PARTIZAN-ESTRELA VERMELHA: DUELO HISTÓRICO DO VELHO FUTEBOL JUGOSLAVO

April 19, 2004 12:00 AM
A cinco jornadas do final do campeonato da antiga Jugoslávia, actual Sérvia e Montenegro, Estrela Vermelha e Partizan, dois históricos rivais do velho futebol jugoslavo, disputaram, em Belgrado, o jogo do titulo. Opotunidade ideal para observar o momento difícil de um futebol, em plena fase de transição, que, nos tempos aureos, chegou a ser conhecido como o "Brasil da Europa"
Mantendo o seu excelente valor técnico, evidente na forma como a bola é tratada por todos os jogadores, passando quase todos os noventa minutos rente á relva, o futebol sérvio vive, no entanto, uma fase de transição. Apesar da emoção do jogo, com os dois históricos separados por apenas três pontos, numa classificação liderada pelo Estrela Vermelha, o seu ritmo essencialmente lento e com muitas faltas impediu que essa técnica tivesse, em campo, a velocidade ideal para melhor evidenciar as qualidades competitivas da maioria dos jogadores de ambas as equipas. Orientado por Muslin Slavoljub, o Estrela Vermelha, aproveitando a vantagem pontual, adoptou uma postura muito cautelosa, esquematizando-se tacticamente num conservador 4x5x1, com quase todo o meio campo atrás da linha da bola, deixando na frente, isolado, vagueando de flanco para flanco, quase sempre sem convicção, o solitário ponta-de-lança Zigic, alto e esguio, talvez jogador menos técnico do onze. Mantendo uma defesa de quatro elementos sempre recuada, sem receio de defender á entrada da sua grande área, Slavoljub apostou na capacidade do seu meio campo em segurar a bola para, assim tentar controlar o jogo. Nesse campo, destaca-se o trinco Mladenovic, na primeira linha defensiva, apoiado, na organização do sector intermediário, pelo médio centro Krivorapic, 25 anos, enquanto que nas alas, se destacava Perovic, na esquerda, e sobretudo Markovic (foto), na direita, originariamente defesa-direito, adaptado ao meio campo após a saída logo aos 15 minutos, por lesão do ala Bogavac. Nesta posição, porém, Markovic, uma das maiores promessas do actual futebol sérvio, figura da selecção Sub-21 nos últimos anos, evidencia melhor a dimensão ofensiva do seu futebol, com excelente leitura de jogo, muito objectivo nas movimentações e inteligente a triangular pelo seu flanco. Na defesa, dois laterais atentos a fechar as faixas, Djordevic á direita, Vitakic, á esquerda, , no eixo, três centrais muito fortes no jogo aéreo e sem medo das bolas divididas, destaca-se Vidic, excelente sentido posicional, apoiado, nas dobras por Dudic e Sarak, este mais sobre a esquerda. Assumindo, desde o apito inicial, a iniciativa do jogo em busca do golo, o Partizan de Matthaus, surgiu num claro 4x4x2 com dois avançados em permanente movimento: o camaronês Boya, 20 anos, o único estrangeiro em campo, e o dinâmico Ivica Iliev, um jogador a seguir, 23 anos, muito agressivo na luta pela bola e a partir para cima dos defesas adversários, embora, por vezes, com pouco discernimento. Como médio centro organizador de jogo, nas costas da dupla avançada, emerge o melhor jogador do onze, um playmaker com um pé direito iluminado, embora algo lento com a bola nos pés: Vladimir Ivic, 26 anos. Nas suas costas, iniciando a saída de bola para o contra-ataque, em passe curto ou longo, o pendular Nadj, apoiado por dois operários, Jeremic, mais descaído sobre a direita, e Radovic, na faixa esquerda. O empate final, sem golos, deixou o Estrela Vermelha a um passo da conquista do titulo, mas esta sua actual equipa, totalmente constituida por jogadores sérvios, não tem qualquer ponto de contacto com outras que, ao longo dos tempos, fizeram a ergueram a sua fama de “escola de futebol tecnicista”, ao mesmo tempo aguerrido e competitivo. As referências continuam lá, mas sente-se que os tempos são outros. Para regressar á elite Europa a nível de clubes, o futebol da Sérvia e Montenegro, entenda-se antiga Jugoslávia, ainda terá de atravessar por várias etapas de reconstrução. A primeira, pelo visto neste Partizan-Estrela Vermelha, será redescobrir a velocidade competitivamente ideal para emoldurar o seu futebol indiscutivelmente de alto índice técnica. Sem velocidade, porém, ela não passa de um simples adorno.

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