É quase uma figura mítica. O líder de balneário. Cada vez mais ele aparece nos divãs futebolísticos mais profundos. Não é um diagnóstico fácil. Porque o jogador de futebol, egocêntrico por natureza, precisa que alguém de fora, treinador ou director, lhe imponha regras, mas tem dificuldade em aceitar que alguém de dentro, saído do seu grupo, se lhe imponha. O conceito de liderança pode adquirir, porém, diferentes contornos.
Pensemos só no futebolístico. O jogador pode até valer mais pelo transmite espiritualmente do que pelo que dá ao jogo tecnicamente.
Por exemplo, David Luiz e Luisão. Os dois ainda podem sair do Benfica. Qual fará mais falta? Depende da perspectiva. David Luiz é hoje um jogador de classe mundial ainda em crescimento. Potencial fantástico. Rápido, forte e com técnica, corta e arranca com a bola.
Luisão tem dificuldade em andar com a bola, não é elegante. Quanto mais atrás defender, melhor parece (porque, na área, tira tudo de cabeça). Impõe-se sobretudo pelo grito, pelo carácter que transmite e intimida (túnel, balneário e campo). Quem comanda mais a equipa (Luisão) pode, assim, não ser, neste caso, quem, no geral, mais falta fará (David Luiz) se sair.
Nesta teia de relações em campo há jogadores que são um pouco como os “pais” dos outros. Os defesas-centrais, voltam a ser o exemplo. Há sempre um que, na dupla, cresce como sob a “asa” do outro. Não é um drama. É natural, até, num plano técnico e humano de complementaridade sem comparação com outros lugares do campo.
Pensamos num e logo imaginamos o outro. É o melhor que pode acontecer a uma equipa quando se analisam os seus defesas-centrais.
Por isso, para o FC Porto perder Bruno Alves, é perder mais do que um central. Sai, também o “pai” do outro central. Gritando com todos, colegas e adversários, fazendo de cada corte uma afirmação de carácter, a seu lado qualquer central acabado de sair do berço se sente maior. Rolando foi o último exemplo. Sem esse seu “capitão natural”, perde-se uma base do ADN do onze azul-e-branco desde há décadas. Um traço que dá condições (primeiro mentais, depois técnicas) para os outros jogadores crescerem e serem melhores até do que verdadeiramente são.
Noutro prisma, o Sporting também vive o sindroma do capitão perdido. A Polga parece faltar algum carisma, que tem Carriço, mas ainda talvez demasiado preso ao “berço”. Paulo Sérgio disse que a braçadeira irá vaguear por diferentes jogadores. É intrigante. Ou seja, a braçadeira até pode andar a passear, a liderança essa é que não. Porque ela não nasce de se ter uma braçadeira. Nasce, emerge, naturalmente da teia de relações do grupo.
Mas, no limite, o verdadeiro capitão até pode nem jogar. Ser suplente. E, depois, entrar outro em campo com a braçadeira. Este cenário tende a suceder mais com os ditos veteranos. Um exemplo? Vitor Baía nas últimas épocas no FC Porto. Faz parte da transmissão dos códigos, regras de comportamento e disciplina que regem cada habitat particular, diferente de clube para clube.
Início de época e volta a surgir a questão de escolher o capitão.
Primeira tentação: o que grita mais, no grupo. Ou o que melhor fala com os árbitros, no jogo. A magia do jogador-símbolo que fica épocas infinitas no clube acabou. O líder deve ser, então, decido pelo olhar. Nem uma palavra. A forma mais forte de dizer “quem manda na equipa sou eu!”. Lembra sempre o que Futre dizia quando lhe perguntavam o que fazia Baresi para liderar o balneário do Milan dez anos seguidos: “O Baresi não diz nada. Apenas olha para ti!”.





