Lembrar Bruxelas do inicio do Séc.XX é recordar um tempo e um local que não existe mais. Distante da visão cosmopolita e europeísta do presente, por onde caminham, todos os dias, milhares de burocratas da UE, a nata da sociedade belga passeava-se então sem olhar o horizonte. Era uma ambiente melancólico, que, pelos fins de tarde, convidada as pessoas a escreverem poemas em papel couché.
Foi nesse contexto bucólico que, numa tarde-noite de 1908, quinze homens se reuniram a volta de várias mesas do Café Concordia e decidiram, após horas de tertúlia, fundar o Sporting Club Anderlechtois, adoptando o nome do famoso bairro, a Comuna de Anderlecht, a sul de Bruxelas, sendo nomeado primeiro presidente o dinâmico Charles Roos, que logo tomou a primeira grande medida de fundo: realizar uma quotização para a compra de uma bola de futebol. Assim foi. Movidos pelo prazer de jogar foot-ball, o clube, já com as peculiares cores púrpura e branca nas suas camisolas, inscreveu-se, poucos anos depois, na Federação belga de Futebol, começando a jogar nas divisões regionais. Apenas em 1921, o Anderlecht atingira pela primeira vez a Divisão de Honra, actual Première Division belga. Eram, porém tempos difíceis. Tendo crescido a sombra RC Bruxelles e do Daring Club Bruxelles, os mais fortes clubes da cidade durante os anos 20 e 30, o Anderlecht passaria muitas épocas entre a Iª e a IIª Division.
Em 1933, no momento em que celebrava o seu 25º aniversário, adquire, por fim, o seu nome actual, denominando-se orgulhosamente de Societé Royale. Apesar de ser conhecido sobretudo pelo futebol ofensivo que praticava, seria apenas depois da Segunda guerra mundial que o Andrlecht conquistaria, pela primeira vez na sua história, o titulo de campeão belga. Foi em 1947. Era o inicio de uma nova era.
Por essa altura já se viviam os últimos anos da presidência de Théo Verbeeck, á frente o clube desde 1911. Permaneceu no cargo durante 40 anos, até á chegada de Albert Roosens, em 1951, o presidente que iria encerar a página do amadorismo e introduzir o chamado semi-profissionalismo, passando a contratar grandes jogadores do futebol e a fomentar os centros de formação. Durante as décadas de 50 e 60, o Anderlecht conquista 12 títulos de campeão belga, desenhados nos pés de figuras como Mermans, Jurion, Verbiest, Heylens e, como grande mestre, o elegante Paul Van Himst.
CONSTANT VANDEN STOCK:
O homem que fez o Anderlecht europeu

Durante 93 anos de história, o Anderlecht apenas conheceu 4 presidentes! Depois dos reinados de Charles Ross (1908-1911) e, sobretudo de Théo Verbock(1911-1951) e Albert Roosens(1951-1971), que consolidaram o Anderlecht como o grande senhor do futebol belga, surgiu por fim o homem que tendo como grande referência Santiago Bernabéu, iria lançar o clube de Bruxelas nos relvados europeus: Constant Vander Stock, Le Parrain, que sobre á presidência do Anderlecht em 1971. Era, no entanto, um velho conhecido do Anderlecht, pelo qual jogara nos anos 30, seguindo-se depois um período de 10 anos como seleccionador nacional belga.
Dinâmico, chamava a si todas as decisões, pequenas ou grandes, do clube. Desde a compra de um simples sabonete a um grande contrato nada se fazia sem a sua palavra. Foi um percursor da gestão moderna dos clubes de futebol, dinamizando os seus aspectos comerciais e económicos, através de um volumoso contrato de sponsorização com a Societé Generale de Banque, a mais forte instituição de crédito do país.
Ambicioso e hábil negociador, contrata para o clube os melhores jogadores belgas, apenas faltou Ceulemens, muitas vezes quase perdendo a cabeça, como quando comprou, ao Brugges, no inicio dos anos 90, o médio Degrysse, por cerca de meio milhão de contos, na altura uma soma record para o clube. O Anderlecht tornava-se numa verdadeira empresa. O seu Estádio, que hoje tem o nome de Vanden Stock, é totalmente remodelado e passa a receber a nata social e financeira de Bruxelas, que enche os camarotes de luxo construído especialmente para o efeito.
