É quase como se algum dos onze jogadores escondesse um relógio debaixo do relvado. O segredo para uma equipa controlar um jogo, quase silenciosamente, sem denunciar a estratégia, passa muito por saber controlar os seus diferentes ritmos. Tanto saber mudá-lo (torná-lo mais rápido ou mais lento conforme as circunstâncias), como saber adaptar-se às mudanças que, sem as provocar, essa alteração de ritmo provoca no seu jogo. Uma equipa que no actual futebol de top tem muitas dificuldades em viver neste mundo de mudanças de ritmo é o Milan de Allegri.
Os seus dos últimos jogos (Tottenham, na Champions, e Nápoles, no Scudetto) revelaram essas diferentes faces. É uma equipa que prefere claramente o ritmo mais baixo, lento nos processos de construção e transição, sobretudo defensiva. Quando o ritmo sobe, tem muita dificuldade em manter o mesmo equilíbrio posicional e capacidade para criar desequilíbrios a sair para o ataque. É, claro, uma questão que nasce das características dos jogadores (sobretudo médios como Pirlo, Gattuso, Flamini, Van Bommel), mas também do modelo de jogo adaptado. O sistema táctico (estabilizado no 4x3x1x2) espelha esse cenário.
Viu-se contra o Nápoles, jogo de intensidade alta contra o segundo classificado, quando, ao intervalo, após uma primeira parte jogada com um cadeado táctico mútuo, Allegri mexeu no controlo do ritmo de jogo. Manteve-o pausado, mas meteu maior capacidade de ganhar espaços a meio-campo, mesmo com uma troca de inicio aparentemente defensiva: Robinho por Boateng. Com o ganês de recorte (físico e táctico) alemão nas costas da dupla Ibrahimovic-Pato (que passou a jogar solto quando antes jogara aberta com Robinho numa das alas), o onze mudou o jogo sem alterar as suas coordenadas rítmicas. Ou seja, foi o tal jogador que escondeu o relógio, estilo pace-maker, debaixo da camisola. Seedorf já não consegue fazer isso como antigamente.
Perspectiva diferente surgiu na Champions, onde o Tottenham de Redknaap, sem grandes combinações tácticas, marcou a diferença através da forma como mandou nos ritmos de jogo e sobretudo soube activar os momentos certos da sua aceleração. E nesta equação voltam, outra vez, a entrar as características dos jogadores, Nos spurs, o vertiginoso extremo Lennon, que, a cada arranque (passagem para o ritmo alto) fazia toda a estrutura táctica lenta do Milan abanar. O jogo da segunda mão, em desvantagem, será, assim, um desafio táctico mais interessante. Ver se o Milan consegue meter o relógio mais lento em campo e perceber que o segredo, afinal, pode estar num jogador, Boateng, longe das grandes estrelas, mas perto do relvado táctico mais lúcido e equilibrado.