Conseguir conviver com diferentes sensações e estados de espírito é um desafio diário de coragem ou contenção. O jogador de futebol é um ser emocionalmente sensível a esse tipo de mutações. Talvez por isso muitos deles se tornaram camaleónicos vendedores de imagens. Como procurassem esconderijos para os flashes das fotos. Vejo Ronaldinho a chegar a Barcelona depois das férias. Os adeptos loucos em redor e os seguranças cercando-o. Parece vinda de outro planeta. Óculos escuros, tranças no cabelo, boina, telemóvel, ti-shirt de marca estampada, brincos, colares de ouro dependurados, um destacando o R10, outro com uma cruz, rosto fechado de “hip-hop”.
Está ali ainda um jogador de futebol no sentido epistemológico do termo? Claro que não. Era uma “pop-star” da bola. Mas o que mais me perturba nesta moderna feira de ilusões moderna é recordar o outro Ronaldinho. O que cativou pela forma como sorria em campo, reminiscência moleque do futebol de rua nos relvados faraónicos.
Mas porque um jogador de futebol se deprime, transforma-se, esconde-se? Vejo uma foto de Ronaldo, desmesuradamente gordo, num iate privado em Ibiza e já nem vejo um jogador. A sua imagem, o despenhar emocional do “fenómeno”, mete medo. Cristiano Ronaldo e a namorada na praia em férias, as tatuagens de Beckham e as poses de Victoria em festas de Hollywood. A vida dos futebolistas como uma feira de sonhos em revista cor-de-rosa.
Neste descontrolado mundo de imagens e emoções, os psicólogos no futebol têm ganho adeptos. É um universo difícil de penetrar para o comum dos mortais. Ou melhor, para o comum dos psicólogos.
Billardo era um obsessivo treinador argentino. Motivava jogadores pela responsabilidade. Ganhas? “és herói”. Perdes? “podes sair”. Como jogador ficou famoso por picar os adversários com um alfinete nas marcações mais duras e apertadas. Em fim de careira, lá admitiu o tal psicólogo moderno na equipa. Estava no Estudiantes e na semana do escaldante derby com o Racing, o novo homem teve trabalho reforçado. No dia do jogo, a equipa estava no túnel, quase a entrar em campo. Os jogadores nervosos. O psicólogo vai sozinho espreitar as bancadas. Vê os adeptos loucos. Uns apoiando, outros, “barras bravas” adversários, insultavam de tudo. Preparavam-se para cuspir junto à rede. A policia de intervenção sustinha os ânimos mas numa bancada já soltava bastonada. O psicólogo volta, assustado, mas seguro de si: “Malta, tranquilos! Se não ganharmos isto, matam-nos a todos. Se perdermos, acho que também!”. Foi a última contribuição do psicólogo no grupo. Com esta sábia análise, foi despedido mesmo ali.
Todos estes universos do futebol actual confundem muitos craques. Fazem deles autênticos “camaleões”. Como se mudando a imagem, criassem universos particulares. Onde se perdeu o lado de “cartoon” romântico de Ronaldinho?
Terminando a história do derby, foi mesmo Billardo quem liderou a entrada do onze em campo. Pisou a relva, foi logo insultado, “hijo de p…!” e levou uma cuspidela na cara. Ao mesmo tempo, o craque do onze punha gel e ajeitava a fita no cabelo. Tudo normal, portanto. O futebol enlouquecido em estado puro.