OS SISTEMAS TÁCTICOS NO FUTEBOL ITALIANO 2003/04: O clássico e o moderno

December 17, 2003 12:00 AM
Estão lançadas as bases tácticas da época 2003/2004 no futebol italiano. Como três principais candidatos, emergem, neste momento, a altiva Juventus de Lippi, o sedutor Milan de Ancelotti e a ressuscitada Roma de Capelo. Uma elite de favoritos da qual se aproximou o Inter, após dela se ter afastado, nas primeiras seis jornadas, por força do seu jogo pouco imaginativo, hipotecado, tal como nas duas últimas épocas, á mentalidade conservadora do ex-técnico Hector Cuper. Uma candidatura que Zaccheroni recuperou utilizando o ofensivo 3x4x3, o seu sistema preferido. Á margem deste quarteto, como principais outsideres, mas longe dos grandes favoritos, destacam-se a Lazio de Mancini e o Parma de Prandelli.

JUVENTUS: As variantes do computador de Lippi

Treinador: Marcelo Lippi Sistema base: 4x3x1x2 É a equipa que tem realizado mais variações tácticas, entre o 4x3x1x2, o 4x3x2x1 e o 4x4x2. Depois, nas épocas anteriores, ter sempre optado preferencialmente pelo 4x3x1x2, Lippi remodelou o seu modelo táctico base e iniciou esta época num inovador 4x2x3x1 com Trezeguet fixo como único ponta de lança, nas costas de três de médios criativos: Del Piero sobre a esquerda, Nedved no centro e Micoli sobre a direita. O cariz mais ofensivo do meio campo desequilibrou, no entanto, o jogo de compensações defensivas no qual este sector sempre se mostrara muito forte. Assim, face ao exposto, reconverteu o sistema, passando a actuar, alternadamente, no 4x4x2 clássico ou, mantendo o modelo de um ponta de lança, num reciclado 4x3x2x1, recuando um elemento do meio campo. Noutras ocasiões (contra a Reggina e Ancona, fora), na intenção de alargar o campo, desenhou um atípico 4x4x1x1, com Nedved como falso avançado, o mezza-punta, atrás de Di Vaio. Ou seja, mesmo mantendo a defesa a «4», Lippi sentiu a necessidade de dar maior coesão táctico-defensiva ao seu meio campo. Tal intenção é lograda com dois ou três médios de perfil defensivo (dependendo de jogar em 4x4x2 ou 4x3x2x1) colocados sempre atrás da linha da bola, e nas costas de Del Piero e Nedved. Para essa missão surgem Davids, Tacchinardi, Tudor ou Appiah, ex-Brescia, um ladrão de bolas cujo estilo, no pressing e no passe, parece feito á medida do futebol italiano. Sem Del Piero (lesionado), a opção táctica predilecta de Lippi é, claramente, o 4x2x3x1. O ponto fraco da dinâmica do onze, em qualquer sistema, reside, porém, nos flancos, onde, na chamada zona de criação esta Juventus vive apenas da inspiração lutadora de Camoranesi, sobre a faixa direita, enquanto que no flanco esquerdo, onde muitas vezes surge Davids (sem, no entanto, vocação posicional para o lugar, pois sempre que recupera a bola tende a flectir no terreno para verticalizar jogo), a única solução atacante chama-se Zambrotta, um médio ala, transformado em lateral esquerdo moderno, estilo cursor de faixa, que, nas suas investidas atacantes, causa grandes desiquilibrios nas defesas adversárias. Perdendo a bola, surgem os trincos a dobrar.

