A entrada em campo no primeiro jogo de um Campeonato do Mundo é um momento épico da vida de qualquer jogadora. Um misto de ansiedade e alegria que fluem e se misturam com as indicações tácticas e estratégicas.
A importância do primeiro resultado, para que a equipa possa superar a fase de grupos, é extrema, de tal forma que se podem esperar estratégias ambivalentes: o primeiro jogo é sempre mais paciente, as equipas arriscam menos, pelo que é vulgar (em caso de empate) dizer-se e pensar-se “não perdemos”, ao invés de “não ganhámos”!
Na Cultura do Futebol Feminino, essa postura não é comum: a procura da vitória tem sido e é constante, desde o primeiro ao último minuto, do primeiro ao terceiro jogo. O Futebol enquanto espectáculo sai sempre vencedor e os milhares de espectadores agradecem!
No Futebol nem sempre a competência se traduz em vitória, é certo, mas todas as equipas ambicionam ser competentes dentro dos parâmetros para que se preparam: no ritmo de jogo, na pressão que impõem às adversárias, no método defensivo, na organização ofensiva, entre outros. O Japão é um bom exemplo! No primeiro jogo (contra a Nova Zelândia), estando ou não em posse, impôs um ritmo frenético em todas as suas acções. A agressividade (positiva) foi tanta, a velocidade alucinante, a cooperação enorme, um esforço verdadeiramente colectivo unido pela estratégia. Não permitiu até certa altura que as adversárias mantivessem a bola com mais de três passes!
A COMPETÊNCIA de uma equipa mede-se por muitos parâmetros! Não se mede pela capacidade de uma só jogadora pressionar, mas da equipa pressionar de forma organizada, colectiva, agressiva, acima de tudo consistente e duradoira (durante todo o jogo). O Japão fê-lo!
A velocidade com que se deslocam as jogadoras é muito importante, não só nos desequilíbrios individuais e nas recuperações defensivas, nos contra-ataques e demais acções de jogo, mas a importância maior incide na velocidade de circulação da bola e a exigência defensiva que com esta se impõe ao adversário.
Tudo isso se fez com um ritmo estonteante: a progressão para a baliza (colectiva ou individual), o recurso ao passe atrasado para reorganizar ou para retirar a bola de zonas de pressão, a variação do centro de jogo, as muito recorrentes combinações simples e até na marcação de livres e cantos ofensivos, procurando com isto surpreender as adversárias.
Se estivéssemos a assistir a um outro jogo carregando no botão “forward” do leitor de DVD, seria idêntico! O ritmo “asfixiou” a acção e decisão das adversárias, impôs-lhes uma crise de pensamento e muita desorientação táctica!
Como se não bastasse, a competência colectiva foi ainda enaltecida pelas constantes trocas posicionais das atacantes e apimentada pelo talento da avançada Nagasato, de Miyama e Iwabuchi, (jogadoras que o leitor deve acompanhar, valendo a pena observar o 2º golo). A sua criatividade e qualidade técnica permitiu que com um só toque recebessem e fintassem adversárias, foram muito eficazes nas acções de 1x1.
Este estilo é sem dúvida agradável para o comum espectador, mas algumas questões surgiram: Marcando um golo será que mantêm a estratégia? Até quando durará este tipo de jogo (pelo esforço físico e fadiga central que isso impõe)? Será a equipa capaz de jogar de outra forma? Fá-lo-á perante outras adversárias?
Tudo se manteve depois de estar a ganhar por 1-0, tendo tido apenas alguns momentos de menor impetuosidade (pela substituição de uma média da Nova Zelândia). A pressão envolveu o corte colectivo de linhas de passe junto à baliza adversária, convidando as adversárias a jogar longo.
A recuperação da posse foi por isso sempre breve: as defesas de frente para o jogo recuperavam, ou jogavam para o fora de jogo.
Toda a organização ofensiva se fez com poucos contactos e de forma veloz: a construção de jogo incidiu sempre numa variação de jogo exterior com interior (corredores laterais para corredor central), sendo a pivot Sakaguchi, o centro de decisão sobre a segunda fase de construção.
A equipa foi um bloco - conceito relativo aos espaços, mas que estendo à entreajuda, cooperação e comunicação táctica e verbal, assinalável na recuperação intensa e rápida de toda a equipa nas transições defensivas e no encurtamento colectivo que se exige quando se passa do momento atacante para o momento defensivo.
Se dúvidas houvessem, a COMPETÊNCIA nipónica foi provada na segunda parte e sobretudo nos últimos sete minutos: mantendo o ritmo de jogo, fez a bola circular com a mesma velocidade pelos diferentes sectores da equipa, impondo à equipa adversária um esforço (e uma desorganização) maior.
Assistiu-se a um jogo de contrastes: o Japão com uma atitude mais posicional, um acentuado número e velocidade de passes curtos, muitas vezes recorrendo a trocas posicionais e combinações directas; a Nova Zelândia com um jogo mais directo (provocado pelo pressing nipónico), procurando organizar em profundidade (ofensiva) através de passe longo.
Duas estratégias distintas, duas formas de marcar o ritmo de jogo, dois esforços diferentes, dois sentimentos distintos causados pelo mesmo resultado. O RITMO que imprimem no jogo e a velocidade de cada acção, mais do que estratégicos parecem ser a CULTURA do seu Futebol! No entanto, a competência de uma equipa também se deverá medir pela capacidade desta variar o Ritmo de jogo consoante o que este solicita.
Será o Japão capaz de manejar e gerir diferentes ritmos ou estão as jogadoras deveras “formatadas”? Neste caso, o RITMO DE JOGO INTIMIDOU, criou nas adversárias uma crise de pensamento táctico e a intensidade incutida traduziu-se em eficiência ...
Helena Costa, Alemanha 2011
FIFA WOMENS`S WORLD CHAMPIONSHIP 2011 (1)