Pak Doo-Ik, Séc. XXI

18 de Junho de 2009
A Coreia do Norte no Mundial. Na Ásia, seguindo o milagre coreano na relva saudita de Peseiro.

 

O nome tem ressonância mítica na história do futebol mundial: Pak Doo-Ik. Era o médio com cabelo de tigela (na verdade, todo o onze tinha um corte de cabelo igual…) que, em 66, fez o insolente golo com que a Coreia do Norte, vinda detrás da cortina de ferro comunista, bateu a poderosa Itália. Correu a lenda, então, que era dentista, o que tornava o feito mais épico, ou irónico, para o drama italiano. Dias depois, Eusébio devolveu-o ao anonimato, mas para a Coreia do Norte futebolística não existe nome maior. Até hoje. Quarenta e quatro anos depois, está de volta a um Mundial, perante a face quase petrificada de Peseiro, assustado desde os primeiros minutos do jogo decisivo. A Arábia Saudita tem, claramente, um onze mais talentoso que o coreano, mas nunca foi capaz de controlar a ansiedade.
 
Com um esquema de três centrais (cinco defesas) em 5x3x2, a Coreia fechou os espaços em frente à sua área, com um esguio trinco, muito inteligente, Ahn Young-Hak, nascido no Japão e que joga na Coreia do Sul (no Suwon Bluewings). O espírito de Pak Do-Ik ressurgia em Riade, mais forte até que Mung Guk e Jong Tae Se, a dupla atacante coreana cujos nomes também convêm ir fixando. Tudo isto parece futebol de outro planeta, mas, de repente, vê-se o 4x4x2 de Peseiro na relva saudita. A equipa tem dois bons alas (Noor e Al Qahtani), mas nunca conseguiram ganhar lances de um-para-um. A bola queimava e quando chegava aos pés dos avançados (Al Kahtani e Hazazi) os coreanos comiam-na.
 
Mais próximo do Japão no estilo de jogo, mas com maior nível técnico, o futebol saudita é uma espécie de Brasil da Ásia mas sem capacidade de, à medida que circula a bola, ser capaz de reconhecer os espaços de penetração na defesa adversária. Por vezes, sente-se a falta de um médio centro ofensivo para o fazer. Na Ásia, como na táctica europeia, o 4x4x2 clássico tem os mesmos problemas de ocupação de espaços. O futebol asiático tem evoluído muito nas ultimas décadas, mas falta que as principais figuras de cada selecção joguem na Europa para ganhar maior cultura de jogo, táctica e mental. Raramente unem a velocidade (mas típica dos coreanos) à técnica (propriedade dos sauditas). São estilos asiáticos completamente opostos, mas também num território menos culto tacticamente, acaba por ser o ideal mais defensivista (o da Coreia do Norte) a impor-se.
 
Para Peseiro, o play-off com o Bahrein será quase uma visita a um psicólogo futebolístico. Dizemos muitas vezes que o futebol é um jogo colectivo e que a ideia do treinador é fundamental, mas…o golo só o mete uma pessoa. E essa já não é o treinador, como a face desolada de Naif Hazazi, sentado no relvado, revelava no fim do jogo…

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