O voo rasante de Falcao ao minuto 91 por entre o exército defensivo russo foi a última imagem, o melhor espelho, para uma noite europeia em que o perfume sul-americano assumiu-se, mais uma vez, como o grande profeta das actuais aventuras europeias portuguesas. É um destino histórico. Os arranques canarinhos de Hulk, a velocidade charrua de Pereira, cruzamento tenso, e a ave de rapina colombiana do golo a facturar. 5-1! Os dribles com nota artística de Aimar, a bola rolando em direcção à baliza por obra de Salvio, lançado pelo conejo Saviola, apoiado pelos raids de Maxi Pereira e zig-zags de Gaitán, o futebol com tango na relva da Luz. 4-1!
Antes disso, porém, a estratégia, a arte táctica, na cabeça de dois genuínos treinadores portugueses, Villas-boas e Jesus, distintos nas filosofias de jogo, mas ambos dois matemáticos da táctica na forma inteligente como montam as equipas e devoram-na com os seus olhares durante 90 minutos de pé junto à berma das quatro linhas. Durante esse tempo, sempre que cada jogador de FC Porto ou Benfica olha para o banco é automaticamente fuzilado pelo olhar, ora de correcção, ora de incentivo, mas sempre de dentes cerrados, do seu treinador.
O nosso campeonato continua, pois, na relva europeia. Não irá mudar, claro, o dono do título nacional 2010/11, já entregue a um Dragão que ameaça a eternidade do campeão sem derrotas (faltam apenas cinco jogos), mas prolonga uma discussão futebolística entre dois estilos de jogo que, eventualmente, tem mais pontos de contacto do que parecem. É verdade que o FC Porto é mais a tal equipa de posse (pausa) e o Benfica uma equipa mais da vertigem das transições (velocidade) mas, no final dos seus jogos, olhando o lado frio dos números, vê-se que ambas têm sempre maior percentagem de posse de bola. A do Benfica será, porém, mais alternada. A do FC Porto será, a espaços, mais continuada. Ou seja, a diferença está muitas vezes na vontade (atitude) para recuperar a bola imediatamente após a sua perda (como faz o Benfica) ou deixar o adversário ir saindo da sua toca defensiva para só depois, com calma, resgatar outra vez a bola e (como faz o FC Porto) começar a tocar, tocar, para desmontar a defesa adversária. Quando, porém, a bola entra nas chuteiras da raça sul-americana (desenhada pelo samba, tango ou ecos de waka-waka, os acordes de Shakira com bola, Brasil, Argentina, Uruguai, Colômbia) ambas parecem quase iguais a voar para a baliza.
Como intruso neste histórico duo, a nova força europeia do Minho. No frio de Kiev, o Braga de Domingos encontrou o habitat táctico-climatérico para colocar em prática a sua estratégia táctica preferida: meter o jogo no congelador, ou seja, durante a maior parte do tempo, colocá-lo num ritmo lento, baixando-lhe a pulsação, trocar e esconder a bola, até esperar um lance de contra-ataque. Em Kiev, depois de um início assustador, um golo e grandes defesas de um guarda-redes discretamente voador, Artur, emergiram os gritos de Vandinho, a calma de Paulo César e as tranças no ar de Salino e Alan. Tudo expressões de samba minhoto. O Braga é uma equipa de traço brasileiro com inspiração latino-italiana. 1-1!
O futebol português já conquistou a Liga Europa. Mesmo que lhe fuja o triunfo final, já se provou que a dimensão deste torneio é aquela que melhor encaixa na da actual estrutura desportiva-financeira do status futebolístico das nossas equipas. Podemos, num dia perfeito, sonhar mais alto, mas com os pés bem assentes na relva, o nosso pequeno mundo é este.