A construção de uma forma de jogar é um processo complexo. No início, está a ideia. Depois, o sistema. Por fim, surgem os jogadores. Os jogos (e treinos) começam e, subitamente, a ordem inverte-se. O comando é dos jogadores (entenda-se as suas características). E então a ideia adapta-se. E o sistema muda. A evolução do actual Real Madrid (que, após vários sistemas, estabilizou no 4x2x3x1) é um exemplo deste caminho. Como, afinal, foram as anteriores equipas de Mourinho. Viu-se no FC Porto, do 4x3x3 da primeira época para o mais internacional 4x4x2 losango da segunda. Viu-se no Chelsea, do 4x4x2 para um 4x3x3 com três médios intensos a defender. Como no Inter, abdicando do sonho de ganhar em Itália com um 4x3x3 em pressão alta para montar antes um 4x2x1x3 ou, na Champions, um 4x3x1x2 com três médios de contenção.
Em Espanha, onde se idolatra a posse do Barça, tentou, de início, um jogo mais apoiado, 4x4x2 (com um falso ala, Ozil, a deixar a faixa liberta para a subida de um lateral e Ronaldo na dupla atacante com Higuaín) ou 4x3x3 (com três médios mais recuados). Foi um arranque deficiente no plano da interligação de sectores impedindo a equipa de ganhar identidade. Nem jogava apoiado, nem metia passes mais longos. Em vez de combinarem jogadas, os jogadores conduziam a bola. O crescimento táctico sucede quando, entre os jogadores, em vez de condução passou a ver-se combinação. O 4x2x3x1, hoje definido, foi a «casa táctica» ideal para o fazer.
O duplo-pivot, combina Xabi Alonso (exímia qualidade de passe, sobretudo longo) e Khedira (que nunca jogara tão recuado). Mantendo Ronaldo e Di Maria abertos, o principal factor de evolução é Ozil.
A principal cambiante, nasce da introdução de um terceiro médio mais de contenção: Lass. Nessa altura, mantendo Khedira e Xabi, desenha um triângulo a meio-campo (com Xabi no centro), tirando um médio mais ofensivo (Ozil) e abrindo com Ronaldo e Di Maria nas alas, Higuaín ou Benzema no meio. Poderá ser essa a nuance estratégica para Barcelona.
Em qualquer sistema (4x3x3, com três médios de contenção, ou 4x2x3x1, com duplo-pivot e nº10) mantêm sempre a linha defensiva adiantada (bloco médio-alto), com os laterais (Arbeloa e Marcelo) subidos até ficarem de perfil com o pivot (ou duplo-pivot). A transição defesa-ataque é sempre rápida, buscando profundidade (vejam Xabi Alonso, é lento mas joga/passa rápido). Dois-três passes e a bola tem de entrar nos alas. Onde a equipa tem de evoluir é para tornar a pressão alta mais forte e sincronizada, evitando recuar tanto quando perde a bola (Khedira, neste contexto, solta-se mais para pressionar do que para jogar).
O trilho do Barça
Em relação à época passada, a principal quebra que se notava no futebol do Barça de início da época era sobretudo na velocidade e intensidade de jogo. A equipa mantinha grande posse de bola mas perdera a capacidade de pressionar alto, com agressividade táctica. Causas? Talvez uma questão física motivada por uma pré-época deficiente pós-Mundial. A recuperação/crescimento (físico e táctico) de Xavi e Iniesta resgatou os melhores princípio de jogo apoiado.
Estendida em 4x3x3, sai a jogar quase sempre através dos centrais, sobretudo Piqué. Assim, na saída de bola, é comum os laterais subirem para meio-campo, os centrais alargam e o pivot baixa para o meio deles (sendo ele, Busquets, que muitas vezes sai com a bola). Em geral, quando é o pivot a sair, Xavi baixa para pegar na bola e depois é ele que avança em construção, encontrando na segunda linha apoios para linhas de passe curtas. Quando é o central a sair, em geral opta por um passe longo em diagonal metendo a bola na ala, num extremo, em geral Pedro.
Ou seja, diz-me como começas a jogar e dir-te-ei como queres acabar a jogada. No caso do Barça, com diagonais dos alas e mobilidade dos avançados (Villa tem de afinar mais a combinação com os médios) e entradas em ruptura do médio que cai muitas vezes na ala, transforma-se num avançado, Iniesta. O resto é Messi…
Ozil e Benzema
Na evolução do Real, dois jogadores para estudar. Um na táctica, outro na cabeça. Ozil e Benzema. No caso de Benzema, Mourinho reconheceu o seu enorme valor e tenta recuperá-lo dando-lhe corpo competitivo. Benzema tem respondido (em 4x2x3x1 alterna com Higuaín, mas também sabe cair na faixa). Procura mais a bola, diagonais curtas possantes e remate.
Ozil é um talento ainda num tubo de ensaio. No inicío, quando o via atrás e à frente, meio confundindo, perguntava-me: mas o que quer Mourinho de Ozil? Penso que a dúvida resultava do facto de ele querer coisas diferentes para jogos…diferentes. Ou seja, nuns casos pede-lhe para recuar e pegar jogo perto do duplo-pivot (evitando que este se desposicione), noutros pede-lhe que jogue mais à frente e caia em cima do pivot adversário, se ele for de construção. Nesta dicotomia, Ozil tornou-se essencialmente um médio ofensivo entre-linhas. Deixou de parecer um jogador diferente consoante os jogos em casa ou fora. Pede a bola em desmarcação e combina com os alas ou o ponta-de-lança.
Pep & Mou Fútbol S.A.
O início do livro El Método de Guardiola, de Miquel Violan, diz muito da essência do treinador do Barcelona: “Porque é que líderes com senso comum conseguem resultados descomunais”. A resposta está na pergunta. O “bom senso” de Guardiola reflecte-se na sua filosofia de jogo (técnica e passe) e nas suas relações fora dele (jogadores, adeptos, imprensa, adversários). Mourinho cultiva a arte do conflito para, através de “jogadas mentais”, fazer da equipa um exército. Diz mesmo que a conferência de imprensa, antes dos 90 minutos, também faz parte do jogo. Um poder de liderança com “sentido comum” diferente, mas igual na capacidade de entrar na cabeça dos jogadores e de todo o mesmo entorno futebolístico.
Barcelona e Real Madrid tratam a bola de forma diferente. O Barça gosta de a ter o mais tempo possível. O Real gosta de a ter apenas o tempo essencial. Sem dilemas estéticos, Mourinho foge ao “lugar-comum” de que todos devem atacar e defender. Nas suas equipas as obrigações são só iguais para todos no que toca a…defender. Não lhe interessa uma equipa partida em cinco que defendem e cinco que atacam. O ideal? Dez defendem sempre e, depois, só cinco deles atacam. Parece a mesma coisa, mas é muito diferente. Voltem a ler o parágrafo e pensem nisso.
Ronaldo está um jogador diferente. Nota-se no jogo colectivo, nota-se até na forma como passou a festejar os golos. Em vez de correr sozinho para a bancada tirando a camisola, dá a volta e procura o resto dos companheiros para abraçar. Messi continua como um miúdo que está a jogar na rua ou no pátio da escola a quem todas as camisolas parecem ficar grandes.
Adepto de construções longas, Guardiola não se importa de dar 14/16 passes até chegar à baliza adversária. Mourinho quer chegar lá em 3 ou 4. As tácticas são diferentes, mas os estilos, no banco, com barba de três dias, têm as suas semelhanças.