Quatro equipas e o mapa da Europa. O futebol português partiu nos caminhos da Europa League, uma espécie de II Divisão europeia, dimensão internacional que encaixa melhor no actual contexto (financeiro e desportivo) do nosso futebol. Serão Benfica e FC Porto aqueles com uma visão menos pacífica desta tese. Pressente-se na face de treinadores e jogadores. Sente-se mais a obrigação de ganhar. Porque os seus egos estão destinados a palcos maiores.
Sevilha e Estugarda, os adversários, são equipas deprimidas por razões internas. Villas-Boas e Jesus procuram, de início, perceber que tipo de jogo pode esconder a caixa secreta dos 90 minutos. Sistemas tácticos habituais, nenhuma estratégia especial. Apenas, no onze da Luz, a ausência do coelho mágico, Saviola. Não é pouco. É verdade que o outro duende das pampas que ocupou o seu lugar, Jara, fez um grande golo, mas para além dessa jogada particular, houve o jogo global. Nesse sentiu-se como a chamada mecânica não mecanizada (isto é, hábitos de movimentação adquiridos sem, porém, caírem na rotina previsível no jogo) faz falta para colocar em ebulição a melhor máquina de futebol de qualquer equipa. Saviola é o avançado que melhor recua para a zona dos médios, conecta com o nº10 (Aimar) e, arrastando marcações, criatividade por vagabundagem, regressa depois à área, então para conectar com o ponta de lança (Cardozo).
A inversão do cenário no segundo tempo, nasceu antes no recuo alemão (instinto primário da equipa que sabendo-se mais fraca quando se apanha a ganhar) e da maior velocidade encarnada em todos os seus processos de construção e criação atacante. Na defesa, o golo alemão, provou a teoria já lançada nesta página sobre os efeitos da saída de David Luiz: com ele saiu a velocidade da dupla de centrais. O sector já não pode subir tanto (posicionar-se tão adiantado) sob pena de não apanhar as bolas (e adversários) que surjam nos espaços vazios nas suas costas (veja-se o golo alemão). Do outro lado do relvado, os olhos de Cardozo fixos na baliza. Sem a mobilidade de Saviola, tornou-se ele mais móvel, mesmo em espaços curtos. O objectivo é sempre tentar adivinhar onde a bola vai cair para escolher a melhor posição para detonar o remate com o seu pé esquerdo. O golo do empate foi o momento de encontro entre a bola e o pensamento.
Se o Benfica voltou a jogar bem pela velocidade, o FC Porto voltou a ganhar bem pelo controlo. É outra forma de jogar bem. O segredo está sempre na ocupação do meio-campo e seus espaços, com ou sem bola (entendendo-se este ultimo momento como fase de pensar a recuperação imediata da bola). Por isso, para tentar ganhar um jogo, Villas-Boas quando mexe na equipa, em vez de meter avançados, mete…médios. Foi o que sucedeu onze. Tirou James e Varela (avançados/alas do 4x3x3) e meteu Rodriguez e Guarín (médios para desenhar uma variante do 4x4x2). E o golo da vitória surgiu, perto do fim, saído do facebook colombiano, construído pelos dois médios que entraram e surgiram na área como dois..avançados. Estranha transformação que, no relvado, é a melhor forma de interpretar o mapa táctico de qualquer jogo.
O duelo Benfica-FC Porto continua, à distância, nos relvados portugueses. Com a fogueira acesa do derby lisboeta, a lar doce lar do Dragão pode continuar posto em sossego. O manual de sobrevivência nacional e europeu tem o GPS perfeitamente actualizado.
Whisky e neve
Na equação do meio-campo, o Sporting conheceu duas versões na Escócia. De início, com o trio de contenção, pesado quando de posse da bola (Perdo Mendes-Maniche-Zapater). Curiosa a ilusão que este trio dá de controlar o meio-campo. Não é assim. Porque o que em rigor sucede é que, devido ao seu posicionamento, em espaços recuados, eles controlam é o…seu meio-campo (isto é, o meio-campo defensivo leonino) no qual ocupam os espaços de forma rigorosa. Outra coisa, é controlar o global do meio-campo, em espaços mais adiantados, na transição/construção defesa-ataque, já dentro do meio-campo…adversário. Para isso, precisava que um dos médios se soltasse com a bola (nenhum deles tem essa vocação) ou precisava de…outro tipo de médio. Os dois últimos jogos (de Olhão a Glasgow) mostraram bem isso quando entrou…Matías Fernandez e, de repente, o controlo do meio-campo deixou o casulo da acção defensiva para se estender à iniciativa ofensiva.
Sensível a todos estes problemas, Postiga é um ponta-de-lança tacticamente altruísta, ao ponto de sair da sua casa nº9 e recuar para o tal espaço órfão a meio-campo. Nesse momento, porém, perde-se o avançado-centro de referência. A solução passa por mexer no ecossistema dos seus ocupantes naturais.
Noutro quadrante, na neve da Polónia, o Braga tentou meter o jogo tacticamente no congelador. Ou seja, sempre com o jogo da segunda mão na cabeça, tentou fechar espaços, guardar a bola e manter a equipa sempre equilibrada. Um “plano de jogo” tão natural como pouco ambicioso, mas o mais realista face às circunstâncias que rodeiam o actual Braga (um clube que é uma empresa de permanente compra e venda de jogadores). Em Poznan, só escorregou num momento. O suficiente para perder.