MILAN: Rui Costa, Pirlo e Káka Os maestros de Ancelotti

Treinador: Carlo Ancelotti Sistema base: 4x3x1x2 O JOGO DE EQUILIBRIOS DO 4X3X1X2 É, tacticamente, a equipa que melhor expressa os históricos dilemas do Calcio, preso, como este Milan, entre a tendência conservadora que a mentalidade defensiva incorporada impõe e o desejo de apostar num esquema mais ofensivo como a presença de vários talentos individuais no grupo quase fazem obrigar. No inicio da época passada, o desing táctico do renovado Milan de Ancelotti ganhou destaque quando inventou o chamado regista recuado, Pirlo, e o regista avançado, Rui Costa, vértices de um losango que fazia o rombo de um onze claramente ofensivo que ameaça revolucionar o Calcio. Bastaram, porém, alguns maus resultados e logo voltaram os guerreiros do meio campo (Gattuso, Ambrosini, Brochi) a sobrepor-se aos artistas. Assim, o Milan 2003/04 iniciou a nova época com o mesmo design táctico, esquematizado num equilibrado 4x3x1x2 gerido a meio campo pela garra de Gattuso, sempre apoiado por Ambrosini, e, na fase criativa, pela batuta de Rui Costa, cuja precisão de passe, curto ou longo, se tornou uma referência indispensável na dinâmica de jogo deste Milan. Ao mesmo tempo, Káka (o lugar de Seddorf), alinhando sobretudo encostado sobre o flanco esquerdo, procura descobrir qual o seu verdadeiro lugar nonze. Na frente, cada vez mais mecanizada na complementaridade de estilos e movimentos, a perigosa dupla Inzaghi-Schevchenko. Sem efeito, por enquanto, fica a ideia, formada durante a pré-época, deste Milan, com Cafu na direita e Serginho na esquerda, ir utilizar os flancos como principal arma da sua dinâmica táctica ofensiva. Assim, a primeira variação ao 4x3x1x2 seria o 4x3x2x1, jogando com uma espécie de dupla trequartista: Rui Costa e Káka. Se, noutra abordagem táctica, decidir activar o jogo pelos flancos, poderá retirar um desses médios centrais, inserindo um ala clássico (Serginho), ou, alterando o módulo, passar a jogar em 4x4x2, com os médios em linha. Nesse caso, Rui Costa teria, em principio, menos possibilidade de actuar, ficando o centro para Gattuso e Káká (ou Pirlo), superiores na cobertura defensiva, ou para um quarteto Gatusso-Pirlo-Seedorf-Káka, abrindo-se o jogo nas faixas com as entradas de Cafu e Serginho. Foi o que praticamente sucedeu, com total sucesso, frente ao Inter (3-0), embora, neste caso, Káká tivesse surgido claramente mais adiantado quando de posse da bola, voltando-se, assim, a desenhar, a espaços, um ofensivo 4x3x1x2. Com o tempo, porém, face á subida de forma de Pirlo, perfeito a gerir os diferentes ritmos de jogo a meio campo, Ancelotti refez o seu 4x3x1x2 a partir da dupla regista Pirlo-Rui Costa, os clássicos vértices do losango (excelentes contra a Juventus) ficando, assim, por descobrir como conciliar Rui Costa e Káká num sector, o meio campo, onde, face ao observado, só Gatusso é hoje um titular indiscutível.

ROMA: Capello e Totti, ou o discurso e o método

Treinador: Fabio Capello Sistema base: 3x4x1x2 O REGRESSO AO 3X4X1X2 Depois de ter tentado, durante a temporada passada, reconverter tacticamente a squadra romana ao 4x4x2, Capello decidiu, neste inicio de época, resgatar o sistema que há três anos, em 2000/2001, guiou a sua Roma ao titulo de campeão italiano: o 3x4x1x2, variante do moderno 3x5x2 com defesa a «3» (Zebina,Samuel e Chivu), dois médios centrais de contenção (Emerson e Dacourt), laterais ofensivos (Mancini e Lima), um trequartista playmaker (Totti) e dois avançados com grande mobilidade (Cassano e Delvecchio ou Montella). Desta forma, face ao observado, não é exagero afirmar que a Roma é, neste momento, a equipa mais ofensiva do futebol italiano, desenhando, muitas vezes, com as subidas de Totti, um claro 3x4x3. No caso de esquematizar o 4x4x2, Capello passaria a utilizar dois laterais clássicos (Panucci e Candela) sobretudo com tarefas defensivas, com o meio campo em linha. Até ao momento, este sistema apenas foi utilizado apenas fora contra a Udinesse (vitória 1-2) e resultou da ausência de Totti, alinhando, desta forma, sem um trequartista definido, emergindo Dacourt, quando se adiantava no terreno, como o médio central mais empreendedor. É um sistema mais seguro defensivamente, mas menos fluido no espaço e na ligação entre-linhas meio campo-ataque. Em relação á época passada, destaca-se o crescimento a nível técnico da dupla de médios Emerson-Dacourt, remetendo Tomassi para o banco, enquanto como revelação emerge o jovem De Rossi. No ataque, Cassano sente que a sua carreira está a chegar á hora da verdade. Ou o seu imenso talento estabiliza ou deixa se atraiçoar definitivamente pela sua rebeldia. Por outro lado, continua indiscutível a utilidade de Delvecchio, como ponta de lança ou como médio-extremo esquerdo (como fez na época do titulo). Em ambos os postos, com grande espirito lutador, é, apesar de fisicamente inestético, um jogador com uma perfeita leitura de jogo. A outra solução ofensiva reside no gigante norueguês Carrew, que, pelas suas características possantes, com boa visão de jogo aéreo, exímio a cobrir a bola e a desgastar os centrais adversários, será o complemento ideal para jogar ao lado de Montella ou Cassano, ambos muito perigosos a penetrar nos espaços vazios.

