O futebol como produto de consumo vende-se muito melhor através das imagens individuais, heróicas e perfeitas, do que através de ideologias colectivas. Durante longos anos, o jogo adquiriu um carácter essencialmente atlético no sentido utilitarista do termo. Só que, microcosmos democrático, o relvado admite todas as formas de expressão, físicas e ideológicas. As glorificadas “imagens individuais” podem, neste conjunto de armadilhas com bola, inverter a escultural lógica de Adónis. O relvado é dos jogadores, os treinadores são os estrategas da eficácia.
Wayne Szalinski não é um nome de um treinador famoso. É o nome de uma personagem de um filme profundamente disparatado em que o protagonista é um cientista lunático que ao trabalhar na invenção de uma máquina maluca consegue, sem querer, diminuir o tamanho dos objectos e encolhe os seus próprios filhos. Confrontado pela mulher não teve outra saída senão reconhecer o que fizera: “querida, encolhi os miúdos!”.
Lembrei-me desta história, pensando no melhor futebol do ano. Como os melhores perfumes, ele veio todo nos frascos mais pequenos. 2010: Com o tubo de ensaio táctico na mão, diferentes treinadores, com ideologias de jogo diferentes, Guardiola, Mourinho, Van Marwick ou Del Bosque, tentavam, combinando táctica com jogadores, encontrar a melhor fórmula para as suas equipas. Após vários ensaios, a fórmula surge em calções e chuteiras dentro do relvado. As melhores expressões não têm mais de 1,69m. Iniesta, Xavi, Messi (o trio na senda da Bola de Ouro) e Sneijder, o “duende laranja” esquecido. Através do seu jogo, com fintas, remates, passes mágicos, jogadas de encantar e, claro, golos decisivos, as suas equipas conquistaram os maiores títulos. O Mundial e a Champions (e, antes, a Liga espanhola e italiana).
Há uma filosofia subjacente a tudo isto: posse de bola e qualidade de passe. São as bases da escola holandesa, inspiradora, através do legado de Cruyff em Barcelona, da sensacional selecção da Espanha orientada por Del Bosque, extensão estilística do Barça de Guardiola. Não teve Messi (1,69m. de magia preso na quixotesca Argentina de Maradona) mas teve Xavi e Iniesta (1,70 m. cada um). Nenhum deles impressiona pelos músculos. Baixinhos, parecendo que todas as camisolas lhe ficam grandes, passeando discretos, sem tatuagens, gel, madeixas e namoradas top-model, eles são a antítese do jogador atlético pop-star que a perfeição publicitária glorifica.
Quando a bola está na relva, todos temos a mesma altura. O jogador tem é de conhecer o jogo. Descodificar todos os seus cambiantes, ritmo e tácticas. Xavi e Iniesta são tanto médios como avançados (e vice-versa). Defende e atacam. Atacam e defendem. Quando recebem a bola, parece que a atam com uma corda à chuteira. O famoso “tiki-taka” do seu jogo (tradução em linguagem de cartoon do conceito de qualidade de passe) cativa pela estética técnica como pela eficácia táctica.
A maior ironia de todo este mundo artístico que gosta de ter a bola e brincar com ela, surgiria, no entanto, no mais granítico e militarizado futebol do presente, a “fórmula-Mourinho”. O seu Inter, para além da sua identidade, programou-se como um “vírus informático” para provocar um “bug” na imaginação de jogo do Barça. Na mais terrível noite da multiplicação táctica dos defesas e dos laterais, consegui-o em pleno Nou Camp. Então, nem precisou da bola para isso. Semanas depois, porém, ela queixou-se desse desprezo. E, saído das profundezas do “laboratório dos baixinhos”, surgiu Sneijder (1,70 m.), o elemento cósmico que deu a melhor dimensão ao jogo do imbatível Inter de Mourinho, campeão europeu 2010, algo que só alguém com esse respeito pela bola conseguiria. É a magia de Sneijder que, depois, levou a Holanda à final do Mundial.
O futuro do futebol não será, no entanto, assim tão romântico. A maioria dos seus cientistas desconfia da “teoria de Szalinski”. A história, como sabem, está cheia de provas em contrário. 2010 “encolheu” os maiores craques.
PS. Na minha escolha particular, a Bola de Ouro seria para Xavi
TREINADOR DO ANO
Mourinho, Guardiola ou Del Bosque. Os resultados, o jogo ou o cenário. Se for pela maior vitória, Del Bosque, campeão do mundo com a Espanha. Se for pelo maior numero de vitórias, Mourinho, campeão europeu e de Itália com o Inter. Se for pelo melhor jogo, Guardiola e o Barcelona, campeão espanhol. É um critério demasiado simplista. Redutor, até. Escolher o melhor exige cruzar critérios futebolísticos mais amplos. Para além do resultado, a visão estratégica do treinador (os jogos em que foi através da sua visão que a equipa ganhou, tornando o jogo diferente), a qualidade do jogo exibido (no plano técnico e táctico), a criação de uma identidade (o chamado “futebol de autor”).
Del Bosque foge a este debate. O treinador de selecção é muito diferente do de clube. Falta-lhe tempo para treinar com a equipa. Os jogadores chegam, treinam duas ou três vezes e jogam. Com esse ritmo, é difícil criar um estilo próprio. Em geral, o seleccionador, sem subverter as suas ideias, tenta aproveitar ao máximo os hábitos que eles trazem dos clubes. Foi o que fez Del Bosque. A sua Espanha foi uma projecção táctico-técnica do Barcelona de Guardiola.
Guardiola é hoje o guia espiritual táctico de um projecto de futebol catalão que começou muito antes dele chegar ao seu banco. O actual “futebol de autor” do Barça começou com Cruyf, teve avanços e recuos (Robson, Van Gaal, Rijkaard) e atingiu o auge com um filho da casa que cresceu desse o berço, como jogador, sob esses ditames. Guardiola é o novo profeta. “Como líderes com senso comum conseguem resultados descomunais”, a frase que ilustra a capa do seu livro El Método-.Guardiola, é a forma perfeita de explicar como ele conseguiu perceber e incorporar todo esse legado no onze que formou.
É impossível distinguir um estilo de jogo típico de Mourinho. As suas equipas, embora estruturalmente fortes na organização defensiva e nas transições rápidas mal recuperam a bola, não têm uma identidade comum assim tão forte que as permita identificar em conjunto. Mourinho é a expressão máxima do moderno “treinador da estratégia”. Foi assim que venceu a Champions, com um Inter tacticamente “camaleónico” que tanto atacou o Barça (em casa, ganhou 3-1) como só defendeu (0-1 em Nou Camp). De todos os treinadores é, claramente, aquele que mais transformou a equipa que treinou. Sem ele, nada daquilo teria sido possível. A um líder exige-se que nos leve por caminhos que só ele conhece. Sejam eles os mais belos, ou os mais maquiavélicos. Mourinho foi o alquimista, frio ou emocional, que, ora deslumbrando, ora assustando, ergueu um exército de futebol, derrotou os mais românticos, e, sem problemas estéticos de consciência, deixou, no fim de cada jogo, bem marcado na relva revolta, um enorme “T” de treinador.