OS TRÊS CAMINHOS DO FUTEBOL ASIÁTICO

15 de Junho de 2005
Olhando o cenário mundial há quem não hesite em considerar a Ásia como o continente do futuro. Nele distinguem-se três regiões muito diferentes, no estilo de vida, na cultura, religião e nas fonte de riquezas que os tornam gigantes: o próximo oriente, o médio oriente e o extremo oriente. A cada região, um carácter, uma personalidade, uma forma de conceber a existência humana, antes e para lá da morte. É impossível falar de uma mentalidade oriental una da mesma forma que se o faz para a civilização ocidental. Teríamos assim, como diria René Guénon, uma civilização ocidental e várias orientais. Esta dicotomia Oriente-Ocidente remonta a tempos ancestrais.
Hoje pode-se vislumbrar na Europa um grande sistema cultural, mas o que, no fundo, caracteriza a cultura ocidental é ser a síntese de outras três. A grega, a romana e a judia, na sua componente cristã. A este conjunto, juntou-se, mais tarde, a dos povos germânicos. Por fim, neste processo de integração cultural progressiva, somou-se, o toque oriental grego-bizantino. Olhando o mundo ocidental, poderia dizer-se que as suas velhas capitais históricas, Roma e Constantinopla, estão hoje representadas por Washington e Moscovo. No continente asiático, por outro lado, encontramos uma enorme pluralidade de línguas e culturas que, depois de um longo processo histórico, desembocou em três grandes regiões geográficas e culturais: O próximo Oriente está constituído pela cultura árabe, mas não foi sempre assim. No antigamente tivemos outras culturas, como a persa e a greco-romana. Marcando a ruptura geográfica com a Europa, temos uma região historicamente híbrida, que sentiu os ventos ocidentais através do grupo turco, ainda hoje mescla de duas culturas totalmente opostas e em permanente conflito. Noutro plano, constata-se que foi a Rússia que se expandiu para a Ásia e não o contrário. O próximo oriente principia, assim, nos confins da Europa e estende-se até o norte de África. Visitando estas paragens, fica-nos presente que todos os povos muçulmanos, devotos ou não do Islão, unem-se pela língua árabe, qualquer que seja sua origem ou raça. É nesse universo que emerge a mítica figura de Lawrence da Arábia, ilustre membro dos serviços secretos britânicos que, no inicio dos anos 20, se torna líder da guerrilha beduína e alma da revolta árabe contra os turcos, cujo pensamento reflecte em os Sete pilares da sabedoria, sobretudo o das tribos nómadas, baseado no fatalismo como abandono á vontade divina.

O EXTREMO-ORIENTE

O extremo oriente é, na sua essência, o espelho da grande cultura chinesa. Entre todas as regiões orientais é a que possui maior unidade racial e cultural. Nos últimos tempos, porém, o poder económico e tecnológico japonês, numa fase de total expansão, invadiu com as suas marcas e produtos todo o mercado ocidental, no que surge agora acompanhado, no plano da feroz dinâmica comercial pelo gigante chinês, que exporta para o Ocidente toda a variedade de produtos, cujo custo de produção interno é praticamente nulo e, depois no Ocidente, cativam os olhares dos consumidores europeus. Uma realidade com contornos de produção sinistros que se estende a territórios como os da Malásia ou da Indonésia, nomes de países que com um misto de surpresa e exotismo descobrimos em etiquetas de t-shirts, brinquedos para crianças ou caixotes do lixo á venda em pequenas ou grandes lojas espalhadas um pouco por toda a Europa. Uma estratégia de grande dinâmica industrial e comercial que se estende á Península da Coreia, mas que tem na China, o principal símbolo. A verdadeira serenidade de um homem é aquela que nasce dentro de si próprio, independentemente do local e da situação em que se encontra. O budismo, uma religião sem Deus com mais de 2500 anos que coloca o homem no centro da sua reflexão, é sobretudo uma filosofia de vida. Roberto Baggio conta ter descoberto o “Buda Darma”, ensinamento de Buda, quando jogava na Fiorentina. As lesões não o largavam e sentia-se zangado com o mundo. Diz a filosofia budista que durante toda a vida, em qualquer situação, o destino está sempre nas nossas mãos. É este o nosso caminho, o