Durante a última década, pensar no futebol paraguaio foi pensar em José Luis Chilavert, o guarda redes com um ego do tamanho do mundo que, qual pavão real exibindo a sua sumptuosa plumagem, comandou, altivo e arrogante, a destemida selecção guarani pelos relvados de todo o mundo. Da mesma geração que esteve presente nos Mundiais de 98 e 2002 –sucedendo á do popular Romerito, estrela dos anos 80- figuravam também os soberbos centrais Gamarra e Ayala, o médio guerreiro Toro Acuña e o goleador Cardozo. Todos eles, com o avançar da idade, estão hoje já na ternura dos 30 anos. Sem clube desde o inicio da época, após uma atribulada passagem pelo Strasbourg francês, Chilavert, perto de fazer 38 anos, vive, no momento, longe das canchas de fútbol. Enquanto treina, na Argentina, com as reservas do Velez Sarsfield, o clube com o qual ganhou tudo no inicio dos anos 90, deixou de ser o guia espiritual desta nova selecção guarani que visita Portugal, chefiada pelo técnico uruguaio Anibal Maño Ruiz, o homem que, desde finais de 2002, substituiu o italiano César Maldini no banco do principal onze paraguaio.
Apesar de ter nascido no Uruguai, Anibal Ruiz é, hoje, depois de muitos anos na pátria guarani, um treinador com coração paraguaio, onde está desde 1978, data em que chegou para ser o treinador adjunto de Luis Cubilla no Olimpia Assuncion, vencendo, logo no ano seguinte, a Copa Libertadores. Ao longo da sua carreira, também treinou no México, em equipas como o Publa, Veracruz e Santos, mas seria sobretudo como técnico das camadas jovens que El Maño Ruiz, exímio a motivar os jogadores, exibindo um tom professoral, se tornaria uma referência no mundo futebolístico, ao ponto de, em Março de 2002, ter deixado o banco do Guarani de Asuncion, para se tornar responsável pelas selecções paraguaias de Sub-20, sub-17 e sub-16.
Á partida, o seu cargo á frente da principal selecção paraguaia seria meramente provisório, mas com o passar do tempo, e os bons resultados obtidos –entre os quais merece maior destaque a vitória no Brasil, por 1-0, no jogo de despedida de Scolari- a Federação paraguaia acabaria por o eleger como o novo seleccionador em tempo permanente. Profundo conhecedor dos jovens talentos que existem no futebol paraguaio, Ruiz, que em Janeiro último guiou a selecção Sub-20 ao 3º lugar na Copa América da categoria, é o treinador ideal para conduzir a selecção paraguaia nesta fase de transição entre duas gerações, e, continuando a aproveitar as velhas estrelas, iniciar a necessária renovação de valores.
Os veteranos e as novas estrelas

Procurando uma visão global do actual futebol paraguaio, Anibal Ruiz estabeleceu como ponto de partida para este período de transição, um grupo de cerca de 60 jogadores, muitos deles a jogar no estrangeiro, do qual formará o esqueleto-base da equipa que irá disputar, a partir de setembro, a difícil fase de apuramento para o Mundial-2006. Tacticamente, é um fiel adepto do 4x4x2. Muitos gostam de rotulá-lo de um treinador defensivo, mas, observando os últimos jogos da sua selecção, Ruiz deverá antes ser classificado como um treinador prudente, seguidor da conservadora escola paraguaia, sem dúvida a mais defensiva de toda a América do Sul.
Entre os veteranos que, nos últimos seis anos, colocaram o Paraguai entre a elite do futebol mundial, Ruiz continua a contar com os centrais Gamarra, 32 anos, e Ayala, 33, este apesar de passar toda a época no banco do River Plate, o lateral-direito Arce, 32, do Gamba Osaka japonês, o médio-defensivo Toro Acuña, 31, o extremo tecnicista Jorge Campos, 32, e o avançado centro Cardozo, 32, do Toluca mexicano. Sem Chilavert, o novo guarda redes da selecção é La Muralla Tavarelli, do Olímpia. Nos últimos tempos, tem, porém, discutido a titularidade com a revelação Justo Villar, 26 anos, que, durante a época passada, realizou exibições espectaculares na baliza do campeão Libertad.
