QUAIS SÃO OS TREINADORES DE REFERÊNCIA NO ACTUAL FUTEBOL ESPANHOL?

16 de Janeiro de 2004
No banco da selecção, depois de Clemente e Camacho, dois homens de grande personalidade, senta-se hoje um homem que é a antítese do treinador carismático e comunicativo do presente: Iñaki Saez. Nos clubes, demitido Del Bosque, cruzam-se vários estilos. Do velho Aragonés ao jovem Lucas Alcaraz, passando pelos poetas Fernandez e Lillo, pelo pragmático Irureta e pelo teórico Floro, até ao astuto técnico do actual líder da Liga espanhola: Rafa Benitez, mentor do onze-máquina de Valência.
De entre todos é, no entanto, difícil identificar um treinador que (como Capello e Lippi em Itália, Mourinho em Portugal ou Wenger em França) se destaque hoje como a grande referência entre os treinadores espanhóis. Façamos a reflexão, partindo do banco da selecção. Indiscutivelmente rotulado como um filho da fúria, o estilo que marcou o fútbol espanhol nos anos 70/80, Camacho tinha tudo para que a afición o identifica-se como um legítimo representante da temperamental genética hispânica, mas acabou traído pela ansiedade que, desde há décadas, caracteriza, nos momentos decisivos, a insustentável leveza competitiva da selecção espanhola. Fora o que sucedera, também, salvo as devidas proporções, com Clemente, oriundo da escola basca, que, nos anos 80, então jovem técnico que deixara prematuramente de jogar por lesão, foi eleito, após conquistar duas Ligas com o Ath.Bilbao, como a face da renovação, carácter e saber táctico unidos. Com o tempo, porém, apesar dos excelentes resultados, foi-se tornado cada vez mais conflituoso, avesso ás criticas, ao ponto de ciar uma clivagem insuperável com a maioria dos adeptos e da imprensa espanhola, vagueando hoje por equipas que lutam para não descer de divisão, tendo já sido, está época, demitido do Espanhol. Face á queda destas referências, que treinadores personficam hoje a ideologia futebolística espanhola? Como principal símbolo da velha escola, emerge Luís Aragonés. Chegou a falar-se nele para a selecção, mas falta-lhe, digamos, felling para esse cargo. É mais o típico treinador de clube, que precisa todos os dias do cheiro do balneário e do contacto com os jogadores. Na chamada nova vaga, destinguiem-se duas correntes: os profetas do belo jogo e os que ainda se sentem filhos da escola mais tradicional. É um dicotomia criada, sobretudo, a partir dos anos 90, após a chegada de Cruyff e respectiva escola holandesa, inspiradora de uma nova casta técnica, onde também estavam Valdano, Victor Fernandez e Lillo, entre outros, a que se somaria, simultaneamente, a componente realista da cultura italiana, com Capello, Sacchi e Rainieri, num período muito rico em termos de debate táctico, formador dos diferentes estilos, de Irureta a Benitez, detectáveis hoje nos bancos espanhóis.

Fernandez, Lillo, Floro, Alcaraz e o campeão Benitez

Assim, em traços largos, o actual mundo dos treinadores espanhóis divide-se, basicamente, entre as seguintes tendências: os pragmáticos, como Irureta, no Corunha, um técnico que privilegia a segurança defensiva e o contra-ataque, ou Lotina, no Celta, devoto do chamado futebol realista, e os filósofos do belo jogo, uma corrente que, após todos terem virado as costas a Lillo, um jovem técnico que depois de cativar todos com o seu discurso romântico, acabou, vítima dos resultados, rotulado de lírico, está hoje reduzida, ao mais alto nível, a Victor Fernandez, no Bétis, quixotesco profeta do futebol com extremos, mas que sofre, jornada após jornada, com a reduzida competitividade do seu projecto exibicional. Durante todo este debate táctico, no inicio dos anos 90, tentou criar-se um novo guru, mestre em inventar jogadas ensaiadas ou em desenhar complexos esquemas tácticos: Benito Floro. Passou, com essa fama, pelo Real Madrid, de 92 a 94, mas, apesar das cativantes palestras, também acabou atropelado pelos resultados. Após a travessia do deserto, renasce agora no Villareal, intelectualizando menos o jogo, apostando mais em processos lineares. Entre as novas promessas do presente, emerge Lucas Alcaraz, 37 anos, mentor de uma das equipas que melhor futebol exibe hoje em Espanha, o Santander. Como que mesclando todas estas tendências, cite-se dois nomes: Caparros, no Sevilha, e, como principal destaque, Rafa Benitez. As primeiras páginas dos jornais e as paredes dos quartos dos miúdos podem estar decoradas com as imagens dos galácticos do Real Madrid, mas quem, ao fim da primeira volta, lidera a Liga Espanhola é uma equipa meramente terrena: o seu Valência, um onze realista que domina, sem grandes estrelas, todos as coordenadas do dito futebol moderno, ordenado tacticamente E equilibrado tecnicamente nas manobras defesa-ataque. Sem ser um revolucionário táctico, adepto do 4x2x3x1 com doble-pivot e extremos, poderá, em breve, consumar-se como a actual grande referência entre os treinadores espanhóis.

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