mesmo que Buda fez há milhares danos. Na dor ou na alegria há sempre um valor que é causa e consequência de algo. Consciente do seu carácter e valor, Baggio recuperou a tranquilidade e confiança que lhe permitiram atingir o “nirvana” futebolístico. Por isso, quando de um momento para o outro regressou à sombra, nunca se descontrolou. Continuou firme pela sua estrada e com a classe dos predestinados, reconquistou, serenamente, a admiração de todo o Calcio. A verdadeira serenidade de um homem é aquela que nasce dentro de si próprio, independentemente do local e da situação em que se encontra. O budismo, uma religião sem Deus com mais de 2500 anos que coloca o homem no centro da sua reflexão, é sobretudo uma filosofia de vida. Roberto Baggio conta ter descoberto o “Buda Darma”, ensinamento de Buda, quando jogava na Fiorentina. As lesões não o largavam e sentia-se zangado com o mundo. Diz a filosofia budista que durante toda a vida, em qualquer situação, o destino está sempre nas nossas mãos. É este o nosso caminho, o mesmo que Buda fez há milhares de anos. Na dor ou na alegria há sempre um valor que é causa e consequência de algo. Consciente do seu carácter e valor, Baggio recuperou a tranquilidade e confiança que lhe permitiram atingir o “nirvana” futebolístico. Por isso, quando de um momento para o outro regressou à sombra, nunca se descontrolou. Continuou firme pela sua estrada e com a classe dos predestinados, reconquistou, serenamente, a admiração de todo o Calcio. Leva inscrito na sua braçadeira de capitão um símbolo budista que significa “devemos vencer!”

O MÉDIO-ORIENTE

Mas se o Extremo Oriente é o Império da tecnologia e do comércio, o Médio Oriente, ainda colado ao chamado próximo Oriente, uma região em permanentemente em tensão devido a ancestrais conflitos religiosos e culturais, é a região do Petróleo, o ouro negro que motiva a cobiça desmesurada e arrasta todos aqueles países para complicados jogos de guerra e poder, quase sempre detonados pela avidez norte americana de dominar o mundo. Neste universo, o futebol adquire contornos que ultrapassam, em muito, as suas quatro linhas. Quando em Dezembro de 1995, a selecção da Palestina defrontou uma equipa de veteranos franceses, o Variété Fottball Club, do qual fazia parte Michel Platini, tal representou um passo importante para a causa palestina, rumo ao reconhecimento do seu Estado. Neste contexto, o futebol israelita, secularmente aprisionado numa encruzilhada história, de contornos religiosos, políticos e territoriais, viveu sempre por entre dois mundos. Ao longos dos tempos, por força do barril de pólvora que, desde o pós-guerra se tornou toda a região do médio oriente, a mera presença das suas camisolas com a estrela de David ao peito noutros países árabes era um foco de grande tensão capaz de dinamitar os mais profundos ódios latentes entre toda a nação árabe. Assim, a história do seu futebol, divide-se entre dois tempos, e entre dois continentes. O Asiático, onde jogou até fins dos anos 70, e o Europeu, onde se integrou a partir de 1976, após uma diplomática decisão da FIFA, que, incapaz de contornar um problema milenar, optou por retirar o futebol israelita da fogueira árabe e colocá-lo, tranquilamente a jogar com os países europeus. Esta astuta possibilidade do futebol lidar com o mapa mundo, parece quase paradoxal face á onda de violência que continua a invadir toda aquela região do globo, perante a impotência de todos os organismos internacionais em resolver o problema. A religião judaica remonta a cerca de 2000 AC. Desde a criação, no pós-guerra, do Estado de Israel, em 1948, em territórios outrora na posse de palestinos, nunca mais foi possível vislumbrar a paz naqueles milenares territórios do médio oriente. A região árabe nunca aceitou de forma pacífica uma pátria judaica na Palestina. O futebol coexistiu por entre todo este ambiente e espelhou os ódios milenares que explodiam quando a selecção israelita visitava outras nações exibindo, com orgulho, na camisola, a cruz de David, o segundo Rei israelita que, séculos antes de Cristo, estabeleceu Jerusalem como capital do reino, e onde mais tarde Salomão construiu o primeiro templo.
