O futebol de “amor à camisola” que reclamam os adeptos mais antigos é hoje, nos migratórios tempos modernos, uma causa perdida. Esse legado de respeito infinito que os jogadores tinham com um clube, já não tem quase sobreviventes no futebol actual. Moutinho entrará em Alvalade com a camisola do FC Porto como símbolo dessa nova ordem (ou desordem, depende da perspectiva). O ponto mais estranho da sua história é essa mudança ter sido pacífica, produto de um acordo entre todos, e não hostil como outras do passado. Ser assobiado quando tocar na bola nem o irá incomodar muito. Até porque Moutinho também é importante (decisivo) quando…não tem a bola. O “motor de futebol” que esconde dentro de si continua igual. Percebo que não seja fácil, sem “lupa táctica”, ver a sua contribuição decisiva no jogo. Eis a visão “raio x”: pela sua rapidez, visão e “generosidade táctica”, impede um dos maiores problemas que qualquer equipa pode ter em campo: a fractura do seu meio-campo. Um jogador, portanto, idílico para qualquer treinador: fiável, solidário e, se é necessário, com técnica e passe.
O meio-campo do FC Porto agarra-se a ele. Chega-se à 11ª jornada e parece que nada se pode fazer contra o poder do onze azul-e-branco. Eu diria que sim, que algo se pode fazer: defender melhor, marcar, estar em cima dos espaços (e seus jogadores), não os deixar pensar (e jogar) e lançar contra-ataques. Não é pouco, dirão. Será este Sporting tacticamente camaleão capaz de o fazer? A dúvida nasce, desde logo, por esse lado “táctico-camaleónico” nascer mais da indefinição do que da versatilidade. 4x2x3x1, 4x3x3, 4x4x2. Sistemas, sistemas. O melhor será o que for capaz de fazer tudo aquilo que escrevia atrás. O mais perturbante será, a certo ponto do jogo, perceber que o jogador (mesmo invisível) fundamental para isso está agora na…outra equipa.
Apesar disso, parecerá estranho mas este pode ser o jogo ideal para o Sporting neste momento. Com uma distância pontual de 13 pontos, a frase “sentir a pressão de ganhar” já não fará muito sentido. O seu campeonato já não passa pelo primeiro lugar. Mas, vencendo o primeiro classificado, Paulo Sérgio como que pode renascer. Porque, nesta fase, só uma vitória destas pode fazer alguém vê-lo como um “treinador carismático”, o único que faz verdadeiramente sentido num clube grande. Para qualquer das equipas, embora em circunstâncias diferentes, este jogo será como escapar da realidade no sentido de resgatar emoções O campeonato, tirando, claro, na “casa do Dragão”, está num acelerado processo de entristecimento. O local onde mais se sente essa “nuvem cinzenta” sobre o relvado é, porém, num Estádio do outro lado da estrada.
Na coluna ao lado, falo de duas razões para o abismo em que o Benfica caiu em Telavive: a ansiedade dos jogadores com bola desde o primeiro minuto (com expressão máxima na hora do remate ou do último passe) e a substituição ao intervalo (tirar o móvel e rápido Saviola para meter o fixo e sem ritmo de jogo Cardozo). Planos diferentes, portanto, para entender uma derrota e uma época deficiente, porque estes dois prismas de análise, o lado emocional adulterado da equipa, ansiedade, e os equívocos tácticos (onde emergem os erros defensivos) já surgiram antes noutros jogos (o trauma do Dragão, claro). Antes, claro, um deficiente pré-época na escolha do plantel e dos reforços que iriam ocupar o lugar essencial dos que saíram. Um erro de casting total na avaliação das características dos jogadores contratados (que, neste jogo, se pode aplicar à troca do médio lutador e rematador Carlos Martins, que também vem recuperar atrás, por Salvio, ainda indefinido entre ser ala ou segundo avançado que não recua). Uma questão particular que espelha um problema estrutural.
As perguntas feitas no título têm, portanto, respostas cada vez mais óbvias. É o pior que pode suceder a um campeonato: viver de certezas. Será que no futebol está mesmo tudo inventado?
Ansiedade com bola
É cada vez maior a quantidade de estatísticas do jogo que surgem. O resultado, no fim, e a bola, durante o jogo, raramente têm uma boa relação com elas. Vinte e um cantos a favor, mais cinco ou seis flagrantes oportunidades de golo, diriam, estatisticamente, algo de diferente do que uma derrota por 0-3. A exibição do Benfica em Israel caiu nessa “armadilha”. Futebolisticamente, foi quase uma demonstração do “princípio de Murphy” táctico durante 90 minutos (quando uma coisa tem hipótese de correr mal então irá mesmo correr pelo pior). Porque se há coisa que as estatísticas não conseguem é entrar na cabeça dos jogadores e pressentir a sua ansiedade.
Os processos de jogo encarnados foram o suficiente para criar muitas oportunidades e chegar muitas vezes perto da baliza do Hapoel, mas o estado emocional alterado, que se sentiu desde o início do jogo, impediu depois cumprir a “formalidade” do remate. Os erros defensivos são, depois, consequência disso. O jogo reflecte-se em passes ou remate. No papel da estatística eles são todos iguais. Na relva do jogo, eles são todos diferentes. A ansiedade não se mede.
Ataque sem bola
Ao intervalo, Jesus fez uma substituição que colocou a sua dupla de avançados com um perfil diferente do que alguma vez jogara. Em vez de um avançado mais fixo e outro mais móvel (a combinação Cardozo ou Kardec com Saviola) colocou dois homens altos e ambos mais fixos, daqueles que jogam entre os defesas adversários (Cardozo e Kardec). Saindo Saviola, saiu a capacidade de desmarcação e fugas às marcações da sua dupla atacante. Uma alteração que pedia mais vocação ofensiva a Aimar, retirando-a da zona de construção e pedia a Salvio capacidade de cruzar mais bolas. A equipa ficou a atacar dentro de princípios de jogo (movimentações) em que não está rotinada. Passou a estar mais perto da baliza, mas mais longe do golo. Meteu mais jogadores na área, mas com isso também o onze israelita entrincheirou-se ainda mais junto ao seu guarda-redes.
O futebol é, sobretudo, um jogo de criar espaços. Nesse sentido, mais importante do que “estar” na área 90 minutos, é “aparecer” na área no momento certo. Sem ansiedade, claro.