QUARESMA OU MOURINHO: ARTE OU CIÊNCIA

23 de Fevereiro de 2007
Poderá a criação humana vencer a frieza da máquina? Os dilemas tácticos de Jesualdo, a impotência de Lucho, o bloco de gelo de Mourinho e a longa viagem de uma bola até bater na barra.
A bola vai no ar, quase planando como um ser superior, voando em direcção à baliza de Cech depois de sair da bota mágica de Quaresma. Uma parábola que é, durante longos segundos, uma sedutora promessa de golo. Os olhares seguem-na ansiosos. Com ela ia o sonho da arte vencer a ciência. Da criação humana vencer a frieza da máquina. Sim, este é ainda um texto sobre futebol. Sobre um confronto que faz muitos momentos do jogo quase parecerem um duelo bíblico entre o bem e o mal. Mourinho regressou ao Porto no seu tradicional estilo blazé. Roupa escura e barba de três dias. A chuva, o céu nublado e o nevoeiro de Londres são a moldura perfeita para o futebol do Chelsea. Uma nuvem escura a planar sobre cada jogo que, ao mais pequeno gesto do seu mentor, faz chover. Talvez o futebol seja um desporto. Para Mourinho, é uma ciência. Acelerou o jogo quando quis. Leia-se Robben. Colocou-lhe um bloco de gelo em cima, depois. Leia-se Obi Mikel. Festeja os golos quase como um ponta-de-lança e quando sair de Stanford Bridge deixará alguém ainda mais poderoso. O seu fantasma. Como no Porto, afinal. Não existem tentações artísticas e quando Drogba recua em cada bola parada, percebemos que, em Londres, os autocarros têm todos dois andares.
Gosto muito de seguir os jogadores em campo quando a bola está longe. É nessas alturas que se percebe melhor o seu compromisso com o jogo, a capacidade de o lerem e tentarem influir nele decisivamente. Sigo Lucho Gonzalez. O argentino lê o jogo sempre alguns segundos antes dos demais jogadores em campo. Quando o cubo de gelo do meio campo londrino começou a dominar o relvado, mais do que jogar, Lucho preocupa-se em ordenar o jogo. Sentiu como as linhas se partiam com a incapacidade de Bruno Moraes recuar para pegar no jogo. Grita com ele. Pede para se aproximar. De cada vez que sobe, defende-se do desgaste físico e mantém controlado o esforço de recuperação. Uma equipa vive muito do cérebro destes jogadores. Joga simples. Dois, três toques e vira o jogo. A bola corre mais do que a equipa mas faltam instâncias de paragem. Falta mais um médio para apoiar a circulação e tornar a quantidade de posse em qualidade de posse. É difícil quando se desenha um losango, colocar, em qualquer um desses vértices, um avançado recuado em vez de um médio puro. Para jogar nesse sistema, 4x4x2, e ambicionar controlar o jogo ao mesmo tempo (e não apenas ganhar mais peso na área) Jesualdo necessita de um mais médio com cultura táctica. Outro jogador que pense como médio. Talvez Ibson. Algo impossível de conseguir com o recuo de um segundo avançado. Este traz consigo outros hábitos. Outra forma de ler o jogo. O resto depende da vontade da bola. Sim, o mesmo instrumento de arte ou ciência que voava em direcção à baliza de Cech. Aproxima-se dela. Parece que vai entrar. Bang! Na barra. Mãos na cabeça, os olhares voltaram a escurecer. Quaresma encolhe os ombros. É duro viver com a realidade. Voltem a fechar os olhos e imaginem que aquela bola entrou. Como o mundo seria mais belo. E o futebol também.

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