A saúde financeira e desportiva do Anderlecht de Vanden Stock tinha no entanto, um suplementar suporte á margem da lei. O primeiro sinal surgiria em 1984, quando uma investigação financeira provou que quase todos os clubes belgas tinham um saco azul, a chamada caixa 2. O Anderlecht é um dos principais acusados. Descobrem-se volumosas contas na Suíça e muito dinheiro metido por debaixo da mesa. Astuto Vanden Stock nada nega e defende-se, alegando que tal dinheiro era proveniente dos impostos devidos pelos jogadores que o clube assumira em contrato estarem a seu cargo, o que era inédito em toda a Bélgica. O tempo passa e o caso acaba por cair no esquecimento.
O mais greve seria, porém, conhecido em 1997, quando o Anderlecht surge no centro de várias acusações de corrupção e compra de jogos. Cercado, Vanden Stock confessa ter subornado, em 1984, o árbitro da meia final da Taça UEFA, contra o Nottigham Forest. Desta feita, cansado e com a idade a pesar, o velho presidente não resistiu. Com o crime prescrito, ninguém lhe pode tocar, mas, atacado por todos os sectores do futebol belga, caba por se demitir. Ao mesmo tempo, a UEFA suspende por um ano o Anderlecht das suas competições.
A dinastia Vanden Stock permanece, no entanto, no clube, através de Roger Vande Stock, o novo presidente, enquanto o velho Parrin se tornava presidente honorário. Para trás ficavam 26 anos de emoções fortes.
De Resenbrink a Vercauteren

Entre 1976 e 1984, o Anderlecht disputou cinco finais europeias, ganhando 3 (2 Taças das Taças e 1 Taça UEFA), para além da conquista de 2 SuperTaças europeias. As suas equipas são uma constelação de estrelas, onde também brilham jogadores da BENELUX, holandeses e dinamarqueses, como Resenbrink, Haan, Arnesen, Frmann, Morten Olsen e Brylle. Gozando de um tratamento de excepção, o Anderlecht torna-se numa aproximação das multinacionais equipas da actualidade. Segundo as leis belgas, os jogadores estrangeiros podem alinhar sob licença belga após 5 anos de actividade no país. Assim, começam, também, a chegar, virtuosos jogadores africanos, como Lemptey, M`Bemba e o possante central nigeriano Stefan Keshi.
Os seus grandes símbolos são, porém, belgas. Como o guarda redes Munaron, os avançados goleadores Vandenbergh e Czerniatinzki, o lateral direito Grun, e sobretudo os médios Scifo, o príncipe, Coeck, com um tiro de canhão e o seu célebre grito de guerra. Ao lado deles jogavam dois pequenos diabinhos: Vercauteren e Lozano.
Vercauteren era o clássico médio lutador que crescia com o decorrer do jogo. Incansável, duro nas bolas divididas, tinha também grande capacidade técnica. Todos os seus golos pareciam fabulosos. Com um estilo genioso, fazia parecer de um golo marcado na pequena área, uma façanha quase impossível.
Lozano, de origem espanhola, era um jogador fantástico. Jogava e fazia jogar. Dono de grande visão de jogo, driblava, rematava e arrumava todo o jogo da equipa. Em 1986, saiu para o Real Madrid, mas, em Espanha, nunca atingiu o mesmo nível.
Mas, apesar de todas estes talentos, para Vanden Stock a grande estrala do clube, era o extremo holandês Resenbrink, membro da fabulosa casta dos holandeses voadores, génios do futebol total. Era um velocista que, contrariando as leis da natureza, parecia correr mais do que a bola.
Noutro canto do coração de Vanden Stock está o avançado centro Ajn Mulder, também holandês, que . Mesmo hoje, muitos anos passados do fim da carreira continua a ser um espectador assíduo dos jogos do Anderlecht.
4 históricos treinadores:
NA SENDA DO VELHO FEITICEIRO
Inserido num país considerado como um berço de maliciosos treinadores, o Anderlecht conheceu, na sua história moderna, entendida como a do pós-guerra, quatro técnicos de referência. O primeiro, foi, naturalmente, o inglês Bill Gormley, figura mor no tempo do amadorismo, mas que com as suas ideias britânicas, então ainda os percursores da orgânica futebolística, lançou as bases para o futuro, onde assentou, já nos anos 50, o corso Pierre Sinibaldi.
Seria, porém com o Raymond Goethals que o clube conheceria os seus grandes dias de glória. Velha raposa, seleccionador belga durante 10 anos, conheceu dois ciclos no banco do Anderlecht. Entre 76 e 79, e entre 88 e 89. Grande conhecedor dos segredos mais bem guardados das histórias, pequenas ou grandes, do futebol europeu, é conhecido como Raymond-la-science. É capaz de passar 24 horas sobre 24 horas a falar de futebol.
