“O trabalho de construir uma equipa é igual ao de Leonard Bernstein em dirigir a orquestra filarmónica nos EUA, onde um músico é melhor que o outro. Pede-lhes para tocarem juntos, fecha os olhos, ouve e sentencia: individualmente vocês são todos excelentes, mas, como orquestra, tem muito que progredir. A perfeição, no colectivo, pode ser um longo caminho entre os 95% até aos 100%!”
Rinus Michels, em “The Road to Success”

A década de 60 e a sua a cultura hippie começava a abanar as consciências quando, em 1965, o ainda jovem Rinus Michels, 37 anos, aceitara, depois de treinar o modesto Zandvoort-Meeuwen, para trabalhar nas camadas jovens do Ajax. Era ali, como um filho da Amsterdão cosmopolita que nascera em ano de Jogos Olímpicos, 1928, numa rua bem perto do Estádio onde eles se realizavam, onde se sentia melhor.
Ao mesmo tempo, no banco da equipa principal, sentava-se o inglês Vic Buckingham. Apesar de contar com figuras como Keizer, Surbier, Swart e um miúdo franzino de 17 anos, Cruyff, esteva, porém, após uma série de derrotas, muito perto de descer de divisão.
Foi então que o Presidente Jaap van Praag decidiu-se pela chicotada e, pela primeira vez na história do Ajax, apostar num treinador holandês para orientar a equipa: Rinus Michels, um homem simples, algo introvertido até, que fizera um discreta carreira como ponta de lança do Ajax,
Em finais de 1966, os dois homens que iriam revolucionar o Ajax e todo o futebol mundial, Michels e Cruyff, estavam reunidos no laboratório do De Meer. O famoso Futebol Total estava em embrião.
Durante a sua carreira como jogador, no Ajax, Michels conhecera treinadores como Jack Reynolds, Humenberger, Buckingham, Spurgeon e Jack Rowley. Todos, de origem anglo-saxónica, preconizavam sistemas básicos de futebol, sobretudo os britânicos, adeptos do tradicional jogo directo. De todos, Buckhingham era o mais aberto ao estilo continental. Mesmo quando estava em campo, porém, Michels já imaginava outras formas de abordar o jogo.
A base do sua ideologia, então em embrião, residia na escola húngara dos anos 50. Na sua mente, quando a bola estava longe, idealizava outros movimentos, outra forma de elaborar as jogadas, enfim, outro tipo de futebol. De inicio, pensou aplicar essas teses nas camadas jovens. Quando surgiu a oportunidade de aplicar essas ideias a nível sénior, não hesitou e, transformando o Ajax num protótipo de uma precursora ideologia futebolística, mudou, para sempre, o curso da história táctica do jogo.
Cada época criou o seu futebol da era moderna. Nessa perspectiva histórica, o Futebol Total foi, na génese, como o revitalizar do esquema húngaro de 1954 (então susceptível de ser desenhado em 4x2x4) acrescentando-lhe a circulação de bola e a permanente intenção de jogar pelos flancos.
O estilo e os primeiros tempos

O primeiro impacto surgiu em 1967, quando o Ajax espantou a Europa ao golear o Liverpol, 5-1, nos quartos final da Taça dos Campeões. A eliminação na ronda seguinte frente ao Dukla, disse que a equipa ainda não estava totalmente lapidada, mas, quando em 1969, chegou á final, que perdeu frente ao Milan, 1-4, todos sentiram que em breve os géniozinhos de Michels iam assombrar a Europa. Assim foi.
Em 1971 inicia-se o ciclo mágico. Apenas 14 jogadores bastaram para conquistar três Taça dos Campeões. Os heróis foram o guarda redes Stuy, e os vagabundos Krol, Surbier, Rijnders, Hulshoff, Vasovic, Blakenburg, Neeskens, Muhren, Cruyff, Haan, Swart, Keizer e Van Dijk. Michels só esteve presente na primeira conquista (as outras duas foram com Kovacs, seu devoto seguidor).
Voltaria a encontrar muitos deles, porém, poucos anos depois na selecção holandesa, quando após um difícil apuramento para o Mundial-74, a Federação afastou o treinador checo Frantisek Fadrhone e convidou Michels, nessa altura já em Barcelona, com Cruyff, para seleccionador nacional, com o objectivo de incutir no onze os mesmos princípios de jogo.
A sua reputada postura de disciplinador (por isso os rótulos de General ou Homem de ferro) era mais uma estratégia motivacional de líder do que uma verdadeira extensão da sua personalidade. Quem o conheceu, fala de um homem que gostava de sorrir. Durante os jogos, no banco, raramente mexia um músculo da face. Ai sim, era a tal famosa esfinge. Curiosamente, seria em 1988, com a idade mais avançada, que o veríamos a sorrir no banco, sobretudo depois do fabuloso golo de Van Basten a Dassaev na final do Europeu...
FUTEBOL TOTAL OU...FUTEBOL CIRCULAR?
A «anarquia» com ordem