Caceres-Paredes-Cuevas-Santa Cruz:
As figuras da renovação
Analisando o lote de novos talentos, pode-se, á partida, detectar quatro jogadores-chave para esta fase de renovação: o defesa central Julio César Caceres, 23 anos, do Olimpia, o médio Paredes, 26, ex-FC Porto, actualmente na Reggina e os avançados Roque Santa Cruz, 21 anos, do Bayern Munique, que, lesionado, não defronta Portugal, e Nelson Cuevas, 22, que após quatro anos no River Plate, foi esta época emprestado ao Shangai da China. Para além deste quarteto de referência, é também de destacar a confiança manifestada por Ruiz no jovem médio Britez, que jogou, sem sucesso, no Sp.Braga na época de 2000/01. Com 22 anos, actual jogador do Tacuary, é muitas vezes titular no centro ou na direita do meio campo guarani, compensando a ausência de Acuña, ainda em fase de recuperação.
Neste período inicial de montagem da equipa, Aníbal Ruiz tem, no entanto, dedicado especial atenção aos jogadores que alinham no Paraguai. Dessa elite, destaca-se um grupo de cinco elementos saído do actual campeão paraguaio, o Club Libertad de Assuncion. São eles o guarda-redes Justo Villar, o lateral-esquerdo Paulo da Silva, os médios Carlos Bonet, 24 anos, e Gustavo Morinigo, 25, ambos já presentes no Mundial 2002, e o perigoso avançado Juan Samudio, 24. Sem o veterano Cardozo, o nº9 goleador, que, apesar de lento, algo pesado até, está sempre no sitio certo para o remate e é poderoso de cabeça, Ruiz tem outra bela alternativa para a frente de ataque: o chico Dante López, 20 anos, saído da sua selecção sub-20, jogador do Cerro Porteño, um falso avançado centro que faz o chamado enganche meio campo-ataque.
CINCO CRAQUES GUARANIS A SEGUIR
Ricardo Tavarelli
Posição: Guarda-Redes
Idade: 33 anos (8/2/1970)
Clube: Olímpia Assuncion
Personalidade, frieza e agilidade. Chamam-lhe La Muralla e El Mono. Muito forte entre e fora dos postes, é, desde há já várias épocas, o melhor guarda redes paraguaio. Um facto indiscutível para a maioria dos analistas do futebol paraguaio que só o temor a Chilavert terá impedido de o dizer em voz alta
Julio César Caceres
Posição: Defesa-central
Idade: 23 anos (5/10/79)
Clube: Olímpia Assuncion
Uma grande esperança o futebol guarani, considerado o futuro sucessor de Gamarra. Apesar de não ser muito alto –mede apenas 1,78 m.- é um excelente central de marcação, muito forte nos lances de antecipação e sempre no caminho da bola. Também pode alinhar a meio campo, como sucedeu no Olímpia, sob as ordens de Pumpido. Diz-se estar na agenda do AC Milan, recomendado pelo antigo seleccionador César Maldini.
Carlos Paredes
Posição: Médio-centro
Idade: 26 anos (16/7/1976)
Clube: Reggina (Itália)
Bem conhecido do futebol português, onde brilhou no FC Porto, é um médio de grande resistência física, muito forte técnica e tacticamente. Partindo da entrada da meia-lua, como um clássico nº6, corre o campo todo. Recupera bolas e distribui jogo. Um chamado jogador box to box, que joga de uma área á oura.
Nelson Cuevas
Posição: Avançado
Idade: 22 anos (10/1/1980)
Clube: Shangai (China)
Esquivo, rápido e com um remate colocado. Foi descoberto pelo River Plate quando jogava num clube da II Divisão paraguaia, o Atletico Tembetary, com apenas 18 anos. Baixote e com pouco peso (1,72m. e 63kg.) move-se nas imediações da área como um rato em busca de um espaço para furar. É, por isso, quase impossível de marcar individualmente.
Roque Santa Cruz
Posição: Ponta-de-Lança
Idade: 21 anos (16/8/81)
Clube: Bayern Munique
A grande estrela do actual futebol guarani. Chamam-lhe o Van Bastan paraguaio, pelo seu estilo ágil, exímio a fugir ás marcações, dotado tecnicamente, excelente a movimentar-se dentro da área, fugindo ás marcações e com um poderoso jogo de cabeça. Será o grande ausente do jogo com Portugal, pois encontra-se a recuperar de uma complicada operação ao joelho.