RAPID VIENNA: O FUTEBOL MARAVILHA

4 de Dezembro de 2000
A nobre história do futebol maravilha, por onde passam mitos e lendas como Meisl, Sindeler, Bimbo Binder e Hanappi, até aos modernos conceitos da força anglo-saxónica com Krankl, Prohaska e Herzog.

Fundado em de 1899.
Onde joga: Hanappi Stadium
Campeão da Áustria: 1912, 1913, 1916, 1917, 1919, 1920, 1921, 1923, 1929, 1930, 1935, 1938, 1940, 1941, 1946, 1948, 1951, 1954, 1956, 1957, 1960, 1964, 1967, 1968, 1982, 1983, 1987, 1988 e 1996.
Taça da Áustria: 1919, 1920, 1927, 1946, 1961, 1968, 1969, 1972, 1976, 1983, 1984, 1985, 1987 e 1995.
SuperTaça da Áustria: 1986, 1987 e 1988
Campeão da Alemanha: 1941
Taça da Alemanha: 1938
Sedutora, chique e esculpida na volúpia, sumptuosa e imortal, das partituras de grandes compositores, como Mozart, Strauss, Schubert, Brahms e Bethoven, todos seus habitantes e amantes imortais, Vienna, passeou através dos séculos com o perfil sedutor de uma mulher bonita e elegante de saltos altos. Há quem a entenda demasiado bela e culta para entender o futebol. Mais cativada pelo teatro, a ópera e outros prazeres que decoram o espirito. A sua história, revela, porém, que também o futebol esse jogo de homens inventados por ingleses, soube penetrar por todo esses universo elitista e tornar-se quase uma religião para muitos austríacos, sobretudo os adeptos do Rapid Viena, o seu mais emblemático clube, fundado em 1899, por um grupo de jovens de Viena, empregados numa fábrica de chapéus, que por essa altura decidiram revitalizaram um clube criado um ano antes, em 1898, com o nome de First Arbeiterfussballklub, isto é, Os primeiros trabalhadores FC. Desde os primeiros tempos, o Rapid impôs-se como o mais forte clube da Áustria, onde o futebol começou desde cedo a ser entendido, como tudo na sociedade austríaca, como uma forma de arte. No inicio do século, o futebol era abordado de uma forma quase rudimentar, sem grande sentido táctico ou técnico. A escola de Viena iria ser a primeira a mostrar, nos anos 30, novos caminhos ao mundo do futebol, já antes desenhados nos pés sublimes de Josef Pepi Uridil, ídolo dos anos 10 e 20, que fora o primeiro jogador profissional em toda a Áustria.
O grande profeta desta virtuosa forma de conceber o futebol seria o filho de uma abastada família banqueira de Viena, que, nos anos 10, jogara no FK Áustria: Hugo Meisl. Numa das suas viagens a Inglaterra, conheceria um treinador homem chamado Jimmy Hogan que lhe ensinou tudo o que sabia sobre futebol. Meisl ouviu com atenção, mas logo percebeu que se incutisse nesses conceitos herméticos, algum floreado técnico, o perfume dos artistas da bola que conhecia da sua terra, podia conceber uma equipa de sonho. Assim o fez, quando poucos anos depois de regressar a Vienna, trazendo consigo Hogan, que aceitara o seu convite para conhecer a Áustria, começou a congeminar a lendária selecção austríaca, eternizada com o nome de Wunderteam, a equipa maravilha, que deslumbrou o mundo entre 1931 e 1935. O sistema de jogo baseava-se no chamado ataque em bloco, o moderno pressing ofensivo. Foi de Meisl a célebre frase: A melhor defesa é o ataque. Para dar vida a este sistema, tinha ao seu dispor um conjunto de grandes jogadores, quase todos, á excepção de Sindeler, o homem de papel, a jogar no Rapid Vienna, então uma sublime orquestra futebolística, onde brilhavam magos como Richard Kuthan, Franz Weselik, Josef Bican, Matthias Kaburek e o mítico goleador Franz Bimbo Binder.

