Começa a época. Por fim, cem milhões de euros depois, o mercado fechou. O número redondo que os três grandes do nosso futebol (FC Porto, Benfica e Sporting) gastaram para reforçar as suas equipas, escapa à realidade global do futebol português. Não se trata só de uma questão de vícios caros. Trata-se, em muitos casos, da simples necessidade de responder aos adeptos antes de responder às necessidades da equipa. O último dia do mercado ficara suspenso sobretudo de uma contratação, um negócio, um nome: quem o FC Porto contrataria para substituir Falcao, o caça-golos perdido? Passaram as horas, os minutos, os segundos e, no fim, ninguém apareceu. A Supertaça europeia tinha sido nem cinco dias antes e a equipa acabara então com Guarín sendo o jogador mais perto da posição 9, mas nem perante essa visão perturbante as mais loucas tentações cederam. Há um ponta-de-lança no Dragão para apostar: Kleber, o nº9 viajante. É certo que até agora, nos jogos disputados, ele correu mais atrás dos defesas adversários e da bola que lhe parece fugir, do que em desmarcações para passes bem metidos, mas há quem acredite que tudo pode mudar com um simples toque de varinha mágica, isto é, um golo, e tudo mudar no seu corpo e cabeça. Mas, uma coisa era a sua destreza solta enquanto era o suplente do Falcao que chegaria mais tarde. Outra coisa é o peso nos ombros que vai ser ele o titular e responsável por tal herança goleadora. Bastará o clic de uma bola nas redes para as coisas se (r)equilibrarem? A estrutura acredita nisso. O resto da equipa, vamos ver.
Na casa verde, depois de 15 contratações que parecem quase todas peças de puzzles diferentes (craques deprimidos em recuperação, miúdos Sub-20, apostas de risco, talentos a testar, etc) surge um 16º elemento a detonar o mercado. Quase 9 milhões por um jogador que, em valor, devora todos os outros anteriores. Elias tem no seu cérebro desenhado um relvado com quatro linhas e, quase por instinto ou visão extra-sensorial, vai preconcebendo nele todos os movimentos que deve fazer. A isso chama-se inteligência natural de craque. Ao mesmo tempo, muitos assobios depois e sete pontos perdidos em três jogos, partem Yannick Djaló e Postiga. Custa ver como a maioria do mundo leonino entende que com a saída deles, partem…dois problemas. Eles significavam o Sporting mais profundo. Para o bem e para o mal. Talvez seja exactamente por isso, dirão, esse alívio. Só que as coisas no futebol não funcionam assim tão linearmente. Nem comprando um saco de jogadores, nem dispensando as lapas que estavam agarradas à relva na hora das derrotas. Tudo passa por fazer previamente uma coisa muito simples: antes do onze base, fazer o cinco base, entendido este com peso no relvado e no balneário (e com estes, sim, gastar dinheiro). Um cinco base de homens, jogadores feitos, que treinem e falem mais com o grupo do que joguem playstation nos bancos de trás do autocarro. Enquanto não perceber isto, o Sporting continua a passar pelo mercado e pelas suas acções/reacções emocionais sem encontrar uma verdadeira base de construção. Não basta conhecer o mercado para se fazer uma equipa, é preciso conhecer o…jogo (e o futebol na sua verdadeira dimensão). Porque Jardel e João Pinto juntos só aparecem uma vez na vida.
E agora a bola pode começar a rolar (e os treinadores a treinar) com outra serenidade. Os cem milhões de euros ficam nos livros de contabilidade. Agora, é só espetar na berma das quatro linhas uma daquelas placas com um letreiro: Por favor, não pise a relva!. Ficam só os jogadores. Feliz futebol para todos!
“Rebolando” para a baliza
Não chegou nem como grande craque, nem como jogador para formar ou adaptar-se. Escapou a todos estes estereótipos, e, indiferente a quem desconfiava da sua aparência morfológica excessivamente arredondada, entrou sempre nos jogos quando estes estão numa situação critica para todos, menos para ele. Entra com a cabeça limpa, sem perceber o conceito de pressão, pouco sensível a angústias anteriores. Bruno César entra para abrir caminhos para a baliza. É um avançado esteticamente engraçado que aparece onde é preciso. Muito necessitava o Benfica para a sua sobrevivência nos momentos mais tensos do jogo de um jogador com este desenho técnico, físico e táctico. Acho mesmo que todas as equipas deviam ter um jogador assim. Uma espécie de revulsivo anímico que tenha o condão de descomprimir o ambiente e, ao mesmo tempo, mexer com o jogo no toque ofensivo.
No fundo, quero dizer que as equipas não devem, para bem da sua saúde futebolística, serem demasiado sérias. A procura pelo golo e pelo controlo (ou recuperação) do jogo, passa, antes da táctica pura, pelo estado de espírito mais solto que alguns jogadores lhe conseguem transmitir. Ver Bruno César a rebolar, isto é, a correr, furando o nevoeiro da Choupana, desde quase o meio-campo até à baliza do Nacional (como antes, no jogo anterior, contra o Feirense, o vimos a fintar e meter a bola em arco no ângulo), é como, num ápice, ver um coelho saído de uma cartola em forma de jogador. Sem ares nocivos, só futebol, barriguita, drible, corrida e… golo!