É errado definir-se o Futebol Total apenas como uma ideologia em que os jogadores não tinham posição certa em campo e trocavam constante de lugar. A verdade é que até talvez em mais nenhum sistema os jogadores sabiam exactamente o seu papel e posição inicial em campo como no esquema de Michels. O segredo residia na dinâmica posicional que cada um deles incutia a cada posto, com a consequente circulação de bola, desenhada em constantes mudanças de flanco, o célebre «carrocel mágico», e no aproveitamento dos espaços vazios. A chamada desorganização organizada. Uma aparente anarquia futebolística transformada em sistema e táctica.
Futebolisticamente poético, os holandeses giravam em campo, lembrando as pás de um moinho. Por isso, mesmo correndo o risco de ferir a história, mais do que futebol total, talvez fosse mais correcto chamar-lhe futebol circular.
Há quem diga, e com razão, que quem não viu jogar ao vivo esta selecção holandesa, então nunca a viu verdadeiramente jogar. Ao longo dos tempos, o futebol adquiriu diferentes contornos tácticos. Todos eram sistemas que se podiam traduzir no papel. A partir do Futebol Total, tudo mudou. Por isso, pode-se dizer que mais do que um sistema de jogo, era uma atitude competitiva perante o jogo.
Esquematizado, o famoso Futebol Total era um 4x3x3, com uma defesa em linha de quatro elementos, três médios armadores e três avançados que partiam de perto do meio campo. No relvado, porém, com marcação á zona, nenhum dos jogadores se limitava á sua posição inicial. Incutia dinâmica ao sistema e, assim, nas sincronizadas movimentações do colectivo revolucionava a abordagem táctica do jogo.
A grande revolução táctica, mais do que no posicionamento dos jogadores no campo, apostava na dinâmica da táctica. Tudo isto exigia grande condição atlética a todos os jogadores.
Quando, por exemplo, quem conduzia a bola pela esquerda via que não tinha linha de penetração, passava-a para um elemento recuado, mais para dentro do campo, para esse homem virar o jogo para a direita. Os adversários ficavam hipnotizados com este carrocel, até que o espaço era criado e Cruyff ou Rep surgiam, desmarcados, em zonas de remate,
A importância do quarto defesa

Assim, com a bola, o esquema podia desenhar-se num 3x1x3x1x2, ou seja, 3x(Suurbier-Haan-Krol)x1 (Rijsbergen, o quarto defesa que se adiantava) x3 (Neeskens, á direita, Jansen e Van Haneghen, mais sobre o centro)x1 (Cruyff, interior armador esquerdo)x2 (Rep-Resenbrink, avançados móveis que deambulavam por toda a frente de ataque, descaindo preferencialmente sobre a direita e a esquerda, respectivamente).
A subida do quarto defesa sempre se revelou muito importante na dinâmica do sistema de Michels. Na época seguinte, por exemplo, em Barcelona, era Marinho Peres quem ouvia constantemente as ordens para subir no terreno sempre que a equipa recuperava a posse da bola. Catorze anos depois, quando na sua segunda passagem pela selecção, guiou a Holanda á vitória no Euro-88, o defesa que se transforma em médio transportador que inicia a saída de bola para contra-ataque era um trinco adaptado, Rijkaard. Embora partisse dum 4x4x2 mas clássico, a dinâmica posicional de jogadores como Koeman, Rijkaard, Wouters e, sobretudo, Gullit, tinham igualmente como base os ensinamentos do Futebol Total de 74.
O Futebol Total no presente

