POLÓNIA (1972-2002): As memórias de Lato e Boniek

11 de Maio de 2002
O TRAJECTO DO FUTEBOL POLACO ATRAVÉS DE TRÊS DÉCADAS

O mundo do futebol congeminado atrás da cortina de ferro atingiu o ponto mais alto da sua história durante os anos 70. Nesse período, uma das grandes nações futebolísticas foi a Polónia. Foi a consagração do chamado futebolísta-atleta. Estas são histórias de um futebol que, durante uma década, chegou a assombrar o mundo como jogadores como Lato, Zmuda, Deyna, Szarmach, Tomaszewski, Gadocha, Kasperczak e, entre outros, Boniek, herdeiros de wilimowski, um velho goleador que a guerra ofuscou...
Quando hoje, quase trinta anos depois, olhamos para o parlamento polaco e vemos aquele senhor gordo, careca, de fato e gravata, e com uns óculos pequenos a ler um jornal desportivo, poucos adivinharão que ali está o mais famoso jogador polaco de todos os tempos: Grzegor Lato. Depois de encerrar a carreira nos relvados, já com 40 anos feitos, aceitou o insistente convite de Aleksander Kwasniewski, Presidente da Republica polaca e antigo ministro dos desportos, e tornou-se senador da Assembleia Nacional da IIIª Republica da Polónia. As suas competências estão directamente ligadas á comissão do desporto e da cultura física, algo em que Lato pensou durante toda a sua vida. Com ele, pela primeira vez na fase pós-comunista, foi eleito, na sua região, situada no sudoeste polaco, um senador com claras ideias de esquerda. Quando votaram nele, muitos estariam a votar, não só nas suas propostas políticas, mas também, e sobretudo, nos muitos golos que apontou durante a gloriosa década de 70. No amanhecer dos anos 80, porém, perante o terramoto politico-social que invadira o país pela mão de Lech Walesa, o sindicalista que abalou as bases do regime comunista, a preparação da selecção nacional polaca para o Mundial de 82, passara quase despercebida á maioria dos adeptos que nos anos anteriores vinham se empolgando com as proezas de um atraente onze que, com frieza e arte, colocara a Polónia entre os melhores do mundo no cenário do futebol mundial. A luta clubística fazia-se entre o Légia Varsóvia, a equipa do exército, e o Gornik Zabrze, a equipa dos mineiros. Até 1989, o Légia, em nome dos dois anos de serviço militar obrigatório, todos os anos chamava para si os melhores jogadores do país. Assim, causou sempre grande antipatia nacional, apenas tendo o apoio na capital Varsóvia, enquanto o resto da nação apoiava o Gornik (que, em polaco, significa mineiro), da cidade de Zabrze, povoação mineira do sul. Essa rivalidade desaparecia porém na selecção, campeã olímpica em 1972, com um duo ofensivo formado por Lubanski, símbolo do Gornik, e Deyna, terror do Légia. Era a primeira proeza de uma sensacional casta de jogadores, que, oficialmente, ainda eram considerados amadores pelo regime comunista. Tudo não passava, porém, de um mero embuste que se estendeu a todos os países de leste, mas que justifica as várias vitórias olímpicas por eles alcançados no futebol durante esse período. Esta selecção polaca era, no entanto, uma grande equipa, como provaria em breve em confronto com as mais poderosas selecções de todo o mundo. Em 1972, na final olímpica de Munique, quando ganhou á Hungria por 2-1, a equipa polaca alinhou com: Kosta; Gut, Gorgon, Anczok, Cmiklewicz; Maszyk, Karask, Dayna e Szoltisik; Lubanski e Gadocha.
Finalmente, após longos anos, o nome de Ernest Wilimowski, descobria a seu lado outras estrelas para compor a constelação polaca, que, até aos anos 70, tinha ainda nesse lendário avançado dos anos 30, a sua principal referência gloriosa, nascida depois de ter marcado quatro golos ao Brasil no Mundial 38, num jogo onde a Polónia, apesar deste feito único, perderia por 6-5. Wilimowski faria 22 jogos pela selecção polaca, apontando 21 golos. Findo o Mundial seria, no entanto, como todo futebol polaco, anexado pela invasão nazi, passando a integrar, junto com outros seus companheiros, a soturna selecção da Grande Alemanha, jogaando depois no Munique 1860 e no Kaiserlautern. Durante muito tempo, revoltado com o facto de ele não se ter recusado, como outros resistentes, a jogar pelos invasores teutónicos, as autoridades polacas apagaram o seu nome dos seus arquivos desportivos. Só em meados dos anos 70, quando surgiu outra geração fantástica, o nome de Wilimowski voltou a ocupar o seu devido lugar na história. Por essa altura, a Polónia já elegera, no entanto, outro símbolo do seu poderio futebolístico: Grzegorz Lato, o fenómeno do Stal Mielec que conquistaria um lugar de titular, depois do treinador Kazimierz Gorski ter descoberto nele um avançado fabuloso. Muito rápido, surgindo do nada, sempre em movimento. “Como a minha técnica deixava a desejar, tinha de compensar com a velocidade”, explicava. Foi ele que, imparável, eliminaria a Inglaterra do Mundial 74, em pleno Wembley, ao guiar com o seu futebol supersónico, a selecção polaca a um sensacional empate, 1-1, depois de, em Varsóvia, já ter vencido os homens de Sua Majestade por 2-0. Todo o mundo ficou, então de olhos postos naquela assombrosa selecção da Polónia.

