Puzzle: 30 peças, 11 lugares e uma bola

23 de Julho de 2011 08:01
Qual a palavra que melhor define a missão do treinador na busca da melhor equipa e sistema?

 

Amaioria dos jogadores fala pouco sobre futebol entre eles. No campo, durante os jogos, ou, sobretudo, fora dele, nos estágios ou fim do treino. Umas das frases que mais repetem para demonstrar a sua fidelidade à equipa é dizer jogo onde o treinador me mandar. Este simples facto do jogador não ter posição preferida é, por si só, preocupante em relação ao seu pensamento sobre o jogo. É verdade que muitos dizem-no numa intenção altruísta (sincera ou não) mas, mesmo nesse caso, tudo não passa de um lugar comum que espelha a falta de estudo do jogo.
Conta Tostão, antigo grande craque brasileiro, que em 68, durante uma digressão, ele, Gerson e Rivelino (outros craques) resolveram, sem o treinador Aymoré Moreira, falar entre eles e no fim decidiram mudar mesmo a sua maneira jogar da equipa. Falaram com o treinador, ele ouviu, e como as coisas faziam sentido, aprovou. E tudo terminou com o festival do futebol-arte do Mundial-70.
 
Nesta fase de pré-epoca competitiva, tempo de início de construção de um estilo, é muito importante os jogadores expressarem claramente o que sentem dentro do jogar colectivo da equipa. Sobretudo quando existem muitos chegados de novo.
Inventar, criar ou descobrir. Qual destas três palavras melhor define a tarefa de um treinador nessa busca pela melhor equipa e seu sistema de jogo. Numa leitura que respeita as características dos jogadores: a terceira: Descoberta. Descodificar jogadores e seus melhores lugares em campo. Combinar jogadores é o puzzle que corrói a cabeça de um treinador durante a época. Nesse contexto, a construção de Domingos é mais difícil do que a de Jesus ou Vítor Pereira porque têm de criar referências para equipa, enquanto os outros apenas têm de descobrir o melhor local para as encaixar e elas se exprimirem no jogo. O novo edifício do futebol do Sporting ambiciona poder adquirir várias formas. Do 4x4x2 ao 4x3x3. Mais do que estruturas diferentes, aproveitamentos diferentes dos mesmos jogadores ou criação de duas variantes distintas do sector atacante (com um ou dois pontas-de-lança), o espaço por onde vagueiam Postiga, Wolfswinkel, Bojinov ou Rubio. 
 
O novo Benfica tem contratado bons jogadores, a forma propulsora da fórmula-Jesus de jogo redescobriu duas asas que a fazem levantar voo. Perez e Nolito, são os extremos do seu 4x1x3x2, no qual a opção entre Javi Garcia ou Matic não é a mera opção de um jogador por outro. Ou escolhe um trinco que pensa em termos de equilíbrio defensivo ou um perna-longa sérvio, Martic, que pensa também em começar a criar desequilíbrios ofensivos na saída de bola desde trás. No meio desta equação, assumindo Aimar, em condições normais, a casa do arquitecto 10, a maior interrogação sobre o melhor lugar na equipa é o belga Witsel, um craque-anfíbio, no sentido de poder respirar em habitats totalmente distintos. Tanto o vemos a criar no ataque, como a recuperar fazendo um carrinho perto da defesa. Na selecção belga chega a jogar como segundo avançado em 4x4x2. O mais certo, vendo a devoção de Jesus pela polivalência, será acabar a rodar entre a ala, o centro e as costas do ponta-de-lança. Ele é a peça do puzzle com mais diferentes encaixes mas, por isso, também mais difícil de moldar como referência.  
 
Em poucos dias, o onze encarnado começa a lutar na Champions. Com a chegada de Garay, a defesa ganha um rosto mais sério e fiável. Jesus deverá gerir o guião táctico actual mais com a intuição do que com a ciência. Pedindo, nesta fase, que os jogadores falem muito uns com os outros. De futebol e da equipa, claro.
 
 
 
 
Novas conexões azuis
 
Na fábrica azul-e-branca a táctica move-se. Vítor Pereira, o novo regente dragoniano, pensa num desenho táctico alternativo ao 4x3x3 que caminhou a época passada altivo pelos relvados nacionais e europeus. É o laboratório do 4x4x2. Será intenção de evitar que o jogo da equipa se torne previsível aos adversários. A criação de novos estímulos e hábitos tácticos não é, no entanto, um processo simples. Porque consiste em alterar referências. A importância dos jogadores falarem uns com os outros é ainda maior nestes casos. Combinar jogadas e movimentos. Na prática, porém, não é nada que o onze já não fizesse no passado (com Villas-Boas ou até Jesualdo) só que antes fazia-o no decorrer do próprio jogo através da simples alteração de posicionamento de um jogador (em geral um avançado que recuava, soltando dois avançados na frente). Agora quer fazê-lo desde o início, como segunda versão de jogo assumida.
É muito diferente porque altera a forma dos jogadores começarem a pensar o jogo. E mudar-lhes o início do pensamento coloca-os, à partida, em…território estranho. No caso portista, com os médios tão rotativos, tal pode ser mais problemático para os avançados. Por exemplo, aproximar mais Hulk de Falcao paradoxalmente não aumenta a ligação entre os dois porque a eficácia no futebol não tem essa lógica de proximidade. Muito menos com dois jogadores que falam de forma tão diferente nos espaços: Hulk, explosão e velocidade; Falcao, desmarcação curta e remate. Não existe hipótese de um bom diálogo com eles muito próximos. A linguagem comum entre eles tem espaços próprios. A faixa e o centro da área que, cada um, sente como o local ideal para falar no jogo.  

 

 

Artigos Relacionados

  • NOTAS 2011/12 (34) NOTAS 2011/12 (34) 24 de Março de 2012 1. Viana e a selecção; 2. Recuar para...atacar; 3. Buscando espaços
  • As "ratoeiras" da velocidade As `ratoeiras` da velocidade 15 de Março de 2012 Uma equipa lenta como jogadores rápidos. Uma equipa rápida com jogadores lentos. Pode ser?
  • NOTAS 2011/12 (31) NOTAS 2011/12 (31) 1 de Março de 2012 1. Nelson Oliveira: será `9` de 4x3x3?; 2. Braga muda meio-campo; 3. Feirense: a defesa sem...médios;
  • África: bola, relva e táctica África: bola, relva e táctica 19 de Fevereiro de 2012 A Zambia e o CAN 201, equipas e reflexões: Qual o momento do actual futebol africano?
  • A “equipa de posse”  A “equipa de posse” 18 de Fevereiro de 2012 O modelo de jogo de “posse de bola” não é um exclusivo de equipas “grandes”. E existem exemplos que...