De um lado, portanto, temos a tecnologia do extremo oriente, do outro, temos o petróleo do próximo-médio oriente. Em ambos, temos, sobretudo, dinheiro, muito dinheiro. Só por isso se poderá dizer que é a Ásia, e não África, onde os recursos financeiros e estruturais são praticamente inexistentes, o continente do futuro. O Futebol é um caso exemplar de toda esta realidade. A capacidade e o valor futebolístico dos jogadores africanos é incomparavelmente maior ao dos asiáticos, mas ao contrário destes, os talentos do continente negro não dispõem de meios para desenvolver e lapidar esses diamantes talentosos por obra de Deus. Entre as duas diferentes regiões asiáticas cativadas pelo futebol, existem, no entanto, diferentes formas de entender e apoiar o futebol. Se no extremo oriente esse apoio vai sobretudo para os clubes, geridos por empresas privadas numa óptica de lucro e conquista de mercados, no médio oriente, as monarquias petrolíferas utilizam o futebol sobretudo como factor de firmação nacional e por isso apostam fortemente nas selecções nacionais. Como a exploração do ouro negro está na mão do Estado e dessas famílias ultra milionárias, não existe espaço para os jogos das empresas privadas como nas regiões do Sol Nascente. Culturalmente, porém, não ficam dúvidas que toda a civilização Oriental está, nos dias de hoje , muito mais viva, na sua pluralidade histórica, que a ocidental, continuando a existir os vários Orientes com as suas diferentes tradições culturais, sociais e religiosas. Ao invés, a chamada globalização, através da revolução tecnológica, uniu artificialmente o mundo ocidental, desintegrando as suas várias culturas, que hoje lutam, desesperadas, pela sua afirmação própria, liberta dos jogos geo-estratégicos ameaçadores da sua identidade, cada vez mais ofuscada com o passar das gerações.
É difícil encontrar um estilo único que defina o futebol jogado no continente asiático. Essencialmente técnico, continua em busca de um estilo próprio. Admirador da técnica sul americana e devoto da eficácia táctica europeia, procura um equilíbrio que melhor potencialize o talento natural dos seus executantes. A base do futebol jogado por todas as nações asiáticas é a técnica, mas todas elas revelam diferentes ritmos. Mais veloz e vertical, o jogado por coreanos e iranianos, mas lento e apoiado, o praticado pela Arábia Saudita e Japão, o novo aroma do futebol asiático, despertado sob o impulso de um brasileiro em fim de carreira, Zico, que despertou o entusiasmo dos nipónicos pelo futebol, antes só seduzidos pelo Sumo e pelo Basebol. Inspirados na técnica brasileira, incutida por canarinhos que, desde Alcindo a Dunga, começaram a chegar, e orientados por frios treinadores europeus, os onzes japoneses foram criando um compromisso entre a técnica e a táctica, que, num ápice, deu um novo impulso ao futebol nipónico e, por extensão, a todo o futebol asiático que se projectou na nova imagem da selecção japonesa.

