Todas as equipas têm os seus pontos nevrálgicos de criação. Vê-se o Braça a jogar e a primeira tentação é pensar que Messi pode resolver sozinho o jogo a qualquer momento. Não é bem assim. Hugo Sanchez, treinador do Almeria, pensou nisso e, na estratégia, resistiu à tentação fácil de marcar em cima Messi. Olhou à volta e percebeu que a fonte de criação está mais atrás. Estancar esse ponto é estancar o inicio de pensamento do jogo. Xavi, pois claro.
Neste contexto, as mais rígidas marcações individuais ressurgiram com Chico, defesa do Almeria a seguir Xavi por todo o campo. Nem o deixava respirar. Xavi ia buscar a bola à entrada da sua área e Chico estava em cima dele. Subia no terreno, Chico estava lá. Fugia para as faixas, ai estava Chico. Parava para pensar, Chico respirava-lhe na nuca. Acabou quase encostado a lateral-direito. Com Chico a olhar para ele. Consequências? Xavi pouco jogou e o Barça teve muitas dificuldades em criar espaços de penetração. Ganhou 1-0 com um golão de Pedro.
Chamem-lhe visão táctica. Chamem-lhe anti-futebol. Qualquer definição serve. Que tipo de lugar ocupam, afinal, estas marcações individuais no actual futebol de top? É pacífico afirmar que é a zona (inteligente e pressionante) a marca das grandes equipas, mas o oposto desta ideia, não é outra ideia, mas sim um contra-ideia, pois embora o esquema de marcação não faça por si só o sistema, é uma nuance decisiva do chamado contra-sistema. A crescente assimetria entre estas super-equipas e outras sem os mesmos argumentos, cria o ecossistema perfeito para o renascer desta estratégia. Sacrificar um jogador para o resto da equipa sobreviver.
Para lhe responder, só explorando ainda mais os princípios da zona. Criar superioridade numérica em cada espaço onde a bola, a maior referência da aplicação da zona, entrar. Dessa forma, sempre que Xavi recebia a bola, o importante era ter ao lado outro jogador, livre, para fazer essa missão de saída de bola. Algo possível pois aqui não se trata de secar o génio das fintas e depois não existir mais ninguém capaz de fazer o mesmo. Fala-se em marcar pivots que saem com a bola. Iniesta, porém, ainda está longe da melhor forma.
Nada disto, porém, é novo e até pode levar a sacrifícios maiores. Como sentiu o próprio Guardiola, o pai dos pivots modernos, que, um dia, num Barça-Real, viu-se surpreendido por uma marcação individual feita por…Butragueño, que baixava do ataque para o perseguir. Nesse dia, deu vontade de recomeçar tudo de novo na história do futebol. No duelo Chico-Xavi é apenas uma consequência dos jogos de sombras (sistema versus contra-sistema) em que se tornaram muitos jogos do futebol moderno.