BIMBO BINDER: O mago dos 1000 golos

O maior goleador da história do futebol austríaco, mito dos anos 30/40. Em toda a sua carreira, marcou 1151 golos em 794 jogos pelo Rapid, um autêntico terror das balizas. Foi por 6 vezes o melhor marcador da Liga austríaca, em 33, com 25 golos, em 37, com 29, em 38, com 22, em 39, com 27, em 1940, com 18 e em 1941, com 27. Retirou-se em 1950, tornando-se manager do Rapid e mais tarde, seleccionador nacional. Jogou 20 vezes pela Áustria, a celebre Wunderteam, antes de ser convocado para a selecção da Grande Alemanha. Era um avançado centro á moda antiga, que passeava entre os defesas e muitas vezes vinha buscar a bola atrás. Para ele o futebol resumia-se a uma simples formalidade: marcar golos.

A memória de Sindeler nos grandes derbys com o Austria

Perde-se na primeira década do Séc.XX, as raízes da rivalidade entre os dois grandes clubes de Viena: o Rapid e o Áustria. Essa sua génese popular, logo criou uma clivagem, que permanece, até hoje, com o outro grande clube da cidade, mais antigo, criado em 1894, o Áustria de Viena, fundado por um grupo de aristocratas ingleses, os chamados Cricketers. Desde esses remotos dias ficou eternizada a dicotomia entre o Rapid, o clube do povo operário, e o Áustria, o clube da elite intelectual. De um lado, dizia-se, jogava-se um futebol combativo e de garra, do outro cultivava-se um jogo técnico e pausado. Como gostam de dizer os vienenses, enquanto o Rapid trabalha, o Áustria joga. Desde os primeiros tempos, no entanto, o Rapid impôs-se como o mais forte clube austríaco, por onde apenas não passou o mítico Matthias Sindeler, o Mozart de futebol, o mais famoso jogador austríaco de todos os tempos que sempre jogou no rival Austria e acabou por se tornar uma lenda ao morrer, em circunstâncias misteriosas, pouco tempo depois, em 1939, da anexação da Austria pela Alemanha de Hitler. Muitos juram ter sido suicídio, por se recusar a jogar na selecção da Grande Alemanha. De origens judaicas, Sindeler cativou, através dos tempos, o imaginário de todos, que o consideravam um verdadeiro herói, quando, já com a Áustria ocupada, defrontou a Alemanha, fez um golo e ergeu um punho cerrado em direcção á tribuna onde estavam os monstros nazis.

Era o tempo da Anschluss: CAMPEÃO DA ALEMANHA NOS ANOS DA GUERRA

A 12 de Março de 1938, as tropas nazis de Hitler invadem a Áustria. Era o Anschluss, a anexação da nação austríaca ao soturno Terceiro Reich. O futebol não escapa á incorporação económica, geográfica e política. O campeonato austríaco continua existir, mas apenas como uma competição regional da Grande Alemanha, sendo o seu campeão apurado para disputar uma poule final do Campeão alemão, reunindo os vencedores de todas as regiões. A anexação manteve-se durante os anos da guerra. É nesse período que figura, no historial do Rapid, os seus mais perturbante trofeu: Campeão da Alemanha em 1941! É nessa épica conquista, no inicio dos anos 40, que o Rapid baseia-a grande parte da sua lenda, construída no decorrer da histórica final com o Schalke 04, no Estádio Olímpico de Berlim, perante 90 mil pessoas. Quando faltavam 15 minutos para o final, os austríacos perdiam por 3-0. Tudo parecia resolvido. Foi então que explodiu o fabuloso goleador Bimbo Binder, que com o diabo no corpo, arrasou a defesa teutónica e marcou 3 golos que empataram a partida, resolvida no último segundo com mais um golo do Rapid, fixando o marcador e, 4-3! Nasce a partir desse dia o famoso Rapid viertelstunde, isto é o mágico quatro de hora á Rapid. Com o passar dos tempo, tornou-se quase num ritual. Quando se aproximam os últimos 15 minutos de jogo, os seus adeptos começam a bater palmas, sincronizadamente, lembrando aos seus jogadores que chegara o momento de fazer honra ás lendas do Rapid. Muitas vezes, o clube ganhou jogos nesses últimos instantes, mas nenhum teve a carga dramática e histórica da final de 1941. As conquistas do Rapid no mundo alemão, não se resumem a essa memorável vitória. Anos antes, em 1938, também já conquistara a Taça da Alemanha, contra o FSV Frankfurt, derrotado 3-2 na final. Hoje, mais de meio século passado, essas vitórias simbolizam uma era em que o futebol austríaco vivia aprisionado pela intolerância nazi. Nos escombros da guerra ficou perdida a Wunderteam que nos antes tanto fizera sonhar os amantes do belo futebol. Para as gerações futuras, fica a lição de coragem dos jogadores do Rapid, cujas camisolas listadas a verde e brancas serão para sempre um símbolo de luta e espírito de sacrifício.

