No futebol, as imagens individuais vendem melhor do que as colectivas. É mais fácil criar ideais em torno das qualidades mágicas de um só jogador do que através da projecção de um onze. Porque neste se escondem sensações diferentes à medida que a bola passa pelos diferentes jogadores, empolgante nos pés do tecnicista, guerreiro nos pés do mais lutador. Há muito tempo, porém, que uma época não conseguia confundir tanto esta tese. O argumento colectivo tem, claro, sotaque espanhol. Era por isso que Del Bosque disse eleger Xavi como o Bola de Ouro 2008. “Porque nos faz lembrar em cada bola que toca, a cada jogada que entra, como o futebol é um jogo colectivo”. Não é isso que deve provocar um grande jogador em campo?
O futebol actual tem uma característica forte: os jogadores deixaram de pensar. Não conhecem o jogo. Ou seja, vemos a bola a andar pelo campo, mas o mais comum é ficar com a sensação que os jogadores passam a bola uns aos outros mas não sabem porque razão. Mais do que jogar, o jogador cumpre obrigações. Ronaldo foge a este último ponto. Por vezes, anarquiza o seu futebol, mas percebe-se como o seu jogo antes de chegar aos pés, passa primeiro pelos sentimentos. São estes os dourados heróis modernos.
Até que, de repente, surge uma equipa toda a tocar a bola. Se para Ronaldo, a base é “emociono-me, logo… jogo”. Para aquele onze espanhol campeão europeu 2008, o principio é outro: “Penso, logo…jogo”. Senna, Xavi, Iniesta, Fabregas, Silva. Uma equipa que vende-se pelo ideal colectivo que cada jogador individualmente promove.
Ronaldo joga com o que a natureza teve a gentileza de lhe dar. Inventa novas fintas. Em Manchester, a distribuição do resto da equipa permite-lhe ser melhor jogador. Na selecção, joga pela anarquia. Para se perceber então como a ordem táctica é a base da explosão individual, basta ver o que fez Ronaldo ganhar a Bola d Ouro foram as boas exibições dentro do colectivo do Manchester e não nas arrancadas anárquicas no onze nacional.
De Stanley Matthews, o primeiro Bola de Ouro, em 1956, até Ronaldo, o último em 2008, existe um abismo temporal mas com uma conexão incontornável. Há tempos vendo um debate pela parabólica num canal colombiano sobre o futebol moderno e o futebol do antigamente, fiquei esclarecido quando um velho jogador colombiano, dos anos 50, que sinceramente nem conhecia, teve uma saída lapidar: “Naaa! Mas que diferenças? O mais antigo que conheço é a bola e isso continua a existir e a ser o mais importante em campo!”. As grandes equipas organizam-se em função da bola. E, com isso, fazem os adversários desorganizar-se. Os grandes jogadores também. Como Ronaldo. Como Xavi. Do individual para o colectivo.