Não tem sido um campeonato para grandes pensadores. Dominam os que pensam mais depressa. Estou a falar daquele tipo de jogadores que parecem marcar um ritmo diferente em termos de leitura e com a qualidade de após um toque seu na bola, nos fazer soltar logo, naturalmente, a expressão “bem jogado”. Não penso em fintas, penso em passes que abrem clareiras no jogo e colocam outros jogadores em situações privilegiadas (com espaço vazio na sua frente) para ameaçar a baliza adversária.
Dá gosto durante o jogo quando, de repente, nos encontramos com um jogador inteligente. Vejo Hugo Viana, a forma como pega na bola e faz um passe (sobretudo mais longo) e fico com a sensação que o futebol podia viver feliz só com isso. Mas não. Nas transmissões televisivas, a câmara vai sempre atrás de onde está a bola. Por isso, há jogadores que surpreendem pela sua movimentação quando os vemos ao vivo. Hugo Viana é um jogador estruturalmente lento de pernas, a correr. Penso muitas vezes o que poderia ter sido se fosse um pouco mais rápido. Talvez por isso, não encaixou no futebol inglês. A sua pressa em campo é, no entanto, outra. Pressa (rapidez) de pensar o jogo. Vou tentar explicar melhor: move-se sempre para espaços livres para pedir a bola (dando soluções a quem, pressionado, a tem) e toda a equipa o busca porque, pura e simplesmente, confia nele.
O campeonato tem, porém, outras formas de pisar o relvado. Hulk, Capel, Nolito, Carrillo, Atsu, jogadores com urgência em resolver as coisas sempre que a bola lhes aparece por perto. Não querem perder muito tempo com grandes pensamentos no jogo. O instinto da técnica em cada jogada que entram e, quase sempre, procuram desenhar sozinhos. Às vezes parecem, no jogo da equipa, um efeito sem…causa. Esta ultima frase é mesmo melhor reler. Com ela pretendo falar que muitas vezes correm ao encontro da bola antes de combinar com a equipa. O mais intrigante, porém, é que pode ganhar-se jogos assim. Tudo começou quando o meio-campo deixou de ser um lugar de passagem, para se converter num «acampamento táctico» permanente da maioria dos jogadores das duas equipas.
Quase unindo estes dois mundos (pensamento-velocidade) surge Aimar, que parece jogar de patins, deslizando pelo campo. Cada finta sua é uma construção de jogo. Velocidade no ritmo e tempo certo. Apesar de falar muito de tácticas e estratégias, sempre acreditei que um bom jogador está por cima de qualquer ideia, porque, muitas vezes, quase que jogando em contramão com a equipa, consegue, com isso, inverter o mais lógico destino do jogo (entenda-se o resultado).
Mas nem todos os jogadores podem ambicionar estar acima das ideias. Só mesmo aqueles que falei ao longo do texto. Pertencem a mundos diferentes, no pensamento e na velocidade, mas todos têm um dom especial dentro do relvado: se eles não vão ter com a bola, a bola vai ter com eles.