DE RAPPAN A HAPPEL: UMA ESCOLA DE TREINADORES

Finda a guerra, o Rapid, formidável viveiro de talentos, continuou a sua majestosa história, de novo nos relvados genuinamente austríacos. Inspirados na herança da Wunderteam, surgiram novas estrelas, que, donos de uma superior cultura futebolística, iriam ressurgir mais tarde como treinadores de referência no futebol europeu. Foram os casos de Edi Fruhwirth, Karl Decker e, sobretudo, Karl Rappan, o pai do futebol defensivo, que inventou o chamado ferrolho suíço, sistema ultradefensivo de dois trincos, e Ernst Happel, profeta da marcação á zona. Como jogador, Happel foi uma dos grandes avançados do Rapid do pós-guerra, um pequeno monstro com olhos de coruja. Para a história ficou a sua fabulosa exibição contra o Real Madrid, em 1957, no inferno do Pratter. Após ter perdido 2-4 em Chamartin, o Rapid, embalado por Robert Dienst, uma máquina de futebol ofensivo, encurralou o Real dentro da sua área. Foi um terror. Ao intervalo, os austríacos já venciam por 3-0, com três golos do terrível Happel. Conta-se então que, revoltado, Santiago Bernabéu foi ao balneário repreender os seus homens. Aquilo a que assistia era uma vergonha, não era digno do emblema do Real. O efeito de tais palavras foi tal que ninguém teve coragem de dizer que se estava a jogar com menos um, Oliva saíra lesionado, que o Rapid era uma grande equipa ou que Alonso fracturara um dedo e que, apesar das dores, se mantinha em campo. Houve alguém que murmurou que os austríacos eram muito duros, e logo Don Santiago ordenou que, sendo assim, que pagassem na mesma moeda. No segundo tempo, o vendaval austríaco acalmou, e Di Stefano fez o golo que forçou o terceiro jogo. Pelo regulamento de hoje, o Rapid seria apurado e talvez tivesse agora no seu museu o grande trofeu europeu que lhe falta. Foi então que o influente director madrileno Raimundo Saporta, conhecedor das dificuldades financeiras do Rapid, falou com os seus directores, negociou e o desempate disputou-se em…Madrid, vencendo então o Real por 2-0, num jogo cheio de picardias em que Happel, sentindo-se impotente para travar o furacão branco, acabou por perder a cabeça e ser expulso.

GERHARD HANAPPI: O futebolista arquitecto

Grande jogador dos anos 50, foi um dos futebolistas mais eclécticos da história do futebol mundial. Originariamente médio ala, jogou praticamente em todas as posições, com a camisola do Rapid, pelo qual fez 333 jogos entre 1950 e 1965, marcando 114 golos. Quer como avançado centro, médio interior ou defesa central, revelava sempre a mesma eficácia. Foi 93 vezes internacional pela Áustria. Um record na selecção austríaca. Era arquitecto de profissão, pelo que finda a carreira de jogador, seria ele a desenhar o novo Estádio do Rapid, o Western Stadium, que foi baptizado, após a sua morte, em 1981, aos 52 anos, com o nome de Gerhard Hanappi Stadium. Uma homenagem para manter viva a sua memória.

