ROMÉNIA:OS VAMPIROS DE BUCARESTE

26 de Dezembro de 2000
DINAMO - STEAUA: O GRANDE «DERBY» DE BUCARESTE

Roménia: a última fronteira do futebol latino. Erguida em terras de Dracula, a Roménia, viveu longos anos atrás da cortina de ferro. Apesar das mudanças políticas que, desde 1989, desenharam a nova pátria romena, o seu futebol permanece igual, expresso na rivalidade titânica dos dois gigantes de Bucareste, Steaua e Dinamo. No momento, em que se defrontam para decidir o titulo do ano 2001, a memória de uma rivalidade que, ainda hoje, continua a viver muito dos fantasmas do passado.
Apesar dos ventos de leste terem moldado, desde os anos 40, a história cultural, política e social, de toda a nação romena, o seu futebol conservou sempre, dentro do campo, a sua personalidade tecnicista, que, mesclada com a frieza de leste, gerou um estilo temível e sedutor. Fora do relvado, porém, tal como em toda a sociedade, as estruturas futebolísticas seguiram as regras colectivistas, que, até 1989, regeram os seus grandes clubes, como o Steaua e o Dínamo, ambos criados em 1948, na alvorada do domínio comunista do pós-guerra. Á imagem do modelo soviético, o Steaua, estrela, em romeno, o clube da nova armada popular, era dominado pela Ministério da Defesa, enquanto o Dínamo, representante do Ministério do Interior, era o clube da polícia. A rivalidade entre eles, ultrapassou, no entanto, o berço político e militar e foi adoptada pelo povo de Bucareste, muitas vezes cativado pelo outro clube da cidade, o Rapid, a chamada equipa dos operários, que, sem favores estatais, viveu sempre na sombra dos dois símbolos do poder comunista. Até meados dos anos 80, o Dínamo, por onde passaram figuras como Florea Dumitrache, anos 60, Cornel Dinu e Dudu Georgescu, anos 70, foi o grande senhor do futebol romeno, derrubado no momento em que o exército passou a ter um estatuto mais poderoso que a polícia. Impulsionado pela família Ceausescu, sobretudo pelo filho Nicolae, o Steaua passou a contratar os melhores jogadores aos outros clubes sem lhes pagar a indemnização devida. Assim construiu a fabulosa equipa campeã europeia em 1986 e que, durante várias épocas, resgatou para o seu onze, as grandes estrelas do futebol romeno, como Hagi, Popescu, Lacatus e Balint.

O FUTEBOL DEPOIS DA REVOLUÇÃO

Da mesma forma que foi formado, o grande Steaua também seria desfeito pela força das armas e da política. Em 1989, após a revolução que derrubou Ceausescu, iniciou-se a chamada desmilitirazação do futebol romeno. Sem as benesses de outrora, o Steaua atravessou um curto período de indefinição e permitiu o renascimento do Dinamo, que com uma equipa fantástica, onde estavam Raducioiu, Sabau, Stelea, Mateut, Lupescu e Lupu, entre outros, reconquistou o titulo romeno. Aos poucos, o Steaua foi rompendo com o passado, até que, em 1997, se desligou em definitivo do mistério da defesa, apesar das criticas do treinador Dimitru Dumitriu, resistente da velha escola, que não entendia a razão de desmantelar uma organização que embora militar, sim senhor, tinha levado o clube ao titulo europeu e a cinco campeonatos romenos consecutivos. Na sombra do passado, pela mão do presidente Marcel Puscas e do técnico Mihai Stoichita, antigo adjunto de Dumitriu, o Steaua construiria a sua nova imagem, jovem e sem divisas, reconquistando, por seis vezes consecutivas, entre 92 e 98, o titulo de campeão romeno. Foi um era gloriosa, por onde passaram nomes como Dumitrescu, Ilie, Galca, Panduru, Munteanu, Prodan e Vladoiu, entre muitos outros, para além ainda da presença dos velhos Lacatus, que também foi treinador, Belodedici e Rotariu. As últimas épocas do século expressaram os novos aromas do futebol romeno, assombrado, pelo regresso ao topo, em 98/99, do Rapid Bucarrest, de novo campeão romeno, 32 anos depois do último titulo, em 66/67. Finda a fabulosa geração-Hagi, o futebol romeno atravessa um fase de transição, em busca de novas referências. Os velhos monstros de Bucareste continuam, como sempre, no leme da renovação, no momento em que o Steaua sonha em resgatar o titulo conquistado pelo Dínamo em 2000, sob a batuta de Cornel Dinu, velha glória dos anos 60, o treinador de um atraente onze onde brilharam figuras como Mutu, Petre, Contra, Niculaie e Ganea. Esta época, porém, o Steaua regressou ás vitórias e é líder destacado com 9 pontos de avanço. Por isso, este derby é decisivo para os homens do capitão Cornel Dinu

1988: A TAÇA QUE TODOS RECUSAM

Sustentadas por diferentes ministérios, os derbys Steaua-Dinamo adquiriram muitas vezes contornos suspeitos. Neste contexto, a final da Taça da Roménia de 1988 tornou-se, para a eternidade, como um exemplo dessa soturna época. Nesse jogo, o Ministro da Defesa, tão só Ilie Ceuasescu, irmão do Ditador, deu ordem á sua equipa, o Steaua, para abandonar o terreno após o árbitro lhe ter, justamente, anulado um golo a 3 minutos do fim. A ordem foi comprida de imediato, ficando os jogadores do Dinamo sozinhos em campo, ganhando, assim, a Taça. A Federação, por imposição da família Ceausescu decidiria, no entanto, de forma diferente, dando o trofeu ao Steaua, sem permitir qualquer contestação. Um ano depois, o regime caia e, passados alguns meses, o Steaua resolveu comunicar ao Dinamo que era sua intenção devolver-lhes a Taça, pois eles é que tinham sido os vencedores em campo. Apesar das nobre intenção do novo Steaua, os directores do Dinamo recusaram-na, por considerar que essa Taça era um símbolo de uma época que todos queriam esquecer. Assim, a Taça da Roménia 1988 ficou, para sempre, sem ser atribuída.

OS VELHOS MONSTROS DE BUCARESTE: Palmarés

STEAUA BUCARESTE

Campeão da Roménia: 1951, 1952, 1953, 1956, 1959, 1960, 1961, 1968, 1976, 1978, 1985, 1986, 1987, 1988, 1989, 1993, 1994, 1995, 1996, 1997, 1998 e 1999 Taça da Roménia: 1949, 1950, 1951, 1952, 1955, 1962, 1966, 1967, 1970, 1971, 1976, 1979, 1985, 1986, 1987, 1989, 1992, 1996, 1997, 1998 e 1999 Taça dos Campeões Europeus: 1986 SuperTaça Europeia: 1986

DINAMO BUCARESTE

Campeão da Roménia: 1955, 1962, 1963, 1964, 1965, 1971, 1973, 1975, 1982, 1983, 1984, 1990, 1992 e 2000 Taça da Roménia: 1959, 1964, 1968, 1982, 1984, 1986, 1990 e 2000

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