Lato, Zmuda, Deyna, Szarmach... A fabulosa selecção de 1974

Na baliza estava um guarda redes fora-de-série, quase sul americano no estilo louco que exibia: Jan Tomaszewski. Pouco tinha a ver com a fria escola de leste. De cabelo comprido, fita na cabeça e camisola amarela gostava de sair da baliza para jogar a bola com os pés. Antes do jogo de Wembley, o treinador britânico Brian Clough tinha-o definido como um palhaço. Findo os noventa minutos, após realizar uma soberba exibição, o altivo mister inglês teve de engolir o que dissera. Entre os postes, Tomaszewski era inultrapassável e com ele toda a defesa, dirigida por Zmuda e Gorgon, se sentia segura. Oriundo da tradicional escola de leste, o treinador polaco Kazimierz Gorski manteve o núcleo principal de jogadores inalterável durante os dois anos que mediaram entre os Jogos Olímpicos de 72 e o Mundial de futebol de 74. Visando criar espirito de grupo, concentrou a equipa em estágios sucessivos, submetendo-os a uma apertada vigilância médica, e a um intenso treino físico, sem olhar ás conveniências dos clubes. O seu objectivo era que a equipa estivesse em condições de realizar um jogo de três em três dias, sem denotar qualquer desgaste atlético. Ao mesmo tempo, decompunha cada elemento das selecções adversárias para nunca ter surpresas. Com estes métodos, congeminou uma forte equipa, polivalente e que corria durante noventa minutos. Revendo os jogos desta selecção polaca no Mundial 74 não é exagero afirmar que também ela, tal como a Holanda, praticou o chamado Futebol Total. Pode mesmo afirmar-se que em termos de resultados, a Polónia foi, junto com a RFA, a selecção mais eficaz, pois, tal como os germânicos, realizou sete jogos, ganhou seis e perdeu um, exactamente contra os alemães, no jogo que decidiria qual das selecções passaria á Final. Como compensação, chegaria ao terceiro lugar após vencer o Brasil, por 1-0, com um golo de Lato, naturalmente. Embora exibindo um conjunto muito forte, o grande destaque desta selecção polaca, seria o seu fabuloso trio de avançados: Szarmach, o homem do bigode farfalhudo, o extremo esquerdo Gadocha e o careca Lato, o melhor marcador do Mundial, com sete golos, sempre a trocarem de posições na procura de espaços vazios, tendo no médio Deyna, o principal mentor das jogadas de ataque onde também surgia muitas vezes inserido. A equipa tipo era: Tomaszewski; Szymanowski, Gorgon, Zmuda, Musial; Kasperczak, Deyna, Maszczyk, Gadocha, Lato e Szarmach. Assistia-se á consagração do jogador-atleta, o competidor cientificamente treinado para explodir no momento certo, num trabalho táctico e técnico dotado de uma dinâmica de elevado nível futebolístico. Ver jogar esta Polónia era ver jogar a perfeita coordenação entre a capacidade técnico-atlética e a velocidade com bola.