ARÁBIA SAUDITA: O FUTEBOL DOS PRINCÍPES

No médio oriente, as grandes famílias petrolíferas tendem a transformar as suas selecções quase numa espécie de super clubes privados que gerem ao sabor dos resultados, contratando grandes treinadores estrangeiros a quem fornecessem principescas condições de trabalho mas que a quem raramente dão depois tempo para trabalhar, exigindo vitórias imediatas. A realidade árabe e islâmica molda assim um estilo impaciente, onde só faz sentido ganhar. Tecnicamene dotado, jogado sob forte calor, o pausado futebol da Arábia Saudita passou a ser conhecido, pela forma como os seus jogadores gostam de tocar a bola, em passes curtos, temperados com dribles e alguns rasgos individuais, como o Brasil da Ásia. Continua, porém, como todo o futebol árabe em geral, sem vingar internacionalmente, permanecendo exótico aos olhos europeus que, no entanto, ficam fascinados com as condições de trabalho que nela existem. A base do atraso reside, sobretudo, numa questão de profissionalismo e mentalidade, não só a nível directivo, mas também ao nível de jogadores, vedetas sem problemas financeiros e pouco sensíveis ás exigências do profissionalismo. O estilo brasileiro do seu futebol convida a menor esforço físico, mas a falta de trabalho de base, que não pode ser resolvido em poucos meses por qualquer treinador do mundo, por mais prestígio que tenha, compromete logo á partida o sucesso internacional. Têm, no entanto, dois factores capitais para evoluir e recuperar o atraso culturalmente competitivo em relação aos europeus: estruturas e talento. Falta revolucionar mentalidades.
Esse é, no entanto, o factor mais complicado, a começar, sobretudo na ultra milionária classe dirigente que, desde que em 1978 o Hilial de Riade, conseguiu com a intervenção pessoal do irmão do Rei Khaled, contratar o brasileiro Rivelino por oito milhões de dólares, continua a pensar ser possível compra o sucesso desportivo só com dinheiro. Quando no Mundial de 1998, após perder com a França e a Dinamarca, a Arábia Saudita ficou fora do Mundial, o todo poderoso Príncipe Faisal, indignado, não se conteve, e num ápice, despediu o treinador brasileiro campeão do mundo, Carlos Alberto Parreira, que já nem se sentou no banco para o terceiro e derradeiro jogo: Um defensivista que desvirtuou todo o nosso futebol, sentenciou o Príncipe. Desde finais dos anos 70, muitos treinadores de renome internacional passaram, atraídos pelos petrodólares, pelo futebol saudita. No inicio foram Don Revie, Ronny Allen, Dettmar Cramer e o brasileiro Didi. No final do século, os eleitos foram, entre outros, Telê Santana e Zagallo, apostas canarinhas, para além do francês Henri Michel, do búlgaro Penev, do polaco Potchnick e do jugoslavo Prostich que lançou a estrela Abdullah, a grande figura do futebol saudita nos anos 80, e, claro, o português Nelo Vingada que conquistou a Taça da Ásia 1996. Mas como no futebol, a paciência nunca foi o forte dos magnatas do petróleo, todos eles, mais tarde ou mais cedo, tiveram o mesmo destino que o treinador brasileiro campeão do mundo em 1994. Perante a olhar tutelar e aparentemente calmo do imponente Rei Fahd, uma imagem e um sentimento omnipresente por todas as ruas e artérias de Ryah, os jogadores sauditas sentem permanentemente a obrigação de ganhar e conquistar o mundo. Mais do que investimentos megalómanos, o futebol saudita necessita de criar um estilo e uma identidade que cruzada com a influência estilística brasileira, garanta-lhe a necessária revolução de mentalidades rumo á profissionalização de todas as suas estruturas, sem necessidade de recorrer, ciclicamente, a mercenários estrangeiros a quem nunca dão tempo para trabalhar. Nasser Al Johar, antigo internacional muitas vezes chamado para, em fase de transição entre um treinador estrangeiro e outro, já provou que poderia ser o homem certo para guiar a selecção da Arábia saudita no terceiro milénio. Com ele a selecção já atingiu uma Final da Taça da Ásia, embora sem lograr igualar o feito de Al Zayyani, o único treinador saudita a vencer, em 1984, a prova maior do continente asiático, e conquistou o apuramento para o Mundial 2002. Em todas estas vitória, contou com Sami Al Jaber, o maior jogador da história do futebol saudita. O simples pronunciar do seu nome entre os adeptos, suscita de imediato vénias. Chama-lhe o Sheikh. Mais do que um simples jogador, Al Jaber tornou-se numa lenda do futebol árabe. Avançado por natureza, recua muitas vezes no terreno para por ordem na equipa. É como que um segundo treinador dentro do relvado e nas provas sauditas logrou todos os títulos possíveis, com a camisola do Ali Hilal, o seu clube de sempre, tirando uma curta experiência no futebol inglês, sem grande sucesso, no Wolverhampton. Apesar do exemplos de Al Johar e Al Jaber, Ainda não entenderam que a missão de construir uma grande equipa de futebol, é um trabalho demasiado árduo e difícil para ser deixado apenas nas mãos de investimentos de milhões.
