Quando os extremos dançam

11 de Setembro de 2008
Para que serve ainda, no futebol actual, o perfume dos velhos extremos? O limbo de Ronaldo, Quaresma, Nani ou Simão. Viagem por uma espécie em vias de extinção.

 

Há quem defende que é por jogarem demasiado colados à linha lateral que são como jogadores isolados do resto da equipa. No estilo, na imaginação que metem no jogo, no temperamento insolente da sua maioria. A história a lenda. São os extremos. Espécie futebolística em vias de extinção no futebol mundial, mas que encontra ainda um refúgio no berço do estilo do futebol português. Cristiano Ronaldo, Quaresma, Simão, Nani. Quatro símbolos, cada qual no seu estilo, na senda de Figo, recordando Futre, outros velhos quixotescos caminhantes das faixas.
 
No caleidoscópio da história, Gento e Garrincha. Flamengo e samba. Do espanhol, um jornalista chileno jurou ter-lhe contado quarto braços e seis pernas durante um jogo, tal a velocidade com que ele corria. Mas, apesar da passagem supersónica, nem era a velocidade que tornava Gento impossível de travar, como disse o inglês Foulkes: “O que mais impressionou não foi a sua enorme rapidez, mas a forma como travava. Parava de forma imprevisível, mudava de ritmo e voltava a correr. Incrível!”. É a mudança de velocidade. Arrancar, travar. Sem perder o controlo da bola e do espaço. Hoje, quase é necessário partir de lanterna em punho, pelos relvados de todo o mundo para descobrir um extremo á moda antiga. É estranho sobretudo num tempo em que se sente mais a sua falta num jogo cada vez mais fechado. Basta, para isso, pensar que á medida que uma equipa ataca, o relvado torna-se progressivamente menos longo, mas a largura permanece a mesma.  
 
Sem extremos clássicos, as equipas tentam abrir o ataque de outras formas: Com laterais ofensivos, só possíveis com o fim dos extremos de raiz. Sem ninguém a quem marcar, os laterais descobriram um corredor liberto para atacar. Outros, com os chamados flanqueadores, a maior aproximação ao extremo clássico, casos de Figo e Beckham. Estão nas alas mas que em vez de ir á linha, fazem antes no enfiamento da área bico da área mortíferos centros enroscados. Noutro caso, com as alas desabitadas desses extremos à moda antiga, passaram a surgir no seu espaço os antigos criativos da zona central (segundos avançados ou médios ofensivos) deslocados para o flanco por imperativos tácticos. Quando recebem a bola não são extremos, apostam em diagonais. Flectem no terreno em posse de bola, para, depois, no centro, inventar jogo. Pensem em Messi.
 
Voltando à lupa da história, Garrincha já era uma ironia que tinha de meter sempre o drible no meio. Conta-se então que um vez, Aimoré Moreira, no Botafogo, chegou ao treino decidido a incutir maior disciplina na equipa que, dizia, driblava demais. Para tal colocou no relvado uma cadeira assinalando o lugar onde se devia centrar. Estavam todos a cumprir o pedido quando chegou a vez de Garrincha e quando chegou perto do objecto, driblou a cadeira e tudo, centrou com a perna torta e colocou a bola na cabeça do avançado.
 
Os tempos hoje são outros. Menos românticos, mas após longa vigília, surge na praia lusitana o ultimo habitat da espécie. Falta o canhoto (nostalgia de Futre). Falta, também, saber utilizá-los juntos na selecção. O aroma do futebol que, quase planando sobre o jogo, nos faz sonhar mais livremente. Sem isso, ficam apenas as miragens.

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