1978: Nasce o génio de Boniek

O Mundial seguinte, em 1978, na Argentina, revelaria a face jovem do futebol polaco, em plena fase de renovação. Ainda contando com as grandes estrelas Tomaszewski, Lato, Deyna, Gorgon, Kasperczak e Szarmach, figuras da equipa sensação de 74, o novo seleccionador, o jovem e estudioso Jacek Gmoch, mesclou no conjunto a juventude rebelde de Iwan, Masztaler, Nawalka e, com o génio na ponta das chuteiras, Zbigniew Boniek, 22 anos, nesse tempo já grande revelação do Widzew Lodz. Em comparação com o onze de 1974, esta equipa de 1978 embora sendo menos forte colectivamente, era mais empolgante sob o prisma individual. Desde esse tempo, Boniek revelou-se um jogador fantástico, com grande personalidade em campo. Tinha uma noção divinal do jogo colectivo e depois resolvia num rasgo de génio a situação de jogo mais difícil. O Avvocato Gianni Agnelli, patrão da Juventus, chamava-lhe Bello di notte, porque as suas melhores exibiçõoes eram sempre feitas nos jogos á noite, nas competições europeias. Não tendo a rapidez de pernas de Lato, colocava essa velocidade no pensamento. Lia o jogo todo com um simples levantar da cabeça e em frente ao guarda redes sabia colocar a bola sempre no local mais distante. Ainda hoje, nos meandros do futebol polaco, se discute qual foi o seu maior jogador de todos os tempos. As opiniões dividem-se entre Lato e Boniek. Cada um no seu estilo eram jogadores fabulosos, mas Boniek, que atingiu o auge nos anos 80, quando Lato já se retirara, tinha maior perfil de liderança. Teve também a sorte de actuar num tempo onde já era permitido sair para jogar no estrangeiro e, assim, em 1982, ingressaria, junto com Platini, na Juventus. Lato, por sua vez, aprisionado nos tempos do comunismo mais ortodoxo, teve de esperar até ao final da carreira, para, com 30 anos, a altura em que era, por fim, permitida aos futebolistas a saída do país, como prémio pelos bons serviços prestados á nação, ser lhe concedida autorização para ir jogar para a Bélgica, no Lokeren, onde reencontrou Lubanski, seguindo-se, depois, o Atalante do México. Durante o seu auge, Lato sonhara com o Real Madrid e o Barcelona, interessados em o contratar, mas tal era impossível de se tornar realidade face ao duro sistema vigente. Reunindo ambas as gerações na mesma equipa, Gmoch montou, em 4-4-2, o onze do Mundial 78, onde o médio Deyna surgia como o cérebro do conjunto. Tal como Kazimierz Gorski, também Gmoch passava longas horas analisando os adversários, pelo que ganhou a alcunha de seleccionador James Bond, insistindo que, mais do que treinar a própria equipa, era sobretudo importante espiar o sistema de jogo dos adversários. Apesar das criticas, Gmoch estava já a antecipar o que seria em pouco tempo o futebol, onde o ponto de partida da abordagem táctica do jogo está em anular os pontos mais fortes do adversário. Nesse sistema, levou a equipa até á segunda fase, onde caindo no forte grupo do Brasil e da Argentina, acabaria sendo eliminada sem repetir o terceiro lugar de 1974.

1982-2002: Os novos tempos da ideologia futebolística

A tentação de prolongar o sonho para além do real, levou a que, quatro anos mais tarde, no Mundial de 82, quando toda a nação polaca já vivia um conturbado processo político e social, o seleccionador Piechniczek ainda aposta-se em dois ilustres veteranos das campanhas de 74 e 78: Lato e Szarmach, ambos com 32 anos. Os dois eram, porém, meros fantasmas do passado. Lato já não conservava a rapidez e a espontaneidade que fizera dele o careca mais veloz do futebol mundial e Szarmach, embora continua-se a ostentar o mesmo bigode imponente, surgia muito lento e individualista. Mesmo assim, a equipa, onde Boniek era o grande líder, adaptou-se aos novos tempos e com Mlynarczyk na baliza, atrás de uma defesa segura pelo veterano capitão Zmuda e por um meio campo muito lutador e bem posicionado tacticamente, composto por Buncol, Matysik e Kupcewicz, nas costas do veloz Smolarek, repetiu a proeza de 1974 e pela segunda vez na história, conquistou o terceiro lugar do Mundial. Extinto o Pacto de Varsóvia, sem os mesmos recursos estruturais e financeiros, o país e o seu futebol teve de refundar as suas bases. Hoje começa, aos poucos, a levantar a cabeça, tal como o seu futebol, que no abrir do novo século surge, no entanto, com um visual completamente diferente. No lugar onde antes estavam jogadores louros e fortes, surge agora um negro esguio, espelho da confusões geográficas em que o mundo caiu os últimos anos: Emanuelle Olisadebe, um nigeriano naturalizado polaco. Originário de Warri, no sul da Nigéria, foi descoberto muito novo por um caçador de talentos polaco ao serviço do Jasper United. Depois de vários convites, acabaria por ingressar no Olonia Warsóvia, um modesto clube da capital, onde se revelou um talento mágico, fiel á suas raízes africanas. Surgiu então a intenção de o naturalizar. A ideia causou polémica, mas seria uma grande estrela do passado a impulsionar a sua inclusão na selecção polaca: Boniek, entretanto tornado vice presidente a Federação Polaca de Futebol.
Deyna e Kasperczack, dois mitos do futebol polaco dos anos 70

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