É difícil precisar quando e como surge pela primeira vez o termo Futebol Total para definir o sistema holandês. O próprio Michels recusava a paternidade do termo, atribuindo-a aos jornalistas que viram jogar as suas equipas, Ajax e Holanda especialmente.
É até curioso notar, vasculhando os arquivos, que essa mesma expressão Futebol total, fora utilizada nas páginas de «A Bola» por mestre Vitor Santos para descrever a forma de jogar da selecção portuguesa no Mundial 66... Só cinco anos depois, o primeiro grande Ajax de Michels conquistaria a Taça dos Campeões utilizando o idolatrado sistema que seria, depois, seguido pelo romeno Stefan Kovacs que, em 1972, substituiria Michels, entretanto partido para Barcelona, no banco do Ajax.
A fama do futebol total como sendo quase como a pedra filosofal do bom futebol permaneceu, no entanto, até hoje. Mas faz ainda sentido, no presente, considerá-lo como um dogma em termos de sistematização táctica avançada?
Sem dúvida que sim. A principal razão para esta conclusão reside num dos fundamentais princípios que as grandes equipas do nosso futebol moderno devem ter presentes: a fase defensiva não se destingue da fase ofensiva e vice versa. Ou seja, a noção avançada de que as missões de defender e de atacar nunca podem ser compartimentos estanques, mas, pelo contrário, tem de ter interligação plena, ao ponto da capacidade de distinguir esses dois momentos fosse reduzido ao mais mínimo espaço temporal, quase imperceptível a olho nu.
É, por isso, que se pode afirmar que no Futebol Total todos atacavam e todos defendiam. Michels foi primeiro treinador a introduzir essa noção na dinâmica de uma equipa em campo, condicionando, assim, para sempre o seu status táctico.
Ciclicamente, depois, com o passar dos tempos, esses conceitos foram sendo lapidados e encontram hoje total corolário na eficácia das famosas transições defesa-ataque-defesa. A equipa que as fizer melhor, mais rápido e de forma mais eficaz, é a competitivamente mais forte. As bases que sustentam todas estas teorias alicerçam-se, claramente, nos ensinamentos do futebol total.
A AVENTURA DE BARCELONA:
Os jogadores o sistema

Entre a revolução encetada no Ajax, laboratório do futebol total, e a consagração planetária no Mundial-74 com a Holanda, Rinus Michels esteve quatro épocas em Barcelona. Ao contrário do Ajax e da Holanda, ninguém recorda, no entanto, o seu Barça também como profeta do Futebol Total. Como é isso possível?
A resposta podia levar-nos para o terno debate entre o sistema e os jogadores. Qual é o mais importante, qual está primeiro, e quem deve-se a adaptar a quem? Quando Michels foi contratado pelo Barcelona (curiosamente para substituir o mesmo Vic Bughnigham que substituíra no Ajax em 65) a intenção era que também o colocasse a jogar como Ajax.
A esfinge chegava á Catalunha, no entanto, num tempo em que o futebol espanhol fechara as fronteiras a jogadores estrangeiros. Assim, tentou, por exemplo, que Alfonseda fosse Keiser, e fracassou. Á 10ª jornada estava em antepenúltimo lugar. As criticas começavam. Mais tarde, uma derrota com o Córdoba afastou-o da luta pelo titulo. No segunda ano, terminou no 3º lugar. As relações como os jogadores estavam cada vez mais tensas.
Na época seguinte, porém, passou a ser permitida a contratação de dois estrangeiros. Chegou Cruyff e, num ápice, o sistema ganhou vida própria. Jogando um futebol que por fim exteriorizava as bases do projecto-Michels, o Barcelona reconquista, 14 anos depois, o titulo de campeão espanhol, numa época (73/74) memorável, eternizada com uma mítica vitória sobre o Reeal Madrid, em pleno Chamatin, por 0-5! Para além de Cruyff, brilhavam nesse onze Rexach, Asensi, Marcial e o peruano Sotil. Na época seguinte, porém, com Neeskens (médio) no lugar de Sotil (avançado) o onze perderia o equilibro e os títulos nunca mais surgiram.
Foram então os jogadores que fizeram o futebol total? Sim e não.
O sistema-Mchels foi um ideologia futebolística inovadora, mas que, como qualquer outro esquema táctico, nunca lograria a mesma dimensão mundial sem a fabulosa geração de jogadores como a que Michels teve ao seu dispor, sob a magistral batuta de Cruyff. Para que a sua essência se traduza em campo, são obrigatórios jogadores tacticamente muito evoluídos, ao ponto de entenderem o verdadeiro sentido das palavras dinâmica e polivalência. O tipo de jogador que sabe saltar a fronteira entre a acção especifica inicial para que foi designado e a dinâmica posicional susceptível de ser-se incutir ao lugar, para a qual lhe foi concedida liberdade, ao ponto de ser difícil saber-se qual o seu posto original. Assim, Michels e Cruyff foram mais do que treinador e jogador. Foram mestre e feiticeiro. Foram pai e filho futebolísticos. Foram a prolongação de um de outro, do banco para o relvado, e do relvado para o banco.
A CONSTRUÇÃO DA SELECÇÃO DE 74:
A «guerra» Ajax-Feyenoord