INTER: De Cuper a Zaccheroni, a guerra dos sistemas

Treinador: Alberto Zaccheroni Sistema base: 3x4x3 ENTRE O 4X4X2 E O 3X4X3 Acusado de ter ressuscitado o cattenacio, Cuper transformou, nos últimos anos, o Inter no onze mais largo do futebol italiano, com, na saída de bola, uma distância enorme (20-30 metros) entre o meio campo (a «4» com alas) e o ataque (com dois pontas de lança). Esta temporada, Cuper manteve a mesma base táctica de 4x4x2 clássico, em linha, muito atento defensivamente, com a defesa a «4» sempre completa e os laterais recuados. A diferença seria feita pelos novos médios-alas: Van der Meyde e Kily Gonzalez, com a missão de substituir os lançamentos longos por maior transporte de bola sobre as faixas, tornando, assim, a equipa mais curta e combativa. Os principais beneficiados desta nova variante ao 4x4x2, foram os pontas de lança (Vieri, Julio Cruz, Kallon ou Martins), melhor servidos, quer nos cruzamentos á linha, quer nos passes verticais para os espaços vazios. A proximidade entre linhas, possibilitou, ainda, a criação de triângulos na fase ofensiva, espaço no qual cada jogador -ala, interior ou avançado- passou a poder contar com dois companheiros para desenhar rápidas triangulações que abrem espaços de penetração. A grande lacuna deste esquema, residiu, porém, para além da distância entre linhas, no facto de o Inter não ter no seu onze, um verdadeiro regista para marcar o ritmo de jogo e ser uma referência para o colectivo. Fracassado o projecto-Cuper, surgiu Zaccheroni, um treinador com uma filosofia de jogo oposta, adepto do 3x4x3, sistema preferencial de todas as suas anteriores equipas e que, no Inter, utilizou logo na estreia frente á Roma: 3 centrais (Córdoba-Materazzi-Canavaro), laterais ofensivos (Zanetti e Coco) e três avançados (Recoba e Kily nas alas, Vieri no centro). No campo, traduziu-se numa alternância entre o mordaz 3x4x2x1e o ofensivo 3x4x3, num design mantido nos jogos seguintes e que após algumas exibições pálidas, devido ao facto do onze ainda não ter mecanização de jogo nesse sistema, muito lento na transposição defesa-ataque, tem revelado, nos últimas jogos (5 vitórias e 1 empate nos últimos 6 jogos) cada vez maior dinâmica colectiva, mentora de um reciclado espirito mais ofensivo que teve corolário na fantástica vitória em Turim sobre a Juventus (1-3) três dias após, no mesmo sistema, ter sido esmagado, em casa, pelo Arsenal, (1-5). Em termos individuais, a principal inovação foi a entrada do ponta de lança Julio Cruz. Mais do que uma guerra de sistemas, este Inter 2003/2004 vive, de Cuper a Zaccheroni numa verdadeira encruzilhada táctica.