Durante o França-98 a imprensa resolveu tranformar um futebolisticamente desinteressante EUA-Irão num acontecimento de relevância mundial Os iranianos ajudaram a encenar a tensão e poucos dias antes do jogo ameaçaram abandonar a prova depois de a televisão francesa ter transmitido na véspera um filme americano onde a sua cultura era tratada de forma depreciativa. No final o Irão venceu 2-1 e o seu treinador, que vive há 14 anos nos EUA onde é proprietário dum supermercado, saltou eufórico com o triunfo sobre o grande satã. Só que para os mais atentos, nada de muito original sucedera naquela noite em Lyon. Ao longo dos tempos, o futebol tem colocado frente a frente os povos e as culturas mais diferentes. Os regimes socialistas contra os do capitalismo ocidental, as ditaduras da América latina contra as democracias europeias. Dentro das quatro linhas as ideologias politicas desaparecem por entre os movimentos de uma simples bola de futebol. A linguagem do futebol é universal.

AS DUAS COREIAS

Durante longos anos o nome do coreano Pao-Do-IK, autor do memorável golo que bateu a Itália no Mundial-66, foi o único citado quando se falava em estrelas do futebol asiático. A razão da sua fama estava ligada ao maior feito da história do futebol coreano, desde meados dos anos 50, finda a guerra civil, dividido, tal como o país, em duas zonas delimitadas pelo paralelo 38: de uma lado, a norte, a Coreia comunista, do outro, a sul, a Coreia de inspiração Ocidental. Em 1966, no Mundial de Inglaterra, os heróis provinham da região norte, que, finalmente, vinte e um anos depois da fundação nacional, conseguia superiorizar-se ao tradicionalmente mais forte futebol da região sul. Por paradoxo, embora o território a norte seja de muito maior extensão, 120 538 KM2, em comparação com o situado a sul, 98 758 KM2, é nesta região que se concentra a maior densidade populacional: cerca de 38 milhões de habitantes em comparação com os cerca de 17 mil milhões residentes a norte.A primeira participação coreana numa fase final de um Campeonato do Mundo, sucedera, no entanto, em 1954, poucos meses o fim da guerra civil. A representação era da Coreia do Sul. Sem argumentos, muito ingénuos e com dificuldade em dominar a bola, os coreanos tornaram-se na selecção mais goleada na história de um Mundial, 9-0 com a Hungria e 7-0 com a Turquia, mas apesar desse record negativo, ficariam famosos pelo seu incrível comportamento desportivo no relvado. Cada vez que os húngaros e os turcos marcavam um golo, os coreanos paravam e, em pleno relvado, aplaudiam os adversários. Doze anos depois, os norte coreanos assombrariam o mundo com o seu futebol rápido e directo que pela sua velocidade quase parecia filmado em projecção acelerada, como num filme mudo antigo. A sua estreia nesse Mundial de 1966 saldara-se por uma clara derrota por 3-0 frente á URSS, mas depois de empatar com o Chile, 1-1, a equipa ganharia o alento necessário para infringir a mais vergonhosa derrota da história do futebol italiano. Tudo terminaria, porém, nos quartos-de-final, aos pés de Eusébio, que numa tarde inesquecível, virou um resultado de 0-3 para 5-3, eliminando os fantásticos coreanos, todos iguais, magros, de pequena estatura, com o cabelo muito preto e penteado para a frente com uma franjinha, do Mundial.