Quando chegou á selecção, em 74, Michels deparou-se logo com um grave problema na formação da equipa. O grupo estava claramente dividido entre duas facções. De um lado, o dos jogadores do Ajax, onde Cruyff ainda tinha grande influência, do outro, o os do Feyeenord, onde o seu grande símbolo era o médio lutador Van Hanegem.
Era do grupo de Roterdão que vinham as maiores criticas á aplicação dos princípios do Futebol Total no jogo da selecção. De inicio, Michels tinha a intenção de equilibrar as duas facções, mas a situação iria tornar-se mais complicada depois de supostamente também Cruyff entrar em conflito com os seus antigos companheiros do De Meer.
“A selecção devia ser formada com base em cinco homens do Ajax e quatro ou cinco do Feyenoord, mas as duas equipas jogavam com tácticas diferentes e nem os jogadores do Ajax queriam aceitar o sistema do Feyenoord, nem estes queriam o do Ajax. Assim era impossível conseguir um verdadeiro conjunto.”, conta Cruyff no livro Mundiais 74.
Após uma serie de jogos particulares pouco convincentes, Michels estabeleceu as orientações. Disse a todos jogadores qual ia ser a opção táctica e colocou todos á vontade. Quem não estivesse disposto a acatá-la podia voltar para casa. Deu-lhes uns dias para compreenderem a sua táctica e decidir o que fazer. Ao fim de uma semana perguntou a cada um se aceitava ficar, explicando-lhes que, se aceitavam, tinha que ser numa entrega total. Quem não está connosco, é contra nós, dizia.
O onze da revolução

Quando fez a equipa, Michels só tinha uma certeza: ela teria de girar em torno de Cruyff. No ataque, as opções de Michels recaiam sobre Rep, revelação do novo Ajax, e em Resenbrink, veloz extremo do Anderlecht, que tirava assim o lugar de titular a Kaiser, histórico do Ajax, mas já sem a pujança de anos atrás.
Na defesa, existia um sério problema: a lesão do libero Israel,. Quem iria liderar o sector com a mesma autoridade? Foi então que, astuto, Michels inventou um dos melhores líberos da história do futebol holandês: Haan, que até esse momento jogara sempre como médio, mas que, agora no centro da defesa, formaria com Rijsbergen, que até ao Mundial só jogara uma vez pela selecção, uma imponente dupla de centrais, ao ponto de Israel não voltar entrar na equipa, mesmo depois de recuperar da lesão.
No meio campo, Michels tinha de decidir entre o trio do Ajax, composto por Arie Haan, Neeskens e Gerry Muhren, e o do Feyenoord, com Theo de Jong, Wim Jansen e Wim van Hanegem. Eram todos grandes jogadores. A opção de Michels teria de ser feita tendo em conta a capacidade de cada um se adaptar ás suas directivas tácticas. Com Haan recuado e Muhren forçado a sair devido a uma doença do filho, o trio do meio campo acabaria por ser formado por: Neeskens, uma espécie de trinco box to box, usual no presente mas revolucionário nos anos 70; Jansen, o grande lutador que ocupava todos os espaços em busca da recuperação da bola; e Van Hanengem, na esquerda, um lutador de grande carácter que era o patrão do Feyennord.
Era a primeira vez que este onze jogaria junto e cinco jogadores estreavam-se nas posições, mas jogando com uma velocidade e ligação de sectores quase sobrenatural, ele seria titular durante todo o Mundial. De todos os feitos de Michels, o maior fora, sem dúvida, o de conseguir esta coesão e unidade num grupo que pouco antes parecia totalmente desintegrado. A explicação para isso era simples: todos estes jogadores eram verdadeiros fora-de-série, com uma concepção moderna e profunda do futebol.
A Laranja Mecânica (Holanda 74)