LAZIO: As variações do meio campo e os triângulos de Mancini

Treinador: Roberto Mancini Sistema base: 4x4x2 UM 4X4X2 EM BUSCA DE REFERÊNCIAS Fiel devoto do 4x4x2, Mancini mantêm, neste inicio de época, o mesmo design táctico, que, no caso da sua Lazio, tem a especificidade de privilegiar sobretudo o jogo pelos flancos, quer com a acção dos médios ala, quer com as subidas dos laterais, sobretudo sobre o flanco direito, através do dinâmico Oddo. Sobre a esquerda, com Favalli a cobrir, o brasileiro César surge mais adiantado, revelando-se muito inteligente nas triangulações em fase ofensiva já perto da área adversária. A outra solução passa pela inclusão de Zauri. Através destes movimentos pelas alas, o onze acaba, muitas vezes, na dinâmica atacante, quase a jogar em 3x5x2, mas tal trata-se apenas de uma variante de jogo. A base é o 4x4x2, com clássica defesa de quatro elementos, com Stam e Mihajlovic como centrais, embora muitas vezes Stam também seja utilizado, quando o esquema se torna mais estático, na lateral direita, regressando assim Fernando Couto á titularidade. Onde Mancini tem, neste inicio de época, revelado algumas hesitações, é no centro do meio campo, á frente da defesa, onde após ter partido com a dupla de volantes Albertini-Stankovic (que flectiu desde a ala), tem agora escalado Liverani-Dabo. Vendo os movimentos desta Lazio a meio campo, há um homem, porém, que se destaca dos demais: Fiore. Originariamente, médio centro, tem sido adaptado á faixa direita, onde revela sempre tendência para flectir no terreno e, assim, melhor evidenciar as suas vocações de organizador de jogo. Tal situação torna-se mais constante pelo facto desta Lazio, á semelhança do Inter, não dispor também de um regista clássico, pois tanto Albertini (quando joga) ou Stankovic partem muito de trás. Neste contexto, torna-se, muitas vezes ver Fiore, um jogador com alma de playmaker, demasiado preso a um flanco (o direito, onde também pode jogar Sérgio Conceição). Na fase atacante, Mancini abre o seu 4x4x2 a toda a largura do campo, com Claudio Lopez, embora cada vez menos veloz, vagabundeando de flanco para flanco, ficando Corradi ou Simone Inzaghi em cunha entre os centrais.

PARMA: Quando um jogador condiciona um sistema

Treinador: Prandelli Sistema base: 4x2x3x1 A VIDA SEM MUTU, DO 4X3X1X2 AO 4X2X3X1 A prova de como a presença ou não de um jogador Pode condicionar um sistema. Assim, neste belo Parma de Prandelli, o homem que marca a clivagem táctica entre o 4x3x1x2 da época passada e o 4x2x3x1 preferencial desta época chama-se Mutu, o romeno que rumou durante o defeso para o Chelsea e forçou o técnico parmesano a reformular os seus conceitos tácticos, passando a jogar só com um avançado fixo, o ponta de lança brasileiro Adriano. Desta forma, neste inicio de época, o Parma tem surgido a jogar com um trio de trequartistas nas costas do ponta de lança solitário. Na composição desse «3x1» de cariz ofensivo, estão três médios de vocação atacante: Nakata, Morfeo e Bresciano. O mesmo principio táctico mantêm-se quando utiliza o 4x3x2x1, então mais de contenção a meio campo, ficando o duo Nakata-Morfeo a assistir Adriano. Se pretender reciclar o 4x3x1x2 ou esquematizar um 4x4x2 clássico, a principal opção de Prandelli passa pela inclusão da revelação Gilardino, 21 anos, um avançado que tem feito furor também na selecção sub-21, junto a driano, ficando Nakata ou Morfeo nas costas. Em relação á temporada transacta, é mais difícil, no entanto, o alargar da frente de ataque (falta um extremo-esquerdo como Mutu que se encostava á linha) para abrir mais espaços de penetração ou, em certas situação de jogo, esquematizar o 4x3x3. Neste contexto, o 4x4x2 seria muito menos estático, mas carente de cobertura defensiva nos momentos em que a equipa perca a posse da bola na fase atacante e tenha de recuar rapidamente para a recuperar, missão de sacrifício para a qual não estão talhados Morfeo e Nakata, que neste sistema jogaria sobre a direita, o que nunca lhe agrada, surgindo Blasi sobre a faixa esquerda. É tendo presente estas individualidades ao seu dispor que Prandelli tem movido as peças do seu Parma 2003/04. Parte com o 4x2x3x1, e depois, no decorrer do jogo, troca Morfeo por Gillardino e passa a jogar em 4x3x1x2, ou troca Bresciano por Filippini e passa a desenhar o 4x4x2, ou troca Nakata por Marchionno e passa jogar numa espécie de 4x2x2x1x1. Na defesa, mantêm-se clássica linha de «4», com Bonera á direita, Ferrari e Castelini centrais, e Seric á esquerda. Á sua frente, a dupla de volantes Blasi-Barone. Com Blasi suspenso por ter acusado positivo no controle anti-doping, surge agora, no seu lugar, o dinâmico Filipini

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