A sua filosofia vive muito para além da simples questão dos «onze jogadores», mas nunca como agora ela se tornou tão sensível a esse pormenor humano. O hábito de Villa marcar golos não muda em qualquer formação. O 4x1x4x1 retira, porém, o jogador, Torres, que, mesmo longe do seu zénit, mais o ajuda nos movimentos em busca do espaço para o golo. Para jogar Fernando Torres, no entanto, é obrigatório sair um médio. E mexendo no território dos médios, mexe-se no coração da filosofia de jogo (passe curto apoiado e de construção). Mantendo Busquets a pivot com Xabi Alonso, fez subir Xavi (antes ia buscar a bola aos pés do pivot) e transformou-o, em 4x3x3, quase num enganche. Nessa equação, Iniesta descai para uma faixa ficando de fora um avançado quase extremo, estilo Silva ou Nava. Com Torres, devido às marcações que ele arrasta, Villa fica muito mais liberto.
Falta Fabrègas. A dúvida é conceptual: são, neste modelo, Fabrègas e Xavi compatíveis? Sim e ou não. Ou seja, em 2008, eram com Xavi quase como o tal segundo pivot que vinha de trás, e Fabrègas mais subido, quase enganche. Na fórmula actual, não. A ausência de Xabi Alonso pode, porém, levar Del Bosque a essa opção, mantendo Torres perto de Villa. Mantendo o duplo-pivot puro, entra Javi Martinez. Furando o debate, Iniesta ganhou as rédeas da construção/aceleração do jogo próximo da área adversária.
Noutro ponto, a organização defensiva não revela igual estabilidade emocional. Piqué cresceu como jogador (gosta de ter a bola, mas a sua saída é sempre com um passe longo diagonal da direita para a esquerda) e Capdevilla não comete erros. Puyol e Sérgio Ramos são a alma, mas também os elementos menos estáveis do sector, tal a forma intempestiva como abordam cada jogada (cortes e subidas no terreno). São, digamos, os jogadores facilmente mais atraídos pelo erro (entenda-se sair da sua zona posicional).
Em qualquer ponto por onde o jogo passa, fica, porém uma certeza: esta Espanha é a selecção, neste Mundial, que, desde trás, e à medida que a bola vai passando por todos os seus sectores (linhas) imprime a velocidade mais alta no processo de construção de jogo.
Van Persie: um nº9 “preso”
A missão de todos os grandes jogadores é, através das suas qualidades/características individuais fazer a equipa/colectivo voar. Por isso, a importância da posição onde jogam. Van Persie é hoje um dos jogadores que mais me entusiasma. Tem algo de Bergkamp, na forma de pisar, mas com mais golo no sangue. E, claro, veste de laranja, o que logo o faz parecer um jogador mais inteligente. Na actual Holanda, surge como nº9 do 4x3x3. Joga bem pela simples razão que não sabe jogar mal, mas vê-se que não está confortável nesse espaço. Também não o vejo, porém, como um ala ou como aquele tipo de avançado que tem de arrancar desde uma faixa para surgir bem no centro.
Van Persie é um avançado-total. Necessita de espaços livres em largura por toda a frente de ataque para soltar o seu super-futebol. Muitas vezes, o forte jogo posicional holandês retira-lhe essa possibilidade, condenando-o a ser o que não é, um 9 fixo. Só Kuyt o entende. E, por isso, dá-lhe, muitas vezes, o seu flanco direito (veja-se o 1-0 aos Camarões). Com o extremo Robben de regresso na esquerda, mais Van Persie necessita desse superior poder de compreensão táctico de Kuyt. Saindo da jaula do nº9, torna-se «só» num dos melhores avançados do mundo.