Qatar: Sentimentos de um futebol

1 de Dezembro de 2011 13:28
O sucesso é muito mais complexo do que o resultado de um jogo (Helena Costa no Qatar)

SATELITE DE FUTEBOL - HELENA COSTA

No Planeta do Futebol, a visão do satélite de futebol Helena Costa. Desde o Qatar, a sua forma de “pensar” futebol, FUTEBOL! Atmosferas e ideias, a partir de várias dimensões. 
 
 

 

SENTIMENTOS DE UM FUTEBOL

Bahrein, 18 de Outubro de 2010, primeira internacionalização da história, estádio cheio, nervos à flor da pele. O que parecem ser as condições ideais para um dia histórico, tornou-se numa história sem fim.
 
Enquanto davam os primeiros passos tácticos no Futebol, e com apenas dois meses de treino (sem qualquer jogo amigável disputado), as jogadoras foram de uma coragem enorme, aceitaram ser os rostos de um país, sabendo que a crítica existiria mesmo antes da árbitro iniciar o jogo.
 
Ouvir o hino nacional com a camisola do país vestida é um momento único. Confesso que me arrepiei sempre que isso aconteceu, senti-o como se do meu país se tratasse. Naquele momento estava orgulhosa da coragem social e da revolução cultural implícitas, do que tínhamos batalhado para que se aceitasse este desafio. Representou muito mais do que noventa minutos de Futebol, escrevíamos e escrevemos história.
 
 
Começando do zero um projecto como foi o iniciar o Futebol Feminino num país islâmico, não são de esperar resultados desportivos imediatos. O sucesso é muito mais complexo do que o resultado de um jogo. Os objectivos a curto prazo são impossíveis, mais ainda quando a população Qatari é reduzida, o que por si condiciona o recrutamento. No entanto, perder faz parte do processo natural de um crescimento como este, um meio para atingir um fim. Dois meses e total inexperiência competem com largos anos de maturação e imensos jogos disputados por cérebros e corpos adversários, uma luta desigual, David vs Golias.
 
A poucas horas de se iniciar o jogo, tivemos conhecimento de que haveria transmissão televisiva em directo. Nada pior para a mulher Qatari: uma exposição individualizada, rostos bem focados no grande ecrã, o nome da família publicitado numa causa pioneira, uma novidade para a sociedade em geral (Futebol Feminino) e pior ainda, publicitado por fotografias e filmagens, o que é pouco aprovado quando o alvo é uma mulher, independentemente do motivo pelo qual é fotografada.
 
O estado emocional destabilizou-se: pupilas dilatadas, olhares assustados, o receio da reacção familiar instalou-se. A notícia fez com que o jogo quase passasse para segundo plano. Para ajudar, o ambiente foi digno de um jogo internacional: estádio cheio, batidas e cânticos árabes, vozes em uníssono, imensas mulheres, homens e crianças presentes.
 
Para a fotografia do onze inicial, trocaram-se momentaneamente cinco jogadoras titulares por outras suplentes. Algo impensável na Europa. Até então nunca pensei sequer que a FIFA o permitisse! Depois do Flash disparado, sentaram-se novamente no banco... Tudo para evitar que o rosto de cinco mulheres aparecesse associado ao Futebol, para que a paixão de jogar perdurasse por mais tempo, como ainda hoje felizmente está.
 
 
O que a audácia e a derrota transmitida pela televisão trouxeram foi uma crítica maior do que a esperada, um impacto contundente. Uma das jogadoras com maior qualidade teve de regressar ao país nessa mesma noite! Uma ordem expressa do pai com promessas de problemas familiares. A entidade patronal fez também questão de a contactar dizendo que não aceitaria que se expusesse mais. Nunca mais treinou ou jogou Futebol!
 
É inexplicável o ambiente vivido pela equipa nessa noite. Mensagens e telefonemas sucessivos deram conta do impacto social e cultural que se alastrou e foi vivido no Qatar. O impacto foi enorme, tal como seria de esperar: em qualquer país ou cultura uma novidade é sempre mais comentada, não segrega opiniões.
 
Sendo um canal pouco ou nada visionado no Qatar, o impacto foi tal que fez parecer que todos os televisores do país estavam na hora exacta a sintonizar o programa errado. No dia seguinte, o jogo foi repetido. Tratou-se de um torneio FIFA, faltavam pelo menos dois jogos. Foram sucessivos os telefonemas e mensagens. Poucas foram as jogadoras que não viveram dias de dúvida e alguma angústia. 
 
Todas as questões se levantaram: regressar imediatamente ao país? Evitar transmissão de informação? Foi tal o impacto que dois membros da família real do Bahrain reuniram com toda a nossa equipa, tendo ordenado a não filmagem e/ou transmissão de jogos do Qatar. O Hino Nacional passou a ser cantado com rostos apontados para o chão, cabisbaixos, como forma de se evitarem fotografias.
 
 
Desde então, qualquer actividade que envolva o Futebol Feminino, mesmo um jogo oficial Selecção Nacional AA, é organizado num estádio fechado, no qual apenas mulheres têm acesso. Ainda assim, à entrada do mesmo, cada espectadora tem de passar por um scanner. Telemóveis com câmara ou máquina fotográfica são proibidos, ficando retidos no exterior e guardados pela polícia. Há um controlo total sobre a informação que se disponibiliza: em vez do nome da família, nas camisolas não vigora nome algum e não se coloca a possibilidade de transmissão televisiva.
 
É intrigante a ambivalência que se vive em torno do Futebol Feminino: se em Portugal presentemente se luta para que se transmitam em directo os jogos da Selecção Nacional Feminina, como estratégia e promoção benéfica ao desenvolvimento da modalidade, no outro lado do mundo, vivencio precisamente o oposto - para desenvolver o futebol feminino tenho de o isolar por completo da promoção através dos meios de comunicação social.
 
Apenas um motivo o explica: Futebol é paixão, independentemente do continente, da religião, do género, da côr...é Futebol. O poder dos media associado à paixão que o jogo transporta pelo mundo provoca sentimentos e reacções o mais ambíguas possível. Têm uma influência enorme e um importante papel a cumprir na sociedade.
 
Cada experiência e cada momento por mim aqui vividos, obrigam-me a reafirmar que Futebol e Cultura não se interligam: Futebol é Cultura! Que experiência de vida esta! Que força de vontade, paixão e acima de tudo alegria por jogar Futebol têm elas! Que país fascinante.
 
Muito já aconteceu, muitas barreiras foram já ultrapassadas, muita história escrita. Dias houve em que fez parte de um presente, agora é parte da história.

Helena Costa, Qatar 2011

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