«Pintar» jogadores

April 22, 2008 12:00 AM
Cada jogador tem as suas «cores» próprias. São traços que o distinguem dos outros. A questão física e a arte de «colorir» o jogo.

Leio uma entrevista com o actor Joaquin Phoenix onde fala do que sente quando filma: “Muitas vezes os actores fazem demasiado. Sentem que têm de vencer o filme em todas as cenas!”. Muitos futebolistas transmitem a mesma sensação. O realizador James Gray, porém, ensinou-lhe que, em tantas ocasiões, “o menos é… mais!”. O treinador deve fazer o mesmo com o jogador. Porque quase todos são, por natureza, excessivos.

 
Eu diria que, no início, são todos cinzentos. Depois, começa o jogo e damos-lhes cores diferentes a cada um. Ou seja, pergunta-se a opinião sobre um jogador e o natural é citar uma ou duas coisas onde é mais forte. Estilo “é rápido”, “é bom de cabeça”, etc. É como pintá-los de uma cor. Mas há jogador mais difíceis de colorir. Mas nem isso é sinónimo de não ter qualidade.
 
Esta época foi excelente para colorir Pereirinha. Um bom jogador que não conseguia atribuir logo um ponto forte. Tinha boa recepção e decidia bem o passe, mas nunca fazia diferença no jogo. Esta época, combinando rapidez com mudança de velocidade, o seu jogo ganhou por fim cor. Foi essa tonalidade, entenda-se traço táctico-técnico, que o fez destacar-se. Outro bom jogador para colorir foi Pitbull. Antes dava-lhe cores com velocidade e agressividade. Este ano, um novo traço: o passe! Dirão que quanto mais colorido for um jogador, quase um arco-iris, melhor será. É um pouco verdade.
 
Há um jogador que desde a primeira vez que o vi, cativa pela velocidade alegre. Aí está uma boa cor para um futebolista. Djaló. Por isso, assusto-me quando leio que, depois de grandes exibições, muitos miúdos da Academia correram para o ginásio, para ficar como ele. Pelas fintas e golos? Não, porque tinham ficado impressionados com o seu cabedal ao festejar os golos sem camisola!
 
Tenho dificuldade em colorir jogadores pela questão física. É comum dizer-se que “joga bem, sim, mas precisa de ganhar corpo, músculo, etc”. A ideia de que um jogador melhorar só por aumentar a dimensão muscular é perturbadora. Porque, desde logo, o jogo brota naturalmente do corpo. Ora, mudando o corpo, o jogo até ficar bem diferente. Transformar um jogador ágil e veloz como Djaló num peso mais pesado, arrisca turvar-lhe os reflexos do seu jogo. Porque o futebol não tem a lógica do mais alto, do mais forte, do mais rápido, como outro desporto. Por isso, penso que nem é, em rigor, um desporto. É um jogo! Onde o mais franzino faz o que quer da bola e ganha ao mais musculado. Não se trata de não trabalhar o lado físico. Trata-se de correr o risco de mudar as melhores cores do jogador. Tornando-o cinzento. Antes de um ginásio, as melhores cores do jogo de Djaló estão relacionadas com uma bola.
 
Para qualquer jogador, o segredo é sentir que no jogo há lances para decidir e outros em que “o menos é mais”. No fundo, perceber qual o momento certo para o pintar com as suas melhores cores. E, nessa altura, sim, podem ser excessivos.

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