Finda esta época, seria só nos anos 80 que a Coreia, então com todo o seu poderio futebolístico concentrado a Sul, voltaria a surgir na fase final de Campeonato do Mundo. Nessa altura já demonstrava outra qualidade e maturidade táctica, integrando na sua selecção vários jogadores de grande nível. Entre eles, destacava-se o homem que mais tarde seria eleito o futebolista asiático do século: Bum-Kum Cha, nome porque ficou famoso no mundo do futebol, mas que, no passaporte surge como Chabum Kun, o seu nome verdadeiro. Com 25 anos ele já estava no futebol alemão, onde lhe chamavam o Beckenbauer asiático. Vivia em Darmstadt, e tornou-se, em pouco tempo, uma estrela do Eintracht Frankfurt. A aventura teria, no entanto, de ser interrompida por causa do serviço militar. Um ano depois estava novamente de regresso á Alemanha, onde venceria uma Taça UEFA com as cores do Bayer Leverkussen, em 1988. Era um jogador com uma compleição física impressionante, rápido e possante na condução da bola, tinha um remate poderosíssimo e participou no Mundial 1986.. Faltava-lhe, porém, qualidade técnica para se colocar ao nível dos melhores do mundo. Hoje, de regresso á sua Coreia, penduradas as botas, ensinando crianças a dar os primeiros pontapés na boa numa Escolinha de Futebol eu criou em Seul, mantêm a mesma ideia e estende-a a toda a realidade do futebol coreano. “O futebolista coreano é rápido, tem poder de finta, mas ainda não tem tudo para integrar a elite mundial. Falta-lhe escola. Também precisa de conhecimentos tácticos, mais disciplina e forte poder mental. Tudo isto tem de ser aprendido em criança! Há rotinas que têm de ser aprendidas em tenta idade. Dentro de dez ou quinze anos, talvez possamos falar de boas gerações de jogadores. Ficaria muito contente que alguns deles saíssem daqui, da minha escolinha”. Apesar do grande prestigio alcançado, Bum Kum Cha é hoje um homem amargurado na sua própria terra. Depois de guiar a selecção, como treinador, á fase final do Mundial 98 em França, naquela que era a quarta qualificação consecutiva da Coreia do Sul para um Mundial, acabaria afastado a meio da competição pelo todo poderoso Dr.Jung, presidente da federação sul coreana de futebol, após ser goleado pela Holanda por 5-0. Os políticos e responsáveis futebolísticos coreanos nunca lhe perdoaram que, na hora da vitória, tivesse dito que “neste momento de crise política e económica, só o futebol proporciona alegria á população”. Ao despedimento, a federação juntaria o desproporcionado castigo de durante os cinco anos seguintes ficar proibido de voltar a treinar qualquer equipa. A Coreia do Sul que hoje se ergue é um país completamente diferente do passado, onde grandes empresas como a Hyundai ou a Samsung começam a ombrear de igual para igual com os colossos empresariais do vizinho Japão. Permanece, no entanto, o complexo problema político que divide o imenso território coreano em dois, embora os novos tempos, e a queda na Europa dos regimes de Leste, tenha aproximado o regime dos dois países e, aos poucos, a s diferenças culturais entre os dois povos começam a desvanecer-se. Uma verdadeira união cultural entre eles está, no entanto, ainda muito longe de se tornar realidade.

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