Um jogo de futebol esconde, em cada noventa minutos, uma missão para o jogador. Um plano de acção definido pelo treinador no qual, fugindo a uma batalha de trincheiras, emerge um pensamento estratégico. Nesse “plano de jogo” global, os jogadores assumem missões particulares diferentes. Villas-Boas e Jesus pensaram o terceiro FC Porto-Benfica da época a partir de pontos diferentes. Invertera-se o estado emocional da Super-Taça da pré-época e ficara no subconsciente a o terramoto azul-e-branco do campeonato. Duas derrotas que conduziram Jesus a pensar o jogo por outros caminhos. Partindo de uma “contra-estratégia” (isto é, travar pontos fortes da construção do ataque portista) o plano tinha depois um desenvolvimento ofensivo que começava no momento de…recuperar a bola. Ambos os golos surgem de dois exercícios de recuperação, quando a bola parecia domada nas chuteiras dos jogadores portistas (Maicon e Fernando).
No fim do jogo, Jesus destacou um dos seus jogadores, elegendo-o como o patinho feio da equipa, aquele que os adeptos olham de lado, mas que, no território do Dragão, acabara de fazer um jogo particularmente perfeito: César Peixoto. Mas, em rigor, o patinho feio é uma história de sucesso. A missão de Peixoto esteve na base da mudança de sistema táctico habitual do Benfica. Em vez do 4x1x3x2 tradicional, surgiu em 4x4x2. A diferença posicional mais relevante estava no espaço à frente da defesa. Em vez de só um elemento, Javi Garcia, surgiram dois. Desviado para uma posição central (em vez do seu natural flanco esquerdo), Peixoto colocou-se perto de Javi, com uma missão específica: marcar Beluschi, o médio-criativo do FC Porto. Não era um marcação individual, de o perseguir por todo o lado. Era uma marcação no espaço. Ou seja, sempre que Beluschi surgisse no território de criação entre a meia-direita, Peixoto tinha de estar lá primeiro em antecipação. E esteve, quase sempre. Tirando a bola, e a acção de Beluchi, do jogo. Até Villas-Boas decidir substituir o “pelado” argentino a meio da segunda parte para meter um outro tipo de jogador que pudesse ganhar o jogo com outra forma de expressão. Guarín, mestre da pressão e das bolas divididas. Essa tentativa de subir a dimensão física do jogo, chocou, no entanto, com o outro lado do plano de Jesus. A pressão. Uma atitude sem bola que transformou a equipa.
Nesse sentido, os melhores defesas do Benfica foram os…avançados. Ou seja, sendo o FC Porto uma equipa essencialmente de posse, que gosta de dar 12/14 passes desde trás até chegar à baliza adversaria, o onze encarnado caia logo em cima desse processo (dos jogadores portistas mais recuados) desde o seu início, quando os centrais ou o trinco azuis-e-brancos queriam começar a sair a jogar. É a chamada “pressão alta”. Estes dois factores, a missão do patinho feio e a alta intensidade de recuperação de bola, dominaram o jogo para o Benfica. Admirado, Villas-Boas nunca conseguiu descobrir como libertar a equipa desse colete de forças táctico.
Um plano que teve um súbito impacto emocional no jogo. Em poucos minutos as dúvidas entraram na cabeça e no corpo dos jogadores portistas. A missão mais elaborada comia os espaços e a bola no jogo. Espelhos mentais visíveis na face dos treinadores e nas reacções dos jogadores em campo. O Benfica redimensionou o seu ego. O FC Porto percebeu que para além do seu onze titular (órfão de Pereira e Falcão) a realidade é muito diferente. Impassível, pelo meio de todos estes mid games tácticos, um patinho feio com bola foi correndo durante 90 minutos atrás da bola, até, no final, mesmo sem atingir a dimensão de cisne futebolístico, provar que, no futebol, como na vida, triunfa o pensamento mais forte.
Onde está
Walter?
É a pergunta mais difícil para Villas-Boas. Sem Falcao, lesionado, o seu FC Porto surge em campo sem um ponta-de-lança verdadeiro no seu onze. Walter nem se sentou no banco e Hulk jogou no centro do ataque, na pele de um nº9 que confunde o seu jogo. A razão desta inversão da lógica, nasce das dúvidas de Villas-Boas em relação a Walter lhe poder dar respostas positivas no jogo. Uma opção legitima (baseada em treinos e jogos) mas que choca com a realidade: não existe outra solução. Se perante esse cenário, o treinador do FC Porto decide antes mexer no seu ataque (tirar Hulk do centro, retira o seu melhor jogador do seu espaço de explosão natural) mexe em todos os processos ofensivos da sua equipa. E, claro, a equipa muda. O jogo escurece. O abismo entre titulares e suplentes é uma “nuvem cinzenta” que persegue o FC Porto desde o início da época.
Walter já dera indicações nos jogos anteriores que se não está pesado, parece…pesado (entenda-se com alguns quilos a mais). Os oito pontos de vantagem fazem a equipa “dormir mais descansada” antes de cada jogo, mas tem o risco de lhe turvar a visão mais rigorosa do seu plantel para lá dos onze jogadores. Decidiu fechar os olhos ao mercado de inverno e, agora, acordou noutra realidade.
General
Luisão
Saiu David Luiz, foi Sidney que ocupou o seu lugar, cumpriu bem em missões de corte (tira a bola da zona de perigo), a equipa nunca tremeu muito, mas como general defensivo quem se ergueu à frente da baliza de Júlio César, foi o gigante Luisão. Beneficiou, porém, de jogar no seu espaço preferencial. Ou seja, a defesa do Benfica (como falava nesta página a semana passada) não arriscou, sem a velocidade de David Luiz, jogar tão subida no terreno, recuou alguns metros no terreno e colocou-se no tal “bloco baixou” (como Jesus referiu no fim do jogo). Uma estratégia global com missões particulares. Nesse plano, Luisão até parece dos melhores centrais do mundo. Afasta a bola como um soldado afasta uma granada que vai depois explodir longe da sua zona de perigo.
Com este poder defensivo, um muro com dimensão aérea, a equipa até parece mais alta. Mesmo a corte de baixinhos dos meio-campo (Gaitan. Salvio, Aimar, Saviola) parece, de repente, maior. E, vendo bem, até ficam mesmo maiores. Na confiança e atitude em atacar cada bola.