Finda a sua era, que lançou o clube na Europa, surgiu o trotamundos croata Tomislav Ivic e os seus redutores conceitos de futebol defensivo, o que na Bélgica até nunca foi mal recebido. Com ele, em 80/81, o Anderlecht passou a jogar só com um avançado, ma, apesar disso, foi campeão com onze pontos de avanço sobre o segundo, o Lokeren.
A FORMAÇÃO MULTINACIONAL
Morando ao lado dos franceses, mestre da formação, o Anderlecht também criou uma idolatrada escola de talentos, onde os jovens jogadores são inseridos numa política global sócio-desportiva, desenvolvendo não só o atleta, como o homem e, em alguns casos, a futura estrela dos relvados. Em todos os escalões, o Anderlecht tem 35 equipas! Entre os 700 gamins que correm atrás da bola estão vários jogadores de fora da Bélgica, sobretudo dos países africanos, como o Gana e a Nigéria, onde o clube tem espalhada, tal como por toda a Bélgica, uma astuta rede de olheiros.
O melhor exemplo desta eficácia é o brasileiro, Oliveira, naturalizado belga, selecção na qual se tornou internacional. Descoberto num modesto clube brasileiro chamado Desportivo Tupan em 1985, ingressou no centro de formação do Anderlecht com 15 anos, ficando no clube até 1992, altura em que saiu para o Cagliari da Itália. Manteve os traços fantasistas tipicamente sul-americanos e, mesclando-o com o rigor táctico competitivo belga, tornou-se um dos mais criativos médios ofensivos do futebol europeu dos anos 90. Um símbolo da boa política de prospecção e formação levada a cabo pelo Anderlecht em todo o mundo do futebol.
VAM HIMST:
O jogador belga do século

Foi eleito o futebolista do século entre os belgas, superando monstros como Ceulemens e Van Moer. É a grande lenda do Anderlecht, onde jogou durante 16 épocas, de a 59 a 75, conquistando 8 Campeonatos e 4 taças. Foi por três vezes o melhor marcador do Campeonato: em 64, com 26 golos, em 66, com 25 e em 68, com 20. Fez 82 jogos pela selecção belga, entre 60 e 74, marcando 30 golos. Era um médio goleador que muitas vezes quase parecia um avançado centro tal a forma como se colocava entre as defesas adversárias. Tecnicamente era um mestre. Elegante, era um senhor dentro e fora dos relvados, falando fluentemente em flamengo e francês, condição essencial para adquirir a unanimidade entre a bilingue sociedade belga.
A principal acusação que lhe faziam era, no entanto o de ser demasiado brando em campo, pecando por falta de carácter lutador. Os seus críticos chamavam-lhr Paul au gazon, tal a forma como caia ao mis pequeno toque do adversário. Finda a carreira como jogador, tornou-see treinador do Anderlecht, á frente do qual surgiu em Lisboa, em 1983, para conquitar a Taça UEFA, frente ao Benfica. Seleccionador belga entre 1991 e 1996, as suas opções tácticas, em choque com os jogadores Wilmots e Oliveira, foram alvo de forte contestação. Acabou por sair sem glória, Fica a recordação do perfume técnico e matreiro do seu futebol enquanto jogador que o levou a ser eleito por 4 vezes o futebolista do ano na Bélgica, em 60, 61, 65 e 74.
ENZO SCIFO:
O príncipe belga

Filho de emigrantes italianos, Scifo, foi, futebolisticamente, um produto de diferentes escolas, que se por um lado, moldaram o seu estilo técnico e virtuoso, por outro impediram-no de adquirir um maior carácter competitivo e consistência exibicional. O seu talento foi detectado muito cedo, quando ingressou no Andrlecht como jovem teenager vindo do modesto La Louvière. Em 84, adquiriu nacionalidade belga e com 18 anos jogou pela Bélgica no Euro-84. Todos o viram como o novo príncipe do futebol europeu. Parecia ter olhos nos pés, jogava com a precisão de um relógio suíço, driblava com a malícia dos latinos e ocupava os espaços com o frio sentido táctico anglosaxónico. Um estilo que o levou a assinar pelo Inter, com 21 anos, mas no Calcio, o seu talento esfumou-se. Mais tarde, Trapatonni, seu treinador na época, diria que tinha cometido o erro de o contratar demasiado cedo. A partir desse falhanço a sua imagem turvou-se e a sua carreira conheceu altos e baixos, embora revelando sempre enorme talento, que o levou a estar presente em 4 Mundiais:, 86, 90, 94 e 98. Passou depois pelo Auxerre, Bordeaux, Torino e Mónaco, acabando por pendurar as botas no seu Anderlecht, com apenas 34 anos, numa altura em que o seu joelho, martirizado com uma artrose que lhe provocou sempre graves problemas ao longo da careira lhe ordenou que parasse.