O estado natural do jogador em campo deve ser de permanente insatisfação. Ou seja, permanentemente em busca do melhor espaço para o seu futebol e colocar boas ideias no jogo. Mas, haverá por definição uma posição ideal para cada jogador? Depende, claro, da táctica, mas pensando no jogador antes de tudo isso, penso que sim. Existe um ponto prévio fundamental que pode subverter toda esta reflexão: a diferença entre defesas e avançados. Eles têm cabeças diferentes. O problema do defesa é que, por princípio, está dependente do que faz o avançado. O avançado, por sua vez, é quem decide para onde quer levar o jogo. O defesa reage. Isto condiciona desde logo a forma do jogador olhar o jogo e estar em campo. Há jogadores que não se conformam com isso. E sentem-se mal em campo. É uma questão mais mental do que táctica ou técnica. É difícil jogar numa posição quando a tua cabeça e olhos vêem o jogo e o campo de forma completamente diferente. Lembro isso ao pensar no actual momento de Miguel Veloso, posição, forma e questões com o treinador.
É, confesso, como adepto do bom futebol, das questões que hoje mais me inquieta: que jogador será Veloso daqui a alguns anos? A inquietação resulta de o achar com grande qualidade (técnica e táctica) mas sentir que tudo isso corre risco de se desvanecer na vulgaridade do jogo. Ou melhor, da forma como ele está hoje no jogo. Vê-lo escurecido a lateral-esquerdo reforçou este sentimento.
No inicio, tive duvidas se seria melhor como central ou médio. Pensei como central, mas foi por achar que ele não devia estar tão dependente do que fazem outros jogadores (avançados) que mudei e passei a vê-lo antes como médio, com iniciativa sobre o jogo. O que é um médio, afinal? É quem, em campo, sabe ser uma bússola para a equipa. Tocar umas vezes curto e outras longo. Receber a bola, cabeça levantada e girar o jogo. “Ok, agora progredimos por um lado”, gira o corpo e vira o jogo. A seguir, nova bola, rotação curta e “agora a bola e o jogo a gira para o outro flanco”. Veloso faz bem isso. Tem dificuldade em faze-lo a pivot-defensivo no losango porque este obriga-o a ter uma relação com os espaços mais rápida, pois coloca-o sem apoios curtos na saída de bola (os outros médios abrem). Vejo-o por isso a encaixar melhor na mesma posição num 4x3x3 com o meio-campo em triângulo e ele nº6 único ou, no mesmo sistema, como interior-esquerdo. Fazendo este exercício, estou, no fundo, a dizer porque entendo existir mesmo uma posição ideal para cada jogador.
Tudo isto não o faz, no entanto, mais importante do que a equipa, a suprema referência. Para um treinador esse é o grande desafio. Fazer uma boa equipa respeitando a essência dos jogadores e retirando o melhor das suas características. Depois do local confuso, a questão atlética, em que já esteve o debate sobre a qualidade do futebol de Veloso, a sua insatisfação no jogo resulta agora de querer ser mais do que o treinador lhe pede. Não existe forma mais angustiante de estar em campo.