Quem conta a história é um homem velho, amargurado pela vida. Chama-se Barbosa, um brasileiro para quem a vida parou em 1950, quando estava, no Maracanã, na baliza do Brasil na final do Mundial, contra o Uruguai. Perto do fim, deixou passar uma bola entre as mãos, foi golo e o Brasil perdeu o título. Nunca mais ninguém esqueceu. Ainda há poucos anos ele contava como “uma vez, há pouco tempo, uma velha mulher com o seu pequeno neto pela mão reconheceu-me numa loja e disse-lhe apontando para mim: Olha, foi ele que fez chorar milhões de brasileiros...”
O guarda-redes é, por natureza, um jogador solitário. Ou melhor, um homem solitário. Um eremita das balizas. Até tacticamente é ignorado. Fala-se em 4x4x2, 4x3x3, etc. Devia falar-se em 1x4x4x2, 1x4x3x3. A história eternizou, de forma romanceada, muitos desses casos existenciais com luvas e baliza. O futebol português também. Nos últimos tempos, dois seres das redes viveram esse drama. Olhares desconfiados, silêncios só cortados pelos murmúrios da bancada. Rui Patrício e Roberto, os “guarda-redes eremitas” de Sporting e Benfica. Cada qual na sua casa, foram julgados sem pestanejar.
Rui Patrício chegou muito novo à baliza do Sporting. Foi uma aposta pessoal do treinador Paulo Bento, então em conflito com um guarda-redes sérvio Stojkivic que pouco antes chegara com rótulo de craque. Patrício entrou logo a defender um penálti, mas os erros cometidos nos jogos seguintes levantaram uma montanha de críticas. Mesmo com os assobios a aumentar, o treinador aguentou-o no lugar. Nesses lances, os seus grandes planos revelavam um olhar assustado, mas essa não é a melhor forma de ler o pensamento de um guarda-redes. Porque encarou esses deslizes sempre de pé, olhar fixo no horizonte do meio-campo, pronto para outra batalha (entenda-se outra bola que ameace a baliza). Sempre que via essa imagem de Patrício recordava então a teoria de um antigo grande guarda-redes argentino, Amadeu Carrizo que definia de forma sublime o grande guarda-redes com personalidade. Não, não era pelas grandes defesas. Dizia ele: para se saber a categoria de um guarda-redes, basta ver a sua reacção após sofrer um golo: Se estão sentados, de culo, não servem. Se estão levantados, de pé, são bons.
Hoje Rui Patrício parece quase um super-guarda redes. O segredo de estar no sítio certo nunca é obra do acaso. É obra de um instinto trabalhado, antecipar trajectórias da bola e, depois, meter agilidade para voar para ela e travar-lhe o caminho. Um forte candidato a nº1 da selecção de… Bento, o único homem que acreditou nele no seu início de vida adulta entre os postes.
Roberto foi quase condenado, apontado como o culpado do mau início de época do Benfica. Os seus erros, falhas incríveis, dos primeiros jogos custaram pontos e levaram o mundo benfiquista a questionar o seu valor e pressionar a sua saída. Inflexível, o treinador Jesus, aguentou o seu guarda-redes de 8 milhões de euros. Os tempos passaram e embora Roberto continue a denotar deficiências ao nível do timing de saída da baliza, com algumas hesitações, já afastou os olhares mais desconfiados. Algumas grandes defesas também ajudaram. O facto da equipa ter passado a ganhar fez o resto. Em qualquer caso, porém, mesmo quando a bola lhe passava mesmo como se fosse uma tartaruga, encarou sempre, tal como Patrício, o julgamento de pé.
Apesar da tentativa de Camilo José Cela, que num belo conto de futebol inventou uma equipa que jogava com dois guarda-redes (guarda-redes direito e o guarda-redes esquerdo) no mundo real ele ainda continua o único dono da baliza.
Barbosa, o herói romântico desta história, faleceu a 7 Abril de 2000, com 79 anos. Em toda a careira fez centenas de grandes defesas. Nesse ultima dia de vida, porém, a jogada que lhe terá passado pela cabeça foi esse golo de 50: Recordo-me do golo como se o tivesse sido ontem. Já o revi centenas, milhares de vezes, e tive de me justificar todas essas mesmas vezes. Todas as noites, sonho com essa bola na minha direcção e eu… deixo-a escapar e ela entra!