No fim, o jogo é visto no global, mas, durante 90 minutos, ele passa por diferentes momentos. Não falo aqui dos momentos defesa-ataque-transições. Falo de tendências de jogo, colocação das equipas e seu estado mental. Uma boa equipa entende esses diferentes momentos. Para ganhar, o segredo reside em perceber o «seu momento» táctico-mental em que está a mandar no jogo. Antes, porém, passa por outras fases, no jogo. Quando o tal momento táctico-mental está do outro lado. Nessa altura, saber reagir pode não ser tentar de imediato virar a tendência do jogo. É, quase sempre, saber esperar, entender que não é o seu momento. Ter a consciência que o jogo vai ter outros (ritmo, posição dos blocos, posse, etc) e, então, não deixar fugir o seu. Isto chama-se personalidade. Uma postura que traduz identidade. Por isso, nunca se desmorona (mental e tacticamente) no jogo, mesmo no momento mais adverso. Sabe, sobretudo, proteger-se dele.
A táctica é fundamental na criação desta personalidade. Entrar táctico-mentalmente inteira. Esta reflexão aplica-se, sobretudo, às equipas teoricamente inferiores num jogo onde sabem que o normal é ele estar mais tempo no momento adversário. Pensei nisso vendo como o Lyon ia reagindo à medida que o jogo de Madrid ia decorrendo. De início, parecia condenado a perder. Pressão inicial merengue e em pouco tempo ficou 1-0.
Pode parecer paradoxal, mas foi o momento crucial para a equipa mostrar a sua personalidade. Porque nunca se desmoronou. Manteve o controlo emocional, não tentou reagir logo ofensivamente. Percebeu que era momento de aguentar para não deixar fugir o muito que ainda faltava jogar e, assim, preservar a hipótese de, mais tarde, quando o seu momento no jogo surgisse, estar em condições do aproveitar. Foi o que aconteceu. Através da fidelidade a uma ideia (defesa a «4» posicional, laterais a fechar e proximidade entre-linhas para permitir avançar em passe apoiado) e da sábia alteração táctica de Puel ao intervalo (manteve o 4x3x3, que virava 4x1x4x1 a defender com o recuo dos alas Delgado-Govou, mas inverteu o triangulo do meio-campo, Toulalan foi para central e passou a jogar com dois pivots, Kalstrom-Gonalons, soltando Pjanic no vértice ofensivo atrás de Lisandro).
Tudo isto emoldurado na personalidade que só pode ser dada pela certeza táctica do que estavam a fazer. Em todos os momentos. Até surgir o «seu momento», sublimado na tabela (construção) Kalstrom-Delgado-Lisandro terminada com o remate de Pjanic para o golo. A base para tudo isto esteve na personalidade (força táctico-mental) que evitara a equipa de se desmoronar quando o destino parecia estar escrito. Não estava.