1986 e 1996: AS DUAS FINAIS EUROPEIAS PERDIDAS

Apesar de contar no seu onze com o tremendo avançado Hans Krankl, o Rapid passaria toda a década de 70 sem vencer o campeonato austríaco, que então passara a ser dominado, pelo renovado SS Wacker Innsbruck e pelo grande rival FK Austria Vienna. O inicio dos anos 80, marcaria, no entanto, o ressurgir do domínio do Rapid, orientado pelo Baric. Regressado de uma experiência de duas épocas no Barcelona, Krankl, ainda era, já com 36 anos, o guia espiritual de um onze que alinhando o guarda redes Koncila, os experientes Panenka e Pacult e o criativo médio Kranjcar, chegaria, em 1985, á primeira final europeia da história do clube. A Taça das Taças, diante da forte equipa inglesa do Everton de Andy Gray e Trevor Stevans. No jogo decisivo, no entanto, os austríacos nunca tiveram argumentos para combater o futebol ofensivo dos britânicos e foram derrotados, 3-1. Onze anos depois, em 1996, o Rapid, agora sob as ordens de Ernst Dok Dokupil, regressaria de novo á final da Taça das Taças. Desta vez frente aos franceses do PSG. Pelo caminho, eliminara o Sporting, goleado em Vienna por 4-0. Era uma equipa que valia pelo seu espirito combativo. Numa altura em que o futebol austríaco estava mergulhado numa profunda crise, esta proeza europeia do Rapid devolvera um pouco de orgulho aos deprimidos egos do futebol das valsas.. Na frente de ataque, estava um possante avançado que simboliza o aguerrido espírito-Rapid: Karsten Janker, Der Turban. No meio campo estava o dinâmico Kuhbauer e na defesa o activo lateral búlgaro Ivanov. A Taça seria, porém, conquistada pelo PSG, com um solitário golo, 1-0. Nos últimos anos, a grande estrela austríaca que passou pelo Rapid foi o medio ofensivo Herzog, técnica e força, que fez carreira no futebol alemão, o último jogador de eleição do futebol das valsas, desesperadamente em busca de novos heróis, capazes de resgatar o prestígio das lendas de outrora.

HANS KRANKL: O Bota de Ouro austríaco

Filho de um motorista de taxi de Viena, Kranl foi o futebolista austríaco mais adorado do anos 70 e 80. Fisicamente possante, era um tormento para as defesas que temiam o seu fulminante pontapé. Era um goleador com o típico estilo centro-europeu, que gostava de chocar contra os adversários, muito forte na chamada segunda bola. Realizou a sua grande época em 77/78, com 25 anos, quando marcou 41 golos pelo Rapid e ganhou a Bota de Ouro europeia, despertando a cobiça dos grandes clubes mundiais. Acabou por rumar a Barcelona, onde esteve duas épocas, 78/79 e 80/81, sendo o melhor marcador da Liga espanhola em 78/79, com 29 golos. Um grave acidente de carro forçou, no entanto, a uma paragem prolongada na sua carreira no futebol espanhol, passando, por pouco tempo, pelo FC Vienna. Quando regressou definitivamente, só podia ter um destino: o seu Rapid, onde voltaria a marcar golos e a ganhar título, terminando a carreira em 1985. Nos dois períodos, entre 71 e 78, e entre 81 e 85, fez 350 jogos e marcou 216 golos, sendo por 4 vezes o melhor goleador da Liga austríaca, em 74, com 36 golos, 77, com 32, em 78, com 41, e em 83, com 23. Em 1974, fez 7 golos num jogo só, quando o Rapid goleou o GAK por 11-1, em jogo da Liga austríaca. Fez 34 golos em 69 jogos pela selecção da Áustria. Penduradas as chuteiras, tornou-se director geral do Rapid Vienna.

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