Papá, porque somos do Atlético?

11 de Outubro de 2011 11:16
Um grupo de bons jogadores a quem o treinador tira o “tapete táctico” (leia-se meio-campo) durante o jogo

 

 
É dos casos mais estranhos desta época. Inverte a lógica das emoções mais primárias do adepto. O At. Madrid vendeu os seus melhores avançados, Forlán e Aguero, mas, apesar disso, aumentou o entusiasmo da aficion em torno da equipa. É verdade que, no meio do clássico mundo de problemas que é o clube, eles nunca atingiram um alto nível exibicional regular que metesse a equipa na luta pelo titulo. É também verdade que entrou um novo must de craques, mas nenhum deles, apesar da fábrica de golos de Falcão, tem magia do Kun. O At. Madrid é mesmo um clube especial. Difícil de entender como mostra o anúncio para cativar novos abonados que o próprio clube fez onde um filho pergunta ao pai “Papa, porque somos do Alético?”.  
 
Observamos os últimos jogos e, de repente, descobrimos Reyes, Diego, Adrian, Salvio, Arda Turan, Falcão… O onze de Manzano, treinador da classe média do futebol espanhol, não tem um plano táctico muito elaborado. Está preso aos estereótipos dos modelos e sistema de jogo espanhóis. Quando tenta desmontar um pouco o dogmático duplo-pivot defensivo fica quase sempre sem…médios.  É o mais estranho ao ver jogar equipas espanholas: não conseguem montar uma segunda linha de construção do meio-campo (um jogador natural nesse espaço) com um critério posicional equilibrado na fase de construção atrás do(s) avançado(s). Sucede no actual Atlético. Por princípio tentou o 4x2x3x1, com Mario Suarez (mais trinco fixo) e Tiago (mais solto na condução e transições) à frente da defesa. A entrada de Diego, arquitecto da finta e passe, poderia dar o ocupante natural ao centro dessa segunda linha (vértice ofensivo do triângulo) mas tal perde-se face ao seu jogo demasiado vagabundo (vem buscar bola atrás ou aos pés dos alas, ou cai em cima do ponta-de-lança). O problema individual de Diego permanece o mesmo: conduz em excesso a bola, demora a soltá-la. Falta-lhe a base do bom médio: tocar muitas vezes na bola, segurá-la o menos tempo possível. Sem isso, deixa toda a equipa em suspenso em torno dele, à espera que se decida entre circular o jogo ou o passe curto.  
 
No último jogo, contra o Sevilha, Manzano montou um atípico 4x1x3x2, com Mario Suarez trinco, Tiago na meia-direita, Turan esquerda, Diego a 10 no meio e Reyes solto em torno de Falcão. A equipa, com os alas obrigados a jogar por dentro, ficou entregue em termos de profundidade, às subidas dos laterais (Felipe Luís e Silvio). 
 
Em qualquer sistema, o onze (diferentes sectores) não «fala» entre si, sobretudo no meio-campo, o sector que, no futebol de top, faz as equipas crescer, depois das defesas lhe dar os pilares. Este At. Madrid não segue esta lógica de construção. Espera que a bola chegue a Falcão através da qualidade individual (nos passes e situações de jogo/triangulações instintivas) dos seus jogadores (médios) com vocação ofensiva. Assim se tira o «tapete táctico» a um bom grupo de jogadores. 

 

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