2x2. Joga só com três defesas (Coloccini-Samuel-Heize, pensando no último jogo) e abre, nas alas, com Zanetti, á direita, e Sorin, á esquerda, mais do que carrilleros, quase extremos de longo curso, ficando o trinco Cambiasso encarregue das marcações na meia-lua defensiva. Mais á frente, dando criatividade e funcionando como placas giratórias na circulação de bola, Riquelme e Lucho González. No ataque, deambulando, Saviola e Figueroa. Se contra o Uruguai, o sistema funcionou sobre carris, frente ao Chile, o modelo encalhou na falta do tal requisito fundamental: a posse de bola, usurpada na maior parte do tempo pela garra dos chilenos. É uma questão de ganhar maior rigor táctico-posicional e mecanização de movimentações, os chamados automatismos. Quanto mais tempo um treinador estiver a trabalhar como uma equipa, mais possibilidades tem de executar este sistema. É o que sucede com a Argentina, onde Bielsa, solidificou, para o bem e para o mal, a equipa nesse sistema ao longo de quatro anos, no que é agora seguido por Pekerman, que já trabalhara com todos eles nas selecções jovens, onde lhes moldou o carácter e a técnica.

Tácticas: De Rijkaard a Hitzfeld

Sob inspiração do 3x4x3, o actual Barcelona de Rijkaard, seguindo a doutrina de Cruyff e Van Gaal, estende-se num modelo mais elástico, espécie de 2x3x2x3, onde, na prática, existem apenas dois defesas clássicos (Puyol e Marquez ou Oleguer) atrás de um trio aberto a toda a largura do terreno, Belletti, á direita, e Van Bronckhorst, á esquerda, que, quando recuam, ficam de perfil com os dois defesas, e Gerard, no centro, como trinco-pivot. Dá o primeiro passe na saída de bola ou, quando recua, com os laterais mais subidos, compõe uma linha de «3» no eixo defensivo que, simultaneamente, ganha dimensão numérica para se alargar no campo e cobrir melhor todo o espaço defensivo, sempre á zona. Com Van Gal, jogavam, respectivamente, neste sistema, Reiziger e Sergi, laterais, e Guardiola, pivot. Na segunda linha do meio campo, Deco e Xavi ocupam a chamada zona de construção ofensiva, dominando também os movimentos defensivos sem bola, exímios a fazer as chamadas faltas tácticas. Mais adiantados, no ataque, Giuly e Eto`o nas faixas, como extremos, e, no centro, Ronaldinho ou Larsson. (Como antes tinham sido, anos atrás, Figo, Kluivert e Rivaldo, este então revoltado por jogar preso á esquerda, algo que hoje Eto `o faz com um sorriso de orelha a orelha.) As duas últimas equipas a vencer a Liga dos Campeões num sistema de três defesas, na versão 3x4x1x2, tiveram, no entanto, ambas a assinatura de Hitzfeld,. Foi o Bayern Munique, em 2001, com Kuffor, Anderson e Linke atrás, Sagnol, Salihamidzic, Hargreaves, Lizarazu e Effenberg, no meio, Scholl e Elber á frente, e o Borussia Dortmund, em 1997, com Sammer, Kohler e Kree na defesa, Reuter, Sousa e Lambert, no meio, e Moller, atrás de Chapuisat e Riedle. A maior referência dos tempos modernos em 3x4x3, é, porém, o Ajax de Van Gaal (campeão em 95) com Reiziger, Blind e De Boer defesas, Rijkaard, Davids, Seedorf, Litmanen, no meio, e R. De Boer, Finidi e Overmars na frente. Poucos anos antes, o Marselha de Goethals também jogara em 3x4x3 na final de 92, com Boli Mozer e Casoni, na defesa, Amoros, Fournier, Germain e Di Meco, a meio campo, e Wadle, Pelé e Papin, no ataque, mas perdeu com o Estrela Vermelha nos penaltys. Em 93, quando conquistou o titulo, frente ao Milan, o feiticeiro belga repetiu o 3x4x3, com Boli, Desaily e Angloma no trio defensivo.

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