Vejo-os jogar em Tenerife, iluminados pela lanterna vermelha, com o coração nas mãos, sofrendo para não descer de divisão e tenho uma sensação estranha. É a memória daquela sua inesquecível e emocionante equipa que no inicio dos anos 80 conquistou duas ligas consecutivas, em 80/81 e 81/82.
Era o onze de Arconada, o portero voador, Zamora, o maestro elegante, da garra de Alonso, das arrancadas de Uralde, dos golos de Satrustegui e, acima de todos, do magistral extremo esquerdo Lopez Ufarte, um escritor de bom futebol que numa era em que a fúria regia o futebol espanhol, foi um oásis de técnica tranquila.
Talvez por isso a bola lhe fosse parar tantas vezes aos pés, em busca de carícias ternas que só ele sabia dar no turbilhão da cancha de Atoxa, o seu pequeno velho Estádio, que com o público a respirar em cima dos jogadores, criava uma atmosfera de emoção única. Vinte anos depois esta é outra Real Sociedad. Com os anos, foi perdendo essa chama e hoje no renovado, mas frio, Anoeta, joga só para não descer.
A memória daquele onze emerge sobretudo quando olhamos para o banco e nele descobrimos, qual bom fantasma, com um bloco de apontamentos na mão, o supremo mago de outrora: Lopez Ufarte, pois claro, um basco genuíno, hoje treinador adjunto do onze de S.Sebastian. Num dos últimos e desesperantes jogos, Toschak definiu a equipa como “onze galinhas sem cabeça a correr atrás de uma batata quente!” Elucidativo, sem dúvida.
O que se passará na cabeça de Ufarte quando vê jogar esta pobre Real? Certamente, o mesmo, mas com mais intensidade, que sentem os que seguiram e recordam com saudade o tempo em que, 20 quilos e 20 anos atrás, pisava a relva como uma pluma e tratava a bola com a mesma arte com que um escultor molda o barro. O antídoto contra este sentimento é um compromisso com a história e, em vez de correr tanto, colocar o plantel actual a ver em video durante a semana, jogos daquela passional equipa, porque é no futuro que vamos